Star Wars: Os Últimos Jedi é a evolução que a franquia precisava

Por Felipe Demartini | 14 de Dezembro de 2017 às 11h18

Pode ficar tranquilo, esta crítica não tem spoilers ;-)

Sabe aquele momento em que você acorda de manhã, mas ainda está sonolento, com o pensamento lerdo e, acima de tudo, pensando e preparando as bases para o dia que está por vir? Isso foi O Despertar da Força, cujo título, agora, faz ainda mais sentido. Star Wars: Os Último Jedi, por outro lado, é quando tudo começa efetivamente a acontecer – e você está em um pico de produtividade.

O longa dirigido por Rian Johnson, que estreia nesta quinta-feira (14) no Brasil, mostra bem porque ele se tornou o queridinho da Disney antes mesmo de seu lançamento, em uma posição que só deve se solidificar agora. É um filme denso, pesado e com muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. É interpretativo, visualmente belo, impactante e, acima de tudo, emocionante, não pelas cenas de ação de tirar o fôlego, por mais que elas existam, mas sim pelos temas abordados e ensejos criados.

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O letreiro inicial, entretanto, nos passa a impressão contrária. Uma das principais críticas a O Despertar da Força é que o filme trouxe pouca novidade, se importando mais em emular Uma Nova Esperança com um novo grupo de personagens e novas tecnologias. Nos primeiros 15 minutos de Os Últimos Jedi, a sensação é a mesma e parecemos estar vendo uma reencenação da Batalha de Hoth, de O Império Contra-Ataca. Depois, tudo muda para melhor.

Dois filmes (ou mais) pelo preço de um

Ao contrário dos filmes anteriores da franquia, a trama do novo começa imediatamente após o fim do anterior. Rey parte em busca de Luke Skywalker, com um pedido de ajuda vindo diretamente da General Leia Organa. Enquanto isso, a Resistência enfrenta um ataque pesado da Primeira Ordem, que, mais do que nunca, aparece em superioridade numérica, tecnológica e ofensiva.

Se existiam dúvidas no primeiro longa, Os Últimos Jedi deixa isso claro: a Resistência está perdendo a guerra. Mais do que um golpe desesperado de quem antes estava no poder, o ataque da Base Starkiller às fundações da Nova República abalou todas as estruturas internas da Resistência. Mesmo anos depois da morte do Imperador Palpatine, as pessoas estão com medo e um novo regime de tirania promete surgir, ainda mais ditatorial e violento que o anterior.

Se a guerra galáctica é um dos temas que permeia todo o longa, afinal de contas está no título da franquia, o medo é outro – e acaba se tornando uma força muito mais forte. Ele está presente em tudo, nas ações muitas vezes impensadas de Poe Dameron e Finn, na visão que Luke Skywalker tem sobre seu exílio e atos passados, no coração de Rey, sem saber exatamente seu lugar nessa história toda, e também no de Kylo Ren.

Rey (Daisy Ridley) e Luke Skywalker (Mark Hamill) são peças centrais de um dos arcos de Os Últimos Jedi

É esse ensejo incrivelmente pessoal para muitos dos personagens que abre caminho para uma das tramas mais intimistas e místicas de toda a saga. Os Últimos Jedi tenta se afastar um pouco dos combates para focar no interior dos personagens, principalmente daqueles ligados à Força. Enquanto a fuga desesperada da Resistência é um dos motores do filme, é a relação entre Luke Skywalker e Rey que efetivamente o leva para a frente.

Esse é um aspecto que pode acabar gerando uma sensação estranha durante a exibição, quando, por exemplo, um momento de grande tensão e decisão na ponte de comando de uma nave da Resistência é cortado para exibição de uma cena de treinamento intenso com a Força, sem que as duas coisas aparentem ter muita relação entre si. E, efetivamente, acabam não tendo mesmo.

Isso também leva a momentos um tanto esquisitos na edição. Cortes secos, muitas vezes, fazem uma transição que deixa ainda menos natural a mudança entre cenas que não possuem ligação, enquanto outras chegam a se parecer até mesmo com erros da mesa de corte. Um momento específico, por exemplo, nos leva de uma tomada para outra, chapada, em close, no rosto de Rey, com ela proferindo frases de uma forma meio esquisita. Parece que faltaram elementos de ligação ali e, principalmente, um cuidado em tornar as coisas mais orgânicas.

Além do roteiro, novo Star Wars chama atenção pela beleza estética

Mas, do ponto de vista técnico, essa é praticamente uma das poucas críticas. O amadurecimento da nova trilogia de Star Wars nos leva a um dos longas mais visualmente belos de toda a saga, que pesa a mão nos efeitos especiais, mas sem aquele aspecto plástico a que nos acostumamos na Nova Trilogia. Palmas para o departamento de arte, principalmente o de fotografia, e também para o diretor, que soube aproveitar tudo isso criando imagens que poderiam muito bem saírem da projeção diretamente para uma moldura na parede.

Misticismo e conexões

Falando em Nova Trilogia, inclusive, Os Últimos Jedi serve para trazer de volta aos trilhos um dos aspectos mais odiados dessa sequência. Até hoje, o criador George Lucas recebe críticas por transformar a Força mais em uma relação de números e biologia do que um poder ancestral. O novo longa ignora educadamente essas noções e traz de volta aquele aspecto poderoso e intimista de um poder que está presente em todos os seres vivos.

A saga de Rey para encontrar seu papel no mundo e também a verdade sobre seu passado contrasta com a decisão de Luke Skywalker. Exilado após o fracasso de sua iniciativa de criação de uma escola Jedi, completamente destruída por Kylo Ren, eles batem de frente diversas vezes. O mentor, ao mesmo tempo em que não quer nada com sua nova aluna, tem medo dela e, simultaneamente, também um senso de responsabilidade com aquele indivíduo que parece ser tão poderoso com a Força.

Ninguém é totalmente bom ou ruim em Star Wars: Os Últimos Jedi

Sem os dogmas da velha guarda, também, as apostas parecem mais altas aqui, assim como os desvios de caráter. Fugindo um pouco do maniqueísmo que aparece em todos os longas da franquia, Star Wars: Os Últimos Jedi nos mostra, pela primeira vez, que os heróis também podem tomar decisões erradas ou caminhar por um trilho meio acinzentado. Esse é o ponto principal da jornada de Luke Skywalker neste filme, mas também aparece relacionado à Resistência, mostrando que nada, nunca, é preto no branco.

Esses desvios, inclusive, geram uma das cenas mais memoráveis de todo o longa, com Skywalker chegando a seu limite antes de receber sua lição derradeira sobre os desígnios da Força. É, também, uma das forças motrizes de um dos principais elementos narrativos não apenas de Os Últimos Jedi, mas de toda essa trilogia atual. Por mais que você tenha teorias ou conclusões, acredite, a realidade é ainda mais surpreendente e interessante.

A Força volta a assumir um papel central, principalmente nos bastidores dos eventos, caso, claro, você considere que a guerra civil é o grande mote desse universo. Cada vez mais, entretanto, elas se misturam e, por mais que Os Últimos Jedi soe como um filme em dois atos que convergem somente no final, pela união dos personagens, a sensação é que militarismo e misticismo caminharão cada vez mais de forma unificada.

Falecimento de Carrie Fisher causou mudanças drásticas em Star Wars: Os Últimos Jedi

Isso, entretanto, gera um dos poucos momentos efetivamente bizarros do longa. Em uma nota pessoal, durante a exibição, atribui muitos dos cortes esquisitos às refilmagens e mudanças que aconteceram durante a produção, mas aqui, e você vai saber exatamente do que estou falando quando a cena chegar, a coisa passa completamente dos limites. É um Deus Ex Machina do pior tipo, que deve franzir a testa até mesmo do fã mais apaixonado pela personagem em questão.

Ao surgirem os créditos de Star Wars: Os Últimos Jedi, a sensação é de que muita coisa aconteceu. Entende-se a vontade da Disney em criar uma base confortável para a apresentação dos novos personagens e do ensejo deste mundo em O Despertar da Força, para, agora, seguir com confiança para um futuro que efetivamente mude as coisas. É justamente por esse motivo, inclusive, que muitos fãs não vão gostar. A evolução da atual trilogia, citada de maneira saudável nesta resenha, também pode ser extremamente negativa para muitos.

O que não dá para negar, entretanto, é que estamos, agora, seguindo para o futuro na velocidade da luz. Além da Força e da máquina militar, é a esperança que moverá as coisas daqui em diante. Star Wars: Os Últimos Jedi firma as bases para o que promete ser um fim de trilogia espetacular. 2019 não poderia estar mais distante.

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