Estudo revela o que levou o maior lago do mundo a sumir há 10 milhões de anos

Estudo revela o que levou o maior lago do mundo a sumir há 10 milhões de anos

Por Wyllian Torres | Editado por Patrícia Gnipper | 18 de Junho de 2021 às 13h56
M. Böhme/M. Winklhofer

Há cerca de 10 milhões de anos, a Eurásia possuía o maior lago já conhecido na história do nosso planeta — o Paratethys. Mas, nessa mesma época, ele desapareceu. Em um novo estudo publicado na revista Scientific Reports, pesquisadores revelam a origem e o fim do enorme lago que existiu em uma região entre os Alpes Orientais e o atual Cazaquistão.

Para isso, os pesquisadores utilizaram um modelo paleogeográfico 3D e analisaram um período daquela região compreendida entre 11,6 milhões e 7,2 milhões de anos atrás. O estudo também contou com outros dois modelos digitais de elevação (DEM, sigla em inglês); enquanto um estimou a expansão máxima do lago, o outro simulou os episódios de seca enfrentadas na região, de modo a obter uma paleogeografia parcial — ou seja, uma leitura mais precisa desse passado distante.

As simulações contaram com o complemento de outros dados paleogeográficos de vários estudos e pesquisas que já haviam sido publicados sobre a região norte e oeste da Europa, dos Alpes e da Europa Central, da região de Gibraltar, dor mar Egeu, e até mesmo um mapa tectônico do Oriente Médio. O rico volume de dados aplicados a reconstrução desse passado proporcionou que os pesquisadores vislumbrassem o que aconteceu com o lago Paratethys.

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A água que sobro do grande lago, se transformou em um pequeno lago salgado, onde hoje é o Mar Negro, além de outras bacias menores (Imagem: Reprodução/ArcGIS Pro)

Segundo o estudo, o lago começou a se desfazer por volta de 11,6 bilhões de anos atrás, após perder suas conexões com o oeste dos Cárpatos, uma região de cordilheiras — tornando-se mais instável e vulnerável aos processos de seca extrema. Então, o Paratethys se dividiu em um lago salgado central com algumas bacias sem sal em regiões mais afastadas, surgindo uma extensa região seca que seria posteriormente ocupada pela vegetação — formando uma ponte ecológica que permitiu a migração de espécies para a Europa e para a Ásia Central.

“As dessecações [estado de secas extremas] parciais do megalago correspondem às mudanças climáticas, alterações da teia alimentar e da paisagem em toda a Eurásia, embora os gatilhos e mecanismos exatos ainda não tenham sido resolvidos”, explica o grupo de pesquisadores.

O principal autor do artigo, Dan Valetin Palcu, estagiário de pós-doutorado no Instituto de Oceanografia da Universidade de São Paulo (IO-USP), diz que: “o Paratethys se expandiu e ocupou uma área de 2,8 milhões de km quadrados. Chegou a armazenar 1,77 milhão de km cubicos de água salobra. Isso representa mais de dez vezes toda a água armazenada nos lagos modernos”. Para Luigi Jovane, professor do IO-USP, os locais analisados na pesquisa devem ter sido parecidos com as bacias do pré-sal do Atlântico.

As rochas que se formaram durante os períodos de seca do megalago, hoje são falésias no litoral do Mar Negro (Imagem: Reprodução/D. V. Palcu/USP)

A perda de boa parte do lago também afetou a vida local, pois reduziu e modificou a fauna endêmica. No estudo, os pesquisadores também identificaram espécies marinhas, como crustáceos, baleias e golfinhos, que, embora tenham conseguido se reproduzir no início desta mudança, foram forçados a se adaptar às novas condições do local e tornaram-se distintos dos animais daquela época.

O grupo de cientistas acredita que esse inovador modelo paleogeográfico 3D poderá ser usado em outros trabalhos que buscam desvendar a formação das atuais áreas geológicas, como as camadas de pré-sal brasileira ou os campos de gás próximos a Israel. O estudo relatando todas as etapas da pesquisa pode ser acessado na Scientific Reports.

Fonte: FAPESP

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