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Esqueletos de ratos revelam segredos de viagem marítima mercante há 1.400 anos

Por| Editado por Luciana Zaramela | 18 de Abril de 2022 às 19h20

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Amir Yorman/Recanati Institute for Maritime Studies
Amir Yorman/Recanati Institute for Maritime Studies

Recentemente, pesquisadores da University of Haifa encontraram os restos de um navio de comércio que naufragou na costa de Israel entre 648 e 740 d.C., há cerca de 1.400 anos. Preservados no casco da embarcação estão diversos itens de comércio levados pelos mercadores da época, alimentos preservados e o esqueleto de seis ratos — que dizem mais sobre a vida da época do que imaginamos.

O período em que o navio afundou é conhecido pela história como a Idade Média, ou Idade das Trevas, e se acreditava que fosse uma época de isolacionismo e pouca comunicação entre civilizações: os registros pouco falam além de conflitos navais entre o Império Bizantino e os muçulmanos no Mediterrâneo, região por eles compartilhada e por onde a embarcação navegou. Sua descoberta, no entanto, desafia essa crença.

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Ratos turistas

Os restos naufragados foram chamados "Navio "Ma’agan Michael B", já que foram encontrados próximos à comunidade judaica de Ma'agan Michael e representam o segundo achado local, sendo o primeiro uma embarcação menor encontrada em 1980. Sierra Harding, uma zooarqueóloga que participou do projeto de pesquisa, afirma que os restos de roedores encontrados no navio são a evidência mais antiga de uma infestação de ratos em um navio, e a única direta em um naufrágio no Mediterrâneo — ou seja, não deriva de um relato.

Alguns dos espécimes presentes no navio são de ratos pretos (Rattus rattus), uma espécie que acompanhava comerciantes do Oriente Médio vindos do sul da Ásia e da Índia há mais de 2.000 anos. A questão é que a morfologia dentária dos roedores mostrou que pelo menos dois deles eram exóticos à região do naufrágio — resultados preliminares demonstram que a origem deles pode ser da Tunísia ou da Córsega, no centro do Mediterrâneo.

Isso, segundo os pesquisadores, quer dizer que havia muito mais comunicação, comércio, trocas e transporte nessa época do que se representa na historiografia, que foca nos embates entre os povos da época. Além disso, o reporte preliminar da universidade, publicado em 2020, conta que a carga do navio é a maior coleção de cerâmica do período bizantino e início do período islâmico já encontrada.

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Há pelo menos 200 ânforas cheias de moedas, artefatos de madeira, utensílios de cozinha, nozes da Turquia, tâmaras, figos, azeitonas, garum (molho romano feito de fermentado de peixe) e uma carga de vidro no navio, além de outros achados muito interessantes: cruzes cristãs, dizeres em grego e árabe estavam esculpidos nas paredes. Além de indicar que pelo menos parte da tripulação era alfabetizada — algo raro para a época —, isso demonstra sua diversidade. Uma das palavras escritas no local é "Bismillah", que significa "o nome de Deus", em árabe.

O navio tinha 25 metros de comprimento e foi encontrado numa profundidade de 3 metros, sob 1,5 metros de areia, explicando seu sumiço por tantos anos, mas também a preservação dos bens em seu interior. Mergulhadores amadores haviam notado os restos naufragados em 2005, mas a areia voltou a escondê-los por uma década, quando a equipe da universidade os reencontrou. Não há restos humanos no naufrágio, indicando que a tripulação aproveitou a proximidade da costa para escapar do afundamento.

Os pesquisadores planejam continuar investigando os restos mortais do navio e seus bens, que revelam muitos outros aspectos da vida da época. Algumas das descobertas visadas são a origem e destino da embarcação, que já se sabe ter sido cara e feita com tecnologias das mais modernas da época. Apesar de se saber pouco da tripulação, que deixou apenas os escritos e desenhos esculpidos na madeira, se estima que era de cerca de oito pessoas.

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Fonte: University of Haifa