100 anos de Isaac Asimov e seu legado para a geração da era tecnológica

Por Daniele Cavalcante | 10 de Abril de 2020 às 13h15

Em 2 de janeiro de 1920, nascia em Petrovich, na Rússia, o escritor e bioquímico Isaac Asimov. Autor com mais de 500 obras, incluindo romances, contos, ensaios e histórias de divulgação científica, ele foi um dos grandes nomes da chamada era de ouro da ficção científica nos anos 1950.

Seu trabalho ainda hoje ganha diversas reedições e adaptações para TV e cinema. É uma vasta bibliografia que soma 463 livros e 46 obras editadas - um total de 509. Nessas páginas, Asimov explorou diversos campos do conhecimento, e acabou se tornando amplamente conhecido pelas obras de ficção científica, principalmente por seus robôs.

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Foi em uma dessas histórias que Asimov criou as famosas Leis da Robótica, até hoje estudadas por engenheiros e por legisladores do mundo todo. Também é famoso por prever e debater abertamente alguns dos temas mais delicados da nossa atual sociedade tecnológica.

Asimov e a robótica

Isaac Asimov em 1984 na livraria Mysterious Book Store de Nova York.

Embora o conceito de seres autômatos já existissem na literatura, através de contos como O homem de areia (1816), de E.T.A Hoffman, e O feitiço e o feiticeiro (1899), de Ambrose Bierce, o termo robô tem origem na palavra tcheca “robota”, que pode ser traduzida como “trabalho forçado”. Essa ideia de que robôs são uma espécie de escravos da humanidade, que então se revoltam, foi bastante abordada antes de Asimov - ele próprio aproveitou o conceito, mas foi muito além disso.

A palavra “robota” foi usada primeiro para descrever os autômatos de uma peça de teatro do autor tcheco de ficção científica Karel Capek (1890-1938). Sua obra de 1920 contava uma história sobre autômatos de aparência humana criados por um cientista genial chamado Rossum. Em um artigo escrito para o dicionário Oxford, Čapek explicou que a princípio pensou em chamar suas criaturas de labori (do latim labor, “trabalho”), e que seu irmão Joseph, também escritor, propor roboti, que acabou sendo uma opção mais sonora.

Na peça de Čapek, os robôs fogem do controle humano, desenvolvem sentimentos próprios e terminam por destruir a espécie que os criou. Este é basicamente o enredo que inspirou uma infinidade de histórias de ficção científica na época - até a estreia de Asimov na literatura.

Em sua obra, Asimov preferiu abandonar a abordagem tradicional e se aprofundar no tema. É importante lembrar que, além de autor de ficção científica, Asimov era bioquímico, escrevia livros sobre ciência que explicam conceitos científicos, inclusive com cronologia histórica, além de trabalhos sobre astronomia e matemática. Por isso, sempre houve uma preocupação em lidar com a ciência com uma visão menos pessimista - e, certamente, mais realista, ponderando todos os prós e contras da evolução tecnológica à qual a humanidade se dirigia.

Ele deixou sua visão bem clara ao escrever: “Tornou-se muito comum, nas décadas de 1920 e 1930, retratar os robôs como inventos perigosos que invariavelmente destruiriam seus criadores. A moral dessas histórias apontava, repetidas vezes, que há coisas que o homem não deve saber. No entanto, mesmo quando era jovem, não conseguia acreditar que se o conhecimento oferecesse perigo, a solução seria a ignorância”. Percebe-se aí a constante preocupação em defender a ciência, mesmo sem fechar os olhos para os problemas sociais que ela pode nos trazer.

Assim, suas obras se tornaram um diferencial das demais histórias de ficção da época porque seus robôs ganharam nova complexidade e seus universos tinham as nuances importantes para uma discussão saudável sobre o avanço da tecnologia. Em seu primeiro conto sobre robôs, Robbie (1940), podemos ver grupos antirrobôs que protestam contra as máquinas, e uma criança que não consegue superar a perda de seu robô cuidador. O leitor se depara com dois lados da mesma moeda - o robô carinhoso com a criança e a realidade dos trabalhadores que perdem seus empregos.

Em um de seus livros mais emblemáticos, Eu, Robô, Asimov nos apresenta um mundo em que humanos e robôs convivem em sociedade, explorando possíveis relações que dali poderiam surgir, assim como o desenvolvimento de “sentimentos” nas máquinas criadas pelos humanos. O filme homônimo estrelado por Will Smith é inspirado na obra.

É nesta história que o autor introduz as famosas três leis da robótica. Mesmo sendo oriundas de um livro de ficção, elas são ótimas diretivas para robôs caso nossa ciência consiga desenvolvê-los de forma semelhante à dos livros de Asimov.

As três leis são:

  • 1.Um robô não pode ferir um ser humano ou, por ócio, permitir que um ser humano sofra algum mal.
  • 2.Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei.
  • 3.Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e Segunda Leis.

Mais tarde Asimov acrescentou a “Lei Zero” acima de todas as outras: um robô não pode causar mal à humanidade ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal. Alexey Dodsworth, autor brasileiro de ficção científica, afirma que a primeira lei deveria receber maior atenção, haja vista que alguns robôs virtuais atualmente podem induzir humanos a cometer erros, promovendo até linchamentos em massa nas redes sociais. Também afirma que as leis devem ser seguidas, sob risco de a humanidade ser destruída caso o contrário. “Os robôs não terão culpa, já que os programamos sem os imperativos éticos propostos pelo escritor”, afirma Dodsworth.

Outra obra de ficção de renome do autor é a Trilogia da Fundação, que inclusive ganhará uma adaptação no serviço de streaming da Apple. Posteriormente veio a se tornar Série Fundação, composta por um total de sete livros. A série conta, com riqueza de detalhes, as influências que o conhecimento científico pode ter em uma sociedade de proporções galáticas. Um conceito apresentado na obra é o da psicohistória, termo cunhado pelo próprio autor, que utiliza metodologias matemáticas e das ciências sócias para prever o futuro de sociedades.

Trilogia da Fundação, de Isaac Asimov (Imagem: Musing Studio)

Há ainda uma série de contos que têm os robôs como tema central os robôs positrônico - um conceito criado por ele próprio; são robôs com cérebros que possuem inteligência artificial, constituído de platina-irídio, cujos circuitos produzem e eliminam pósitrons, partícula recém-descoberta na época em que o autor criava suas primeiras histórias.

Inicialmente, os contos não foram concebidas como uma série, mas todas as história possuem o tema de interação de humanos, robôs e moralidade. Por isso, embora exista um punhado de inconsistência entre contos e romances, toda essa obra acabou sendo considerada como parte de um único universo. Muitos desses contos são de grande importância, como é o caso de O Homem Bicentenário, que recebeu o Prêmio Hugo e o Prêmio Nebula de melhor novela de ficção científica de 1976 e ganhou uma adaptação para o cinema estrelado por Robin Williams.

No campo da não ficção, um dos livros de Asimov foi o Cronologia das Ciências e das Descobertas, um compilado de descobertas realizadas pela humanidade, datando desde a pré história até o ano de 1988. A edição em inglês do livro conta com 791 páginas, e dentre as descobertas listadas, estão a dominação do fogo, a invenção do microscópio e a descoberta do DNA.

As previsões de Asimov

É interessante observar que, mesmo a psico-história sendo um conceito fictício, o próprio Asimov foi capaz de fazer “previsões” para muito além de seu tempo para as sociedades humanas, que ainda hoje vemos se concretizando. Essas previsões foram realizadas em entrevistas, primeiro em 1964 para o The New York Times, e depois em 1983, para o Toronto Star.

Entre essas previsões, ele falou sobre existência de aparelhos corriqueiros no nosso dia a dia, mas inexistentes na época: fornos de micro-ondas, televisores de tela plana e a própria internet, por exemplo. Outras previsões acertadas foram o ensino à distância (EAD), mesmo que não nas mesmas proporções que Asimov imaginava. Também previu a substituição do trabalho humano pelo robótico, além da inserção de aparelhos tecnológicos na vida cotidiana, que se tornariam essenciais (celulares que o digam).

O mais importante na declaração sobre a internet e o EAD não é a previsão da tecnologia em si, mas as possibilidades que ela traz para melhorar a vida das pessoas. Quando o entrevistador Bill Moyers questiona se as máquinas poderiam “desumanizar a aprendizagem”, o escritor oferece, mais uma vez, sua visão - a de que a internet, na verdade, seria benéfica por oferecer uma relação direta entre aluno e a fonte da informação. Essa reflexão servia para, já naquela época, ajudar a moldar a sociedade da melhor maneira quando essa tecnologia surgisse.

Muitas das contribuições de Asimov para os dias de hoje vieram de livros de ficção. Isto pode ser um grande exemplo de como a arte pode ser um meio de transmitir conhecimento, e não está distante do conhecimento científico: muito pelo contrário, tais obras foram profundamente embasadas nas descobertas e previsões científicas que existiam na época.

Podemos falar muito sobre como o impacto que as obras de Asimov, e de outros autores, podem influenciar a forma como lidamos com nossa realidade e como a imaginamos no futuro. Esse é um dos principais legados de Asimov - aprendemos com ele a antever não apenas os problemas que a tecnologia pode nos trazer, mas também seus potenciais benefícios. Assim, podemos preparar a sociedade para lidar com ambos os lados da moeda. Afinal, essa responsabilidade é nossa, que construímos hoje o mundo de amanhã.

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