Entregador se torna engenheiro de software do iFood após viralizar no LinkedIn

Entregador se torna engenheiro de software do iFood após viralizar no LinkedIn

Por Nathan Vieira | 25 de Agosto de 2020 às 14h19
Divulgação/iFood

No início de agosto, um relato viralizou no LinkedIn, alcançando milhares de visualizações: o entregador do iFood, Vitor Eleotério, ingressou um processo seletivo cujo objetivo era desenvolver um app em Flutter. O programador aprendeu a linguagem em dez dais e, mesmo tendo que driblar os obstáculos de seus equipamentos antigos (o computador estava lento e o celular com a tela quebrada), conseguiu entregar o projeto. No entanto, o que surpreendeu no relato foi que, mesmo recebendo elogios dos gestores da empresa, Vitor não foi selecionado unicamente por ter "uma infra necessária para tocar o projeto".

“Infelizmente, tu não foi escolhido dessa vez. O que pegou mais foi tu não ter uma infra necessária para tocar nosso projeto, tu não tem um computador e teu celular ‘acabou’ recentemente”, foi o que os gestores alegaram, segundo Vitor. No relato, ele ainda questiona: "Para ter um equipamento melhor é preciso ter dinheiro. Como ter dinheiro sem oportunidade? Fica aqui uma reflexão para os gestores buscarem entender o esforço de cada candidato e não apenas o resultado final".

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A repercussão do caso foi tão grande que mobilizou vários gestores, que ofeceram a Vitor novos equipamentos e vagas de emprego. Foi assim que ele se tornou engenheiro de software do próprio iFood, empresa para a qual fazia entregas anteriormente.

Em entrevista para o Canaltech, Vitor conta que sempre gostou da área de TI como um todo. Com 16 anos, começou a tomar conta de uma lan house e foi aprendendo mais sobre informática. Com o tempo, passou a fazer manutenção naquela lan house e em muitas outras, e acabou se tornando uma referência, instalava os softwares, fazia manutenção dos computadores. “Foi aí que surgiu essa mágica de programação”, relembra.

Vitor acrescenta que descobriu a programação enquanto carreira por meio de um amigo, que era chefe de departamento de TI. “Eu falei que realmente gostava, mas que não comecei a estudar TI porque eu tinha medo de perder um tempão fazendo uma faculdade e não conseguir ganhar dinheiro com isso. Ele disse: ’Faz, porque você vai ganhar dinheiro. Essa é a tua área, é o que você gosta e quando você faz algo que você gosta, você faz bem. E quando você faz bem, você ganha dinheiro, sim”.

Aprender Flutter em dez dias não é uma tarefa fácil, e sobre essa tarefa, Vitor declara: “Eu acabei me desafiando.. Antes de se desafiar, você não sabe o seu potencial. Ali naquele processo, eu não quis saber se eu conseguiria fazer ou não, eu falei que ia pegar, que eu ia fazer e eu fiz. Se eu não conseguisse fazer, pelo menos teria a consciência limpa”. Durante o processo, Vitor sentava pra estudar e programar, e ficava de 15 a 18 horas escrevendo código, aprendendo, escrevendo e apagando, experimentando coisas novas.

Processo seletivo

Apesar do resultado inesperado no processo seletivo, Vitor conta que não sentiu raiva. Ele tinha sido indicado por um amigo para participar daquele processo, e conta que o gestor e os recrutadores foram respeitosos desde o início. “eu não fiquei com raiva porque eu tenho maturidade para entender que a empresa às vezes pode estar passando por um momento ruim. Ser gestor não é fácil. Então eu imagino que para aquele gestor em particular, tomar aquela decisão foi bem difícil, também. Deu para notar que ele tinha muita empatia”.

Embora sem raiva, o entregador relata que ficou devastado com o resultado, e chegou até mesmo a ficar doente. “Eu fiquei muito triste. No mesmo dia eu fiquei doente. Passei a semana com febre. Passei pelo meu luto de uma semana, chorei muito, e quando eu me recuperei, a primeira coisa que eu fiz foi uma reflexão. Não foi pra me expor, querer dar uma de coitadinho, querer uma vaga “isso e aquilo”... não. Foi uma reflexão que eu queria que atingisse algumas empresas, para mudarem a forma de fazer o processo seletivo, e também para a comunidade, para saberem que não estão sozinhos — aconteceu comigo, também”.

Ao compartilhar a situação, Vitor tomou o cuidado de não expor a empresa e os responsáveis. “Para mim, para mensagem que eu queria passar, se eu fizesse isso seria uma vingança, e eu não quero me vingar. Eu agradeço a eles pelo processo, inclusive. Esse processo me deu a capacidade de saber exatamente qual é o meu valor”.

Na próxima segunda-feira (1), Vitor Eleotério começa como engenheiro de software no iFood, empresa para a qual ele fazia entregas antes (Imagem: Arquivo pessoal/Vitor Eleotério)

Repercussão

Com a repercussão do relato publicado no LinkedIn, mais de 30 empresas entraram em contato com Vitor, que participou de vários processos seletivos. Na próxima segunda-feira (1), ele começa como engenheiro de software no iFood, empresa para a qual ele fazia entregas. Ele também ganhou novos equipamentos, como um notebook e um HD externo, além de cursos. “O que me ajudou foi a esperança de poder sair daquela miséria. Eu ainda vou começar no iFood, mas minha vida ainda não mudou porque eu ainda não recebi o meu primeiro salário. Então no momento, neste mês, minha realidade é a mesma”, explica. “Depois que eu receber, as coisas vão mudar, consequentemente. Então o que me ajudou foi a vontade de sair de onde eu estava, sabe? A força de vontade, mesmo”, acrescenta.

Mesmo que o primeiro dia ainda não tenha chegado, Vitor conta que o caso já impactou até mesmo a sua família. “A minha mãe está muito feliz, muito orgulhosa. São coisas que não tem preço, não é? Ela demonstra felicidade todos os dias, acorda e me dá um beijo, não que ela já não fizesse isso antes, mas dá para notar a felicidade dela. Ela ficava muito triste por essas coisas ficarem acontecendo com os filhos, foi quando ela viu que eu realmente consegui, que eu me sobressai em alguma coisa, fui valorizado, fui requisitado”.

Quanto ao futuro, Vitor exprime seu desejo de seguir a carreira acadêmica, fazer mestrado e, posteriormente, doutorado. “A minha avó, desde que eu era adolescente, me olhava assim e dizia que eu era muito inteligente, e que iria ser um doutor. E eu quero, é um sonho meu, realmente ser um doutor. Eu faço a minha graduação, e assim que a pandemia acabar, vou iniciar um intensivo de inglês. Assim que eu terminar minha faculdade, quero fazer uma pós graduação e já emendar talvez com o mestrado e um doutorado. Gosto muito da área de segurança de informação, segurança de dados, e também gosto bastante da área de inteligência artificial, então quando fizer mestrado e doutorado será em uma dessas duas áreas”, conta.

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