O que os apps de transporte fazem para impedir assédio durante as corridas?

Por Patrícia Gnipper | 04 de Junho de 2018 às 09h52

O assunto "assédio" é pauta constante quando falamos de mulheres usando aplicativos de mobilidade urbana. A novidade, que está transformando nossos hábitos de locomoção pelas cidades, traz diversos benefícios como, por exemplo, conseguir um carro rapidamente, escolher modalidades mais baratas se assim desejar e saber que, precisando de um transporte rápido e eficiente, é só abrir o aplicativo e fazer o chamado, acompanhando o trajeto do motorista pelo mapa e podendo pagar via cartão de crédito pelo app, sem precisar tirar a carteira do bolso.

Desde que a Uber chegou ao Brasil, a concorrência surgiu rapidinho, e, hoje, temos uma variedade de apps à mão, como 99 e Cabify, além daqueles específicos para o público feminino, como Lady Driver e FemiTaxi. E o surgimento dos apps exclusivamente femininos não aconteceu à toa: o número de denúncias relacionadas a assédio em corridas é tamanho que se fez necessário existir serviços somente com motoristas mulheres, garantindo às passageiras que, ao menos naquela corrida, elas não passarão por nenhuma situação desagradável do tipo.

E não pense que esses casos são poucos: denúncias de assédio por parte de motoristas homens com passageiras mulheres acontecem o tempo todo, incluindo um recente caso de estupro que a escritora Clara Averbuck alega ter sofrido em uma corrida com a Uber, caso que repercutiu pelos quatro cantos da internet e rendeu uma campanha virtual para que outras mulheres criassem coragem e denunciassem abusos sofridos em corridas pedidas por aplicativos.

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Mas e aí, o que será que as companhias por trás dos aplicativos de mobilidade urbana estão fazendo para resolver o problema? Isto é: o que elas estão fazendo além do básico, que é o sistema de denúncias disponível aos usuários? É isso o que o Canaltech tentou descobrir conversando com Uber, 99 e Cabify.

99

Além do básico, que é fornecer uma ferramenta pela qual usuários podem denunciar condutas indevidas e problemas durante uma corrida, Leonardo Soares, diretor de segurança da 99, nos disse que o telefone 0800-888-8999 oferece auxílio imediato à passageira. Ele ressalta que o canal de atendimento conta com mulheres para atender a esse tipo de incidente específico, capacitadas para oferecer apoio emocional e psicológico.

Além disso, o 0800 pode enviar um carro emergencial em ocorrências em que a vítima está em um local isolado, preferindo interromper a corrida ali mesmo do que arriscar encerrá-la com um assediador a bordo. "Nesses casos, o responsável é imediatamente bloqueado da plataforma", reforça o executivo.

Treinamento para motoristas da 99 ministrado por Leonardo Soares (Foto: 99)

A 99 também conta com a inteligência artificial para monitorar o perfil de todas as corridas em tempo real. "O algoritmo verifica padrões de incidentes de segurança, bloqueando chamadas perigosas antes que elas aconteçam, ou solicitando validações adicionais de identidade, caso necessário", explica. Isso significa que o sistema identifica táticas de pessoas mal intencionadas, bloqueando seu acesso à plataforma.

Como uma garantia a mais de segurança para os passageiros, a 99 também oferece um seguro pessoal de até R$ 100 mil, o que vale desde o aceite da corrida até sua finalização.

Quando questionado sobre o treinamento que a 99 fornece a seus parceiros, Leonardo contou que a empresa inclui em suas sessões orientações de combate ao assédio, desrespeito e discriminação. "É recomendado aos condutores que se lembrem que seu carro é seu negócio, onde é necessário manter o decoro e evitar assuntos pessoais ou polêmicos, especialmente com mulheres", conta. Reforçando os treinamentos, a 99 mantém um podcast recheado de orientações do tipo, que já tem cerca de 2 milhões de visualizações.

"A 99 é uma empresa genuinamente preocupada com a segurança de seus passageiros e motoristas. O assunto é prioridade máxima do aplicativo, e um de seus três pilares fundamentais (promover transporte rápido, econômico e seguro). Para garantir que o serviço seja seguro, a 99 montou uma equipe especialmente dedicada a isso, composta por mais de 30 pessoas incluindo ex-militares, engenheiros de dados e até psicólogos. O time trabalha 24 horas por dia, sete dias por semana, cuidando exclusivamente da proteção dos usuários", finaliza o executivo. Com isso, 99,99% das corridas são seguras atualmente, segundo a companhia.

Uber

A Uber, por meio de um porta-voz, declarou acreditar que as mulheres têm o direito de ir e vir da maneira que quiserem, e, além disso, têm o direito de fazer isso em um ambiente seguro. "A missão da Uber é justamente esta: oferecer, ao simples toque de um botão, uma opção de mobilidade acessível e eficiente", disse a empresa.

A companhia explica que, quando alguma usuária denuncia caso de assédio, um cruzamento de dados é realizado e, confirmando-se a denúncia, o agressor é automaticamente desativado. Contudo, a Uber disse estar buscando aprimorar ainda mais seu serviço, o que inclui o rastreamento das corridas via GPS para que, em casos de incidentes, sua equipe especializada possa dar o suporte necessário à passageira, sabendo quem foi o motorista responsável.

Além disso, a Uber declarou estar fazendo pesquisas para, talvez, criar um serviço paralelo exclusivo para mulheres. Ainda não sabemos se essa novidade pode chegar por meio de um outro app, ou como uma opção exclusivamente feminina no próprio aplicativo da Uber, mas certamente a novidade seria bem-vinda.

Já quando perguntamos mais detalhes sobre o treinamento que é dado aos condutores, a empresa afirmou que não há diferença nas instruções passadas para motoristas das diferentes modalidades. Ainda que muitas usuárias relatem com mais frequência problemas que ocorreram usando as categorias mais baratas, a empresa garante que o treinamento é o mesmo para todos.

Reforçando o treino, a Uber também vem apostando em parcerias para conscientizar as pessoas sobre a necessidade de se praticar o respeito. Foi o que aconteceu durante o Carnaval, quando a empresa firmou parceria com a ONG Plan International Brasil para lançar uma campanha com vídeos informativos sobre violência contra a mulher, álcool e direção, homo e transfobia e racismo.

Além disso, no ano passado outra parceria com a revista CLAUDIA e a ONU Mulheres gerou uma cartilha digital educativa, que foi enviada a todos os motoristas parceiros. Uma versão impressa também foi emitida, e segue em distribuição nos mais de 70 centros de atendimento da Uber no país.

Já quanto à garantia de que um motorista banido não consiga retornar à plataforma usando outro carro, ou até mesmo com documentos falsos, a Uber garante que faz uma análise aprofundada da documentação e, além disso, de tempos em tempos, aleatoriamente, exige o envio de uma selfie por parte dos motoristas parceiros antes de aceitar uma viagem. Isso "ajuda a garantir que a pessoa que está usando o aplicativo corresponde àquela da conta que temos nos arquivos", explica a empresa.

Cabify

Também conversamos sobre o tema com Luís Saicali, head of operations Brazil da Cabify. Ele explicou que a empresa orienta usuárias e motoristas a relatarem toda e qualquer situação atípica e suspeita para o suporte da empresa, que fica disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana; mas também é incentivado informar as autoridades competentes quando acontecer algum problema que caracterize crime (como o assédio sexual).

"A Cabify pode realizar a suspensão preventiva do motorista parceiro até a conclusão das investigações", explica. Ainda, com o uso da tecnologia, a empresa consegue dar suporte rapidamente em casos de incidentes, tendo conhecimento do trajeto feito e os históricos de ambos — motorista e passageira.

Quanto ao treinamento fornecido para os condutores, a Cabify contou que oferece sessões informativas para motoristas, que recebem informações e dicas de atendimento, qualidade e segurança. "Temos um rigoroso processo de cadastramento de motoristas", explica Saicali, que também revelou que, na Cabify, são solicitados "exames toxicológicos e atestados de antecedentes criminais".

"Botão do pânico"

Recentemente, o FemiTaxi (app de transporte exclusivamente feminino) decidiu instalar câmeras de segurança e adotar um "botão do pânico" no interior dos veículos. O aparelho monitora tudo o que acontece no interior do carro, mantendo os registros em vídeo e, por meio do Wi-Fi, a central de monitoramento pode acompanhar a corrida caso o botão seja acionado pela motorista ou pela passageira.

FemiTaxi é um app de transporte exclusivo para mulheres (Foto: FemiTaxi)

Perguntamos, então, aos demais apps de mobilidade urbana, em meio a tantos casos de assédio sofrido por passageiras em corridas com motoristas do gênero masculino, se eles não pensam em adotar um recurso semelhante em seus serviços.

A 99 declarou que, atualmente, está sim estudando a funcionalidade, sem especificar nada além disso. Já a Uber disse que, no momento, não há nenhuma novidade com relação a uma função do tipo no aplicativo. A Cabify, por sua vez, disse que está avaliando, mercado por mercado, se implementar uma espécie de "botão do pânico" faz sentido — recurso que já existe no Cabify do México. Contudo, nenhum detalhe adicional foi fornecido a respeito da possibilidade de o recurso ser trazido também ao Brasil.

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