História da Uber no Brasil conta com pelo menos 16 motoristas assassinados

Por Rafael Rodrigues da Silva | 26 de Agosto de 2019 às 16h05
Unsplash

Uma revelação contundente feita por um jornalista de tecnologia do New York Times pode colocar uma nova narrativa sobre a atuação da Uber no Brasil, principalmente nos primeiros anos da empresa no país.

No livro Super Pumped, que fala sobre os dez anos da empresa que é hoje uma das maiores do mundo no setor de transportes, o jornalista Mike Isaac conta diversas histórias que aconteceram durante os dez anos desde a fundação da companhia, e uma dessas histórias coloca o Brasil no centro de uma trama digna da série CSI.

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De acordo com um trecho do livro que foi publicado pelo Times, os motoristas do aplicativo passaram por alguns problemas sérios durante o período em que o app era apresentado ao público brasileiro. E isso aconteceu pela mistura de basicamente três motivos: a possibilidade de pagamento em dinheiro, a falta de identificação para cadastro e a ganância do CEO Travis Kalanick por crescimento a qualquer custo.

Para acelerar o crescimento no país, a Uber fez duas concessões a fim de se adequar ao mercado nacional: a permissão do pagamento em dinheiro (já que muitos usuários do país não usam cartão crédito) e uma extrema facilidade para o cadastro, exigindo apenas um endereço de e-mail ou um número de telefone para poder usar o app.

Assim, essa extrema facilidade permitia que qualquer pessoa com más intenções criasse um e-mail falso ou usasse um chip pré-pago para chamar um Uber, o que causou uma grande insegurança para os motoristas do aplicativo. Isaac cita a existência de uma “roleta Uber” nesta época, onde criminosos criavam perfis falsos para assaltar os motoristas do app, com resultados assustadores: entre 2014 e 2016, centenas de motoristas foram roubados por passageiros, dezenas de carros foram queimados e pelo menos 16 motoristas foram mortos por passageiros que nunca foram identificados.

Isaac revela que tanto Kalanick quanto Ed Davis, ex-executivo do Facebook que foi contratado para gerenciar a expansão da Uber na América Latina, sabiam do problema, mas demoraram para criar soluções reais pela fixação que tinham no crescimento da empresa e por acreditarem que todos os problemas da plataforma poderiam ser solucionados por mudanças nos algoritmos do aplicativos, ignorando completamente as nuances culturais e econômicas específicas do Brasil. E, quando indagados sobre os atos de violência praticados contra os motoristas, repetiam sempre a mesma defesa de que a Uber era mais segura do que um táxi tradicional pelo fato de você poder rastrear um carro pelo GPS do celular e saber a posição dele diretamente pelo app.

No livro, Isaac fala que a Uber começou a solucionar esses problemas em 2016 — dois anos depois da chegada da empresa ao país — mas as soluções criadas pelo app ainda deixaram a desejar durante mais alguns anos, tanto que no início de 2019 os motoristas do Rio Grande do Sul organizaram até mesmo uma greve pedindo por mais segurança, já que apenas naquele estado cinco motoristas de aplicativos haviam sido mortos nos últimos seis meses de 2018. Neste caso específico o problema não era algo apenas da Uber, mas uma preocupação geral de motoristas dos diversos aplicativos que existem em operação no Rio Grande do Sul.

Desde 2017, a Uber passou a exegir o CPF nos cadastros de passageiros, e em julho deste ano a empresa fechou uma parceria para usar o banco de dados do Serasa na verificação de novos cadastros, mas entramos em contato com a Uber para saber o que mais a empresa tem feito para garantir a segurança de seus colaboradores, e iremos atualizar a matéria assim que obtivermos resposta.

Atualização dia 26/08 às 16:52 h: em contato com o Canaltech, a Uber afirmou que segue investindo em novas tecnologias e processos e que vem se esforçando para tornar a plataforma cada vez mais segura tanto para os passageiros quanto para os motoristas. A íntegra da declaração pode ser vista logo abaixo:

Segurança é prioridade para a Uber, por isso a empresa segue investindo constantemente em novas tecnologias e processos. A Uber vem atuando permanentemente para tornar sua plataforma a mais segura possível para usuários e motoristas parceiros – o que foi reforçado depois que o seu atual CEO, Dara Khosrowshahi, tornou a segurança a principal prioridade da empresa.

Como parte desses esforços, a empresa implementou no Brasil seu primeiro Centro de Desenvolvimento Tecnológico (Tech Center) da América Latina - que é também o primeiro do mundo com foco inicial em soluções de segurança, e que vem atuando no desenvolvimento de parte dessas novas soluções.

Desde o ano passado, a Uber passou a adotar no Brasil o recurso de machine learning, que usa a tecnologia para bloquear viagens consideradas mais arriscadas. Esta ferramenta usa algoritmos que aprendem de forma automatizada a partir dos dados e bloqueia viagens consideradas potencialmente mais arriscadas, a menos que o usuário forneça detalhes adicionais de identificação.

A empresa lançou, também, uma ferramenta que reúne os recursos de segurança para motoristas parceiros, que inclui um botão para ligar para a polícia em situações de risco ou emergência diretamente do app. O motorista também pode compartilhar a localização, o trajeto e o horário de chegada, em tempo real, com quem desejar.

Mais recentemente, a Uber anunciou uma parceria com a Serasa Experian para validar as informações de identificação dos usuários do aplicativo que quiserem pagar suas viagem somente em dinheiro. A ferramenta que fará a checagem, denominada U-Check, foi a primeira a ser desenvolvida pelo recém-constituído time de engenheiros do Tech Center instalado pela empresa em São Paulo.

O aplicativo permite, ainda, que solicitações de viagens sejam canceladas por motoristas parceiros sempre que não se sentirem seguros.

Se o usuário precisa contatar o motorista ou vice-versa, o número de telefone de ambos é mantido em sigilo, preservando a privacidade dos dois lados. Mensagens enviadas no bate-papo do app que possam ser consideradas ofensivas ou que ameacem a integridade de uma pessoa entram automaticamente em um processo de desativação permanente da conta.

Como sempre ocorreu, todas as viagens são registradas por GPS, o que permite que a Uber colabore com as autoridades, nos termos da Lei, em caso de necessidade. Nós temos um time especializado no relacionamento com autoridades policiais e que coopera em investigações, sempre respeitando a legislação brasileira.

Por fim, nossos parceiros contam com um número de telefone 0800 para registrar e solicitar apoio da Uber depois que tiverem comunicado incidentes às autoridades e estiverem em segurança - por exemplo, no caso da necessidade de acionar o Seguro APP que cobre acidentes pessoais em todas as viagens. A Uber oferece gratuitamente a seus parceiros um seguro com cobertura de até R$ 100.000,00 em caso de acidentes pessoais que ocorram durante as suas entregas e um reembolso de até R$ 15.000,00 em despesas médicas. A Uber conta com uma equipe de suporte especializada em segurança disponível 24 horas por dia, sete dias por semana, que analisa individualmente caso a caso e que pode banir da plataforma usuários ou motoristas que tiverem uma média baixa de avaliações ou conduta que viole os termos de uso."

Fonte: New York Times

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