Head da App Store diz que Apple sempre mirou condições iguais entre os devs

Por Rui Maciel | 28 de Julho de 2020 às 21h00
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Em entrevista à agência de notícias Reuters, Phil Schiller, vice-presidente de marketing da Apple e head da App Store, afirmou que a empresa sempre procurou manter condições de igualdade entre seus desenvolvedores dentro da plataforma. A afirmação vem no mesmo dia em que o CEO da "Maçã" será questionado no Congresso dos EUA sobre as práticas da loja de aplicativos, que vem sendo acusada de exercer poder excessivo sobre os desenvolvedores independentes de apps.

A App Store é uma parte essencial dentro das receitas da Apple - a empresa gasta US$ 46,3 bilhões anuais na plataforma, mas a receita em 2019 com a loja, por exemplo, foi de US$ 519 bilhões. Por isso, ela é controlada com mãos de ferro pela empresa. Porém, quando foi lançada, em 2008, trazia apenas 500 aplicativos. Com isso, os executivos da companhia consideraram realizar um experimento, oferecendo uma taxa de comissão convenientemente baixa para atrair desenvolvedores.

Faturamento da App Store: mais de meio trilhão de dólares em 2019 (Foto: Apple)

No entanto, com o sucesso do gigantesco ecossistema criado pela dupla iPhone / iPad, o cenário mudou, com as taxas cobradas na plataforma se tornando maiores. Com isso, os desenvolvedores passaram a criticaram as comissões da Apple, que giram entre 15% e 30% em muitas compras na App Store. Além disso, os deves são proibidos de abordar seus clientes para que eles adotem seus serviços fora da loja de aplicativos e há aqueles que acusam o processo de verificação de apps um "processo opaco e imprevisível".

“Uma das coisas que decidimos na época é que iríamos tratar todos os aplicativos da App Store da mesma forma - um conjunto de regras para todos, sem ofertas especiais, sem termos especiais, sem código especial, um tratamento igualitário se aplicaria a todos os desenvolvedores", disse Schiller. "Esse não foi o caso nos softwares para PCs. Ninguém pensou assim. Foi uma reviravolta completa de como todo o sistema funcionaria”.

Os apps eliminaram o varejo predatório

Em meados da década de 2000, o software vendido em lojas físicas envolvia o pagamento de espaço nas prateleiras que ficavam em destaque e outros custos. Isso poderia representar até 50% do preço de varejo", disse Ben Bajarin, chefe de tecnologias de consumo da Creative Strategies. "Com isso, pequenos desenvolvedores não conseguiram entrar nesse mercado para competir em igualdade".

Bajarin disse que o antecessor da App Store foi o Handango, um serviço que surgiu em 2005 e permitiu que os desenvolvedores entregassem aplicativos para os PDAs da Palm e outros dispositivos, cobrando dos desenvolvedores uma comissão de 40%. Com a App Store, “a Apple levou isso para a um patamar totalmente diferente. E com 30% [de comissão] a plataforma se tornou muito mais atrativa”, afirmou o executivo.

Regras rígidas. E outras, convenientemente, nem tanto

Mas os desenvolvedores que decidiam ingressar seus aplicativos na App Store tinham de enfrentar regras rígidas elas começaram como uma lista interna, mas foram publicadas em 2010: a Apple revê cada app que entra em sua plataforma e determinou que as empresas (e devs independentes) usem o sistema de cobrança proprietário da marca - sendo essa ferramenta um dos maiores alvos de reclamação.

Schiller, no entanto, justifica a obrigatoriedade do sistema de cobrança ao dizer que os usuários se sentirão mais confiantes para comprar aplicativos se eles sentirem que suas informações de pagamento estão em mãos confiáveis. “Acreditamos que a privacidade de nossos clientes seja protegida dessa maneira. Imagine se você tivesse que inserir cartões de crédito e pagamentos para todos os aplicativos que já usou”, declarou.

Minecraft: regalias dentro da App Store

No entanto, ao longo dos anos, os desenvolvedores começaram a reclamar cada vez mais sobre as comissões cobradas pela Apple. A empresa chegou a diminuir as taxas ou flexibilizar regras em alguns casos, para acalmar alguns de seus parceiros mais atraentes. Em 2018, ela autorizou que empresas de jogos como a Microsoft, controladora do popular Minecraft, permitissem que os usuários acessassem suas contas criadas dentro do game, desde que este último também oferecesse pagamentos via App Store como uma opção.

“Enquanto conversávamos com alguns dos maiores desenvolvedores de jogos como, por exemplo, o Minecraft, eles disseram: 'Entendo perfeitamente por que você deseja que o usuário possa pagar por isso no dispositivo", disse Schiller. "Mas temos muitos usuários que compraram a assinatura do jogo ou abriram sua conta em outro lugar - em um Xbox, em um PC, na web. E é uma grande barreira para entrar na sua loja '. Então criamos essa exceção para nossa própria regra."

O Google e a Play Store

Ainda na entrevista, Schiller disse que a taxa cobrada pela Apple ajuda a financiar um extenso ecossistema para desenvolvedores: milhares de engenheiros da Apple mantêm servidores seguros para entregar aplicativos e desenvolver as ferramentas para criá-los e testá-los.

No entanto, há quem discorde: Marc Fischer, executivo-chefe da empresa de tecnologia mobile Dogtown Studios, disse que a comissão de 30% cobrada pela Apple era justificável nos primeiros dias da App Store, quando ela oferecia as vantagens de uma distribuição global para uma empresa, naquela época, pequena como a dele.

Mas, agora, com a dupla Google / Play Store dividindo o duopólio com a App Store - e com um sistema operacional, o Android, muito mais pulverizado mundo afora, Fischer afirma que as taxas devem ser muito mais baixas - de preferência no mesmo nível que os processadores de pagamento de um dígito cobram. "Como desenvolvedor, você não tem escolha a não ser aceitar essa cobrança", completa o executivo.

Na mira da União Europeia (e outros apps)

Além do escrutínio junto aos congressistas dos EUA, as práticas da App Store podem ser questionadas na União Europeia, conhecida por ser bem rígida na hora de julgar - e punir - práticas anticompetitivas. No ano passado, o Spotify abriu uma queixa contra a Apple, afirmando que a loja de aplicativos atua nas duas pontas, como concorrente e dona da plataforma e que esta ação é um fator que prejudica a concorrência. Por fim, o serviço de streaming afirmou que precisa "inflar artificialmente" seus preços já que, caso não o faça, a Apple aplicaria "restrições técnicas" que limitariam e prejudicariam a experiência do seu serviço.

"A longo prazo, esperamos que a Apple se abra", afirmou Daniel Ek, CEO do serviço de streaming de músicas sueco, em entrevista a Bloomberg TV. “Estamos muito encorajados em poder, finalmente, usar a Siri e seus recursos de suporte de voz para criar produtos para a Apple TV e para o Apple Watch, algo que não conseguimos fazer até recentemente", afirmou Ek. No entanto, ele não esclareceu.se o Spotify foi realmente impedido de lançar um aplicativo para a Apple TV, pois a plataforma possui outros serviços de música há vários anos, com os aplicativos disponíveis na App Store. Ainda assim, o executivo já havia dito que as restrições da Apple tinham "um grande impacto nos negócios".

Daniel Ek: CEO do Spotify é um dos mais maiores críticos das taxas cobradas pela App Store (Foto: divulgação)

A Apple tomou medidas adicionais nos últimos meses para combater as alegações de que a App Store viola as regras antitruste. Uma delas são acordos com fornecedores de conteúdo de vídeo (como o Prime Video, da Amazon), que podem "driblar" a comissão de 30% cobrada pela Maçã por estarem na plataforma da Apple TV.,

Na época em que o Spotify apresentou a queixa contra o Spotify junto a UE, a criadora do iPhone respondeu, dizendo que a App Store contribuiu para o sucesso do Spotify. Em março do ano passado, a Maçã afirmou: “A maioria dos clientes usa seu produto gratuito, patrocinado por anúncios, o que não contribui para [o faturamento da] App Store. Mesmo agora, apenas uma pequena fração de suas assinaturas se enquadra no modelo de compartilhamento de receita da Apple. O Spotify está pedindo que esse número seja zero.”

Além do Spotify, outro app popular bate forte na Apple. O criador do Telegram, Pavel Durov, teceu duras críticas à Maçã e acusou a empresa de “destruir startups” ao redor do mundo. E a raiz do argumento do desenvolvedor russo já é bem conhecida: a impossibilidade de usuários de iPhone instalarem apps de fora da App Store, somada ao fato de que qualquer transação realizada por meio de um app no iOS paga a já famigerada taxa de 30% para a criadora do iPhone.

Durov afirma que a Apple “abusa de sua posição no mercado” e não corre qualquer risco financeiro com o desenvolvimento, mas colhe os frutos de todo app bem-sucedido. Além disso, ele diz tal cenário cria distorções nas quais quem cria aplicativos ficaria impossibilitado de custear a própria existência do app.

Fonte: Reuters

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