Projeto brasileiro usa canais de TV sem sinal para levar internet a regiões remotas
Por João Melo |
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Um projeto brasileiro pode ajudar a ampliar o acesso à internet em áreas rurais e remotas que ainda enfrentam dificuldades para receber redes de banda larga. A solução, chamada TV White Space (TVWS), aproveita canais da faixa de televisão que não estão sendo utilizados para criar conexões terrestres de longo alcance.
A iniciativa é conduzida pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC) e o Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel). A tecnologia já foi testada em campo e entrou em uma nova etapa de desenvolvimento.
A proposta mira principalmente localidades em que a expansão do 4G e do 5G esbarra em fatores como grandes distâncias, baixa densidade populacional e alto custo para instalar e manter a infraestrutura necessária.
“A tecnologia TVWS é empregada em vários países, mas o projeto que conduzimos concebeu, desenvolveu e validou em campo uma solução tecnológica nacional própria e pioneira, adaptada às necessidades do cenário brasileiro”, afirmou Milton Kaoru Kashiwakura, diretor de Projetos Especiais e de Desenvolvimento do NIC.br.
Segundo os pesquisadores, a tecnologia também pode complementar conexões via satélite. Nesse modelo, a conexão poderia chegar a um ponto remoto por satélite e ser distribuída localmente pela rede terrestre, com menor latência e suporte a dispositivos de baixo custo, incluindo equipamentos de Internet das Coisas (IoT).
Como a tecnologia encontra canais livres
O funcionamento da solução depende de uma base de dados georreferenciada e de uma estação rádio base TVWS conectada à internet. Antes de iniciar a transmissão, a estação consulta quais frequências da faixa de televisão estão disponíveis naquela região.
Depois, o sistema faz um sensoriamento para confirmar se os canais selecionados estão realmente desocupados. Caso um sinal de TV seja identificado, a frequência é descartada e novas opções são procuradas, em um processo pensado para evitar interferências nas emissoras licenciadas.
Na prática, isso permite distribuir a conexão para diferentes pontos, como residências, propriedades rurais, escolas e unidades de saúde. Para Luciano Leonel Mendes, coordenador de pesquisa do Centro de Referência em Radiocomunicações do Inatel, a proposta também busca tornar esse atendimento economicamente viável para provedores e consumidores.
“Nossa iniciativa tem o objetivo social de incluir na era da informação pessoas que vivem em áreas hoje sem cobertura. Há interesse dos provedores regionais em levar Internet ao campo, mas ainda faltam tecnologias que permitam atender essas comunidades com um custo viável para quem oferece o serviço, e um preço acessível para quem lá vive”, ressaltou Mendes.
Testes chegaram a 115 Mbps em área rural
Antes da etapa atual, o projeto passou por quatro fases, que envolveram estudos de viabilidade, testes de campo, construção da rede protótipo e experimentos com múltiplos usuários. A quarta etapa foi realizada em Quixadá, no Ceará, com conexões entre uma estação instalada no campus da UFC e pontos remotos da região.
Nos testes, a tecnologia atingiu 115 Mbps de velocidade máxima de download e manteve conexões de radiofrequência estáveis a até 11,6 quilômetros de distância. Os resultados demonstraram a viabilidade da solução para áreas com grandes extensões e pouca infraestrutura.
Além da conectividade, o projeto desenvolveu a ferramenta Fiquespectro, que reúne informações sobre canais ociosos e pode gerar dados sobre o uso do espectro. Rodrigo Porto, coordenador do Grupo de Pesquisa em Telecomunicações sem Fio da UFC, destaca que essa estrutura também pode apoiar o trabalho da Anatel.
“Essa base pode ser alimentada por dados de uso efetivo dos canais e de sensoriamento de sinal de rádio, gerando inteligência que pode subsidiar diretamente a melhoria de modelos de propagação e a atuação da agência reguladora”, explicou Porto.
Agora, a iniciativa trabalha para reduzir as necessidades de processamento, memória e energia, além de adaptar a tecnologia para um hardware próprio de menor custo e aprimorar o Fiquespectro.
Uma outra iniciativa brasileira visa expandir o acesso à internet de qualidade, com favelas de 8 estados sendo beneficiadas por um investimento de R$ 73 milhões.