Proibido esquecer a Venezuela

Por José Otero

Na semana passada fiz referência à importância das Tecnologias da Informação e das Comunicações (TIC) para fomentar a transparência política. Talvez não exista um lugar no hemisfério onde esta afirmação seja mais verdadeira do que na Venezuela.

Há apenas pouco mais de uma década, em termo de telecomunicações, este país era um dos líderes da América Latina em adoção de novas tecnologias. Contava com uma imprensa especializada que era invejada pela maioria dos mercados da região e era utilizada como plataforma para o lançamento de novos produtos. A Venezuela era parte nevrálgica do desenvolvimento tecnológico da América Latina.

O mercado chegou a posicionar-se entre os primeiros em desenvolvimento e oferecer comercialmente tecnologias de banda larga avançada. Um lançamento que foi incentivado pela grande utilização de dados dos consumidores locais. Nesse tempo, o país ostentava um dos períodos mais curtos para substituição de dispositivos e grande interesse no desenvolvimento de aplicativos locais. Eram tempos em que este país sul-americano estava entre os líderes da região em tamanho e economia.

Agora, cada amanhecer traz imagens de desespero vividas neste país, tão abençoado com variedade de recursos naturais, mas com tão mal gestores.

De longe, as imagens chegaram a parecer uma realidade alternativa, onde os hospitais não têm medicamentos, existem crianças buscando comida pelas ruas e a abundância do partido contrasta com as horas de fila para comprar, a um custo altíssimo, um quilo de farinha de milho.

Telefonar para conhecidos e familiares chega a ser um golpe de realidade. Você fica desarmado quando do outro lado da linha surge a pergunta “o que disse que está acontecendo”? São muito poucos os que sabem localmente da situação. Se fosse mal pensado diria que existe uma política que fomenta a censura abaixo da premissa de uma velha canção: “Olhos que não veem, coração que não sente”.

No entanto, entre tanta privação, as TIC conseguiram dar voz aos descontentes. Já são inúmeros vídeos, testemunhos e fotos da situação na Venezuela compartilhados nas redes sociais. Informação que em sua maioria é válida por entidade globalmente reconhecidas por seu trabalho em defesa dos direitos humanos.

É quase que milagroso que, sem dinheiro para dispositivos ou infraestrutura para substituir as peças danificadas, redes de telecomunicações continuam a funcionar. Sobretudo quando foram gastos centenas de milhões de dólares voltados para a expansão de uma rede pública de fibra óptica que jamais se concretizou conforme estava planejado.

Não possuir dinheiro também afeta quem tem procurado colocar infraestrutura sem fio moderna, por exemplo a LTE, no entanto não pode importar dispositivos. Contar com cobertura de uma tecnologia, mas não conseguir acessá-las por falta de dispositivos é uma das maiores contradições que vive o usuário venezuelano.

Pessoalmente, preocupa-me o problema da falta de divisas, pois poderia chegar o momento de que haja suficiente para pagar os enlaces internacionais que conectam o país com o resto do planeta. Quem usa com frequência o código +58 conhece a dificuldade que pode ser comunicar-se com um número local da Venezuela.

As TIC cumprem um papel importantíssimo em promover o desenvolvimento, ao menos um deles é o de incentivar a transparência e a livre expressão. Imaginem a Venezuela com redes modernas de telecomunicações e não com o atraso de quase 100 anos que vive o setor móvel?

Provavelmente não haveria detido a hemorragia cerebral que atinge o país, contudo facilitaria no aprendizado sobre o que acontece em um país na qual quer se silenciar as críticas pelo insulto, censura e esquecimento.