Empresa quer lançar milhares de satélites que funcionarão como torres de celular

Por Nathan Vieira | 10 de Agosto de 2019 às 19h40

A aposta mais recente da startup norte-americana UbiquitiLink é um conjunto de milhares de minissatélites, cuja intenção é funcionar de maneira semelhante às torres de celular. Em entrevista ao The Verge, o co-fundador e atual CEO da UbiquitiLink, Charles Miller, explicou um pouco melhor sobre os planos da empresa para essa revolução.

Em um lançamento recente do foguet Falcon 9 da SpaceX, foi colocado em prática o experimento voltado a esses serviços planejados pela UbiquitiLink. Diferente do grande foco da atualidade, que é o fornecimento de internet via satélites em órbita (algo que tem sido praticado por empresas como a própria SpaceX, OneWeb ou a Amazon), a empresa curiosamente tem a sua concentração direcionada ao serviço de telefonia para celular.

A ideia é, basicamente, colocar pequenos satélites em órbita para que qualquer telefone celular possa conectar sem problemas, sem que sejam feitas alterações nos próprios telefones. "Existem 5,2 bilhões de usuários de telefone no planeta", diz Charles Miller. "Vamos transformar todos os telefones deles em telefones via satélite", o CEO anuncia durante a entrevista.

A ideia não é substituir as torres de celular

O próprio CEO da Ubiquitilink admite que as torres de celular fornecem cobertura mais rápida (Foto: Pixabay)

No entanto, ao contrário do que possa parecer, o objetivo dessa iniciativa não é substituir completamente a necessidade de torres de celular. Para Miller, as torres de celular que ficam aqui na Terra são capazes de fornecer uma cobertura muito mais rápida do que o serviço do espaço. Em vez disso, a ideia da startup norte-americana é justamente fornecer cobertura celular adicional para regiões fora do alcance de torres convencionais, como áreas rurais, por exemplo. "[O projeto] está preenchendo as lacunas em todo o mundo", declara Miller. Ele estima que uma média de 750 milhões de usuários de celulares não tenham conectividade a qualquer momento. Para fechar essas lacunas, a UbiquitiLink diz que desenvolveu uma maneira de levar o telefone de qualquer pessoa a se conectar com um satélite suspenso sempre que o dispositivo estiver fora do alcance de uma torre de celular.

Isso significa que todo o trabalho pesado seria deixado para o provedor de serviços de celular de uma pessoa, não para o usuário do celular. A UbiquitiLink planeja oferecer essa capacidade para as operadoras de redes móveis, e então essas empresas podem decidir como distribuí-las ao consumidor - talvez por uma taxa extra ou incorporadas em um acordo existente. Além disso, o CEO da empresa está declaradamente confiante de que as pessoas vão querer a opção: "Há paz de espírito e segurança aqui de poder estar conectado o tempo todo. E os nossos dados sugerem que as pessoas nas áreas rurais ou remotas estão dispostas a mudar de fornecedor se tiver o nosso serviço ou não", afirma.

Durante a entrevista ao The Verge, o CEO ainda traz à tona o surgimento do projeto. A ideia veio não só dele, como também da co-fundadora Margo Deckard, depois de algumas análises destinadas a organizações sem fins lucrativos, em resposta à crise de Ebola na África. Muitos dos trabalhadores humanitários usavam terminais de satélite para enviar mensagens por meio de seus telefones, que rapidamente consumiam dados. Deckard então levantou a questão de saber se um satélite poderia ou não se conectar diretamente a um telefone. "Eu olhei para baixo, e eu disse: 'por que não?'".

Por sua vez, equipe da startup alega ter realizado alguns grandes avanços que tornarão esse conceito possível. Primeiro, a equipe diz que pegou o software padrão que as torres de telefonia terrestre usam para se conectar a telefones. "Isso foi complicado, porque um celular realmente não quer se conectar com um satélite. O dispositivo notará que o objeto está se movendo pelo céu, o que não é ideal para uma boa conexão. O satélite também é muito mais distante do que uma torre de celular deveria ser. Os telefones se desconectarão de uma torre de celular quando estiverem a mais de 35 quilômetros de distância, e os satélites que estiverem voando acima estarão a 500 quilômetros de distância", Miller explica.

No entanto, o software desenvolvido pela UbiquitiLink basicamente substitui essas funções em um celular padrão, fazendo com que o dispositivo pense que o satélite está estável e a apenas 20 quilômetros de distância. “E então o telefone dirá, 'ok', e tentará se comunicar de volta", aponta o CEO. Miller ainda diz que, apesar da possibilidade de atraso, o telefone vai "tolerar isso", pensando que há simplesmente algum tipo de congestionamento. Assim, o satélite enviará o sinal para outros satélites na constelação, que eventualmente enviará o sinal para uma estação terrestre que entra na rede celular.

Outro avanço apontado pelo CEO da UbiquitiLink é que esses satélites vão fazer a comunicação com telefones usando as mesmas frequências de rádio que já estão alocadas para provedores de serviços de telefonia celular. Esse pode ser um grande passo, uma vez que o espectro de frequências de rádio que os dispositivos de comunicação podem usar é finito e as operadoras de satélites estão constantemente lutando pelo acesso a certas bandas de frequências de rádio para se comunicarem com suas diversas tecnologias. Há uma parte do espectro já alocada para dispositivos celulares, e Miller defende que seus satélites simplesmente se comunicarão dentro dessa banda.

É justamnte isso que a UbiquitiLink está testando com a recente carga enviada à Estação Espacial Internacional. “Estamos no processo de provar, com nossos satélites de teste, que podemos compartilhar o espectro que já está no telefone, para uso terrestre por espaço, e que não causará interferência prejudicial”, afirma Miller. Os astronautas a bordo da Estação Espacial Internacional são encarregados de colocar a carga da UbiquitiLink em teste dentro de uma cápsula de carga Cygnus. Na próxima semana, a cápsula deve sair da estação espacial, assim definitivamente dando início ao teste da empresa. A princípio, a empresa vai testar o 2G.

UbiquitiLink lançará uma terceira carga

Carga útil da Ubiquitilink ligada a uma cápsula de carga Cygnus (Foto: NASA)

Por enquanto, esse está sendo o segundo teste in-space da empresa, mas a UbitiquiLink já planeja lançar uma terceira carga de testes em dezembro deste ano, e mais alguns testes em 2020. Se tudo ocorrer sem problemas, a empresa vai começar a inscrever clientes com a intenção de arrecadar mais dinheiro, além dos US $ 12 milhões que eles levantaram para que esses lançamentos de demonstração pudessem ser colocados em prática.

Em última análise, a proposta da empresa de Miller é criar uma frota de naves espaciais que pesam apenas 25 quilos. Entre 24 e 36 espaçonaves podem fornecer cobertura a cada hora em uma grande faixa da Terra, de acordo com depoimentos da própria empresa. Entretanto, para que realmente forneça uma cobertura global, a UbiquitiLink planeja uma conversa com a Federal Communications Commission, para que sejam colocados milhares de satélites, assim como a SpaceX, a Amazon e a OneWeb também querem fazer.

Vale ressaltar que uma constelação tão massiva aumentaria ainda mais a crescente quantidade de detritos espaciais ao redor da Terra. Em contrapartida, Miller afirma que a constelação do UbiquitiLink será diferente dos outros projetos, sob a premissa de que essas naves são muito menores e mais leves do que as propostas por outras empresas, como a SpaceX ou a OneWeb. O principal impacto disso é reduzir sua pegada no espaço, e os tornar relativamente baratos, tanto para a fabricação quanto para o lançamento em si. “Vamos precisar de um décimo dos veículos de lançamento e obteremos muito mais satélites por lançamento”, Miller afirma. Ele espera que o custo total de desenvolvimento fique entre US$ 1 e US$ 2 bilhões.

Outro fator responsável por tornar esse projeto mais barato é que a UbiquitiLink não precisa desenvolver nenhum hardware para os clientes no solo, algo que a indústria chama de “terminais de usuário”. Para acessar as constelações da SpaceX e da OneWeb, os clientes terão que instalar um terminal de usuário em suas casas, a fim de receber conexão com a internet a partir da constelação de satélites. No entanto, os terminais de usuário necessários para a UbiquitiLink são simplesmente os telefones que as pessoas já possuem. "Isso também reduz os custos", argumenta Miller, "já que a UbiquitiLink não precisa desenvolver e produzir hardware para cada cliente".

Mas Miller também declara que o objetivo não é vencer essas outras constelações de satélites ou competir com torres de celular no solo. O projeto da UbiquitiLink só deve ser usado sempre que o Wi-Fi normal e a cobertura de celular não estiverem disponíveis. "No momento em que você sair do ponto de acesso Wi-Fi para a área remota, você não terá conectividade. É aí que vamos preencher a lacuna", promete o CEO.

Fonte: The Verge

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