A Fome das TIC

Por José Otero | 20 de Julho de 2021 às 10h00
Pixabay

A grande maioria dos seres humanos tem uma reação adversa às más notícias. Talvez seja por isso que muitas pessoas fazem um esforço deliberado para evitar ouvir histórias que as incomodam ou as fazem ver que o mundo é mais amplo do que a zona de conforto a que estão acostumadas. Talvez, como Pilatos, seja uma forma de lavar as mãos porque, se você não conhece os infortúnios dos outros, é muito difícil sentir algum tipo de culpa.

O setor de telecomunicações, por ser formado por pessoas, não está isento dos benefícios da natureza humana. Por isso, é inevitável ouvir constantemente milhares de motivos pelos quais metade da população do planeta não está conectada a serviços de banda larga. Aparentemente, é um grande mistério que requer a celebração de inúmeras conferências e a convocação de todos os tipos de especialistas para iluminar a escuridão que envolve este grande mistério.

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Como esperado, as respostas a esta pergunta são numerosas, pois o problema é extremamente complexo. Há quem se atreva a apontar que a principal falta de adoção das novas tecnologias de informação e comunicação (TIC) é a falta de cobertura destes serviços em zonas populosas. Obviamente, esta é uma abordagem com uma lógica irrefutável, porque se não houver disponibilidade do serviço de telecomunicações é impossível para as pessoas a acessarem.

Porém, quando o assunto é estudado mais a fundo, encontramos cifras que começam a inviabilizar essa afirmação. Por exemplo, dados da unidade de inteligência da GSMA indicam que, no final de 2019, 94% da população mundial vivia em um local com cobertura de serviço móvel de pelo menos um provedor de serviço móvel. A entidade também menciona que 87% da metade do planeta que não está ligada à Internet vive em zonas onde o serviço é disponibilizado através de uma operadora de banda larga móvel. Em outras palavras, reduzir a falta de adoção das TIC à falta de disponibilidade do serviço é uma falácia.

Outro aspecto citado para o aumento percentual da população não conectada à Internet é a falta de habilidades digitais. Como uma pessoa pode se conectar à Internet se não sabe como usar o dispositivo que permite isso? Falta de conhecimento que pode ser resolvida com treinamento e qualificações que podem ser fornecidas pelas mesmas prestadoras de serviços que desejam aumentar sua base de assinantes ou por autoridades governamentais que estabeleceram uma meta de aumentar a porcentagem de sua população que utiliza as TIC.

As competências digitais são extremamente importantes para melhorar a qualidade de vida das pessoas, aumentando as oportunidades de inclusão social e empregabilidade. É por esta razão que entidades como a UNESCO e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento têm estabelecido iniciativas para promover a formação, especialmente de jovens, em competências digitais. Esforços focados em educar as pessoas sobre o potencial que as TICs têm para melhorar suas vidas, de forma que muitos dos beneficiários desses programas já compõem pessoas conectadas e não parte daquela metade da população sem acesso a serviços de banda larga móvel.

Também não se pode descartar que a falta de conhecimento na utilização de um dispositivo se deva à ausência de serviços na língua materna do indivíduo a ser conectado. Este fenômeno é particularmente importante em países multinacionais com diversidade de línguas indígenas, como Brasil, Equador, Guatemala ou Bolívia, para citar alguns da América Latina. É claro que aqui se infere que os usuários são alfabetizados e, pelo simples fato de disponibilizarem os serviços de telecomunicações em seu idioma, podem utilizá-los imediatamente.

No entanto, uma revisão dos dados de escolaridade disponíveis apresentados pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) mostram que apenas 15% da população global é analfabeta. Esse número é três vezes maior do que o número total de indígenas no mundo que, segundo dados do Banco Mundial, mal representam 5% da humanidade. Se nos concentrarmos nos mercados mais próximos, descobriremos que a taxa de analfabetismo no Haiti, de acordo com a UNESCO, é de 38%, enquanto a penetração do celular, de acordo com o Banco Mundial, atingiu o pico em 2013, com 69% da população.

Novamente, a explicação oferecida para a falta de conhecimento aparentemente não é tão criteriosa quanto foi inicialmente percebida. Claro, seria necessário ver quantos usuários únicos existem no Haiti com serviço de celular para ter uma ideia melhor do verdadeiro número de pessoas sem acesso direto a TIC no país com o menor PIB per capita das Américas, estimado pelo Banco Mundial para 2020. em menos de US $ 1.200 anuais (ou menos de US $ 3.000 ajustados pela paridade do poder de compra).

Uma terceira explicação sobre o grande número de pessoas que não se conectam à Internet é referenteo ao custo dos aparelhos. Simplesmente indica que se o custo do equipamento usado para acessar os serviços de telecomunicações for muito alto, as pessoas não estarão dispostas a fazer o investimento necessário para se manter conectadas. O problema dessa explicação é que ela ignora o valor mensal que o usuário tem que fazer para se manter conectado, pois mesmo em mercados onde existe a modalidade “quem liga paga”, na grande maioria dos mercados do mundo, o usuário tem que realizar uma recarga para manter seu serviço atualizado. O custo não se limita ao aparelho, mas também ao serviço.

Existem outras explicações que tentam substanciar essa incrível lacuna entre os conectados e os desconectados. Alguns até resgatam narrativas históricas do colonialismo digital onde são impostas soluções da metrópole que não atendem às verdadeiras necessidades de uma localidade. Soluções que às vezes são prejudiciais aos valores culturais da população que se pretende beneficiar e que são omitidas na tomada de decisões. Outras explicações focam questões mais conhecidas como o impacto da corrupção, a falta de uma regulamentação que promova a conectividade ou a simples ganância de empresas privadas que querem apenas explorar cidadãos. Embora, pelo menos na América Latina e no Caribe, seu desempenho seja melhor do que a grande maioria dos que estão sob controle público.

Do meu ponto de vista, o problema é mais complexo e surge de uma multiplicidade de eventos que ocorrem simultaneamente. Assim, todas essas explicações têm alguma verdade ao explicar o verdadeiro motivo de tantos desligados. Isso deve ser visto como um alerta para começar a modificar a abordagem dos diferentes atores do setor de TIC em seus esforços para aumentar seu uso pela população.

Já se foi o discurso da cobertura como principal obstáculo, não era preciso esperar o aumento do percentual da população em pelo menos uma rede móvel para chegar a essa conclusão. Durante décadas, mais de 99 por cento da população mundial foi coberta por serviços de satélite, seu custo foi o que limitou sua adoção massiva, como foi bem demonstrado com os planos iniciais de frotas como a de Iridium ou Globalstar durante a última década de século XX.

Considerar que a lacuna digital na adoção de telecomunicações de mercado de massa será preenchida por frotas de satélites sem economias de escala é uma ilusão grosseira que não é sustentada por dados concretos sobre seu desempenho histórico. Só temos que tomar como exemplo o recente anúncio da Starlink de que por meio de satélites de baixa órbita (entre 540 e 570 km de altura) oferecerá serviços de banda larga fixa em áreas rurais, pelo modesto preço de US $ 99 por mês, adicional de taxa de US $ 499 para instalação de antena e modem wi-fi. Claramente, não é um serviço que visa conectar os desconectados, pois continuará a manter a posição da oferta de varejo de satélite como serviços de nicho. Por exemplo, no México, dados da empresa de consultoria The CIU indicam que neste país no final de 2020 existiam um total de 21,9 milhões de conexões de banda larga fixa, das quais apenas cerca de 20.418 acessos (menos de um décimo de ponto percentual, representando 0,09 por cento) foram via satélite.

Isso não significa que a tecnologia de satélite não desempenhe um papel importante no futuro das telecomunicações, simplesmente não como uma solução de baixo custo para conectar os desconectados. Seu mercado-alvo é de ponta, principalmente empresas que exigem redundância ou, como diferentes frotas de satélites descrevem em suas demonstrações financeiras, o importante mercado de Internet das Coisas.

O que surpreende nas conversas que buscam identificar os motivos de tantos desligados é a ausência daquelas palavras que tanto incomodam. Aquelas que ameaçam a tranquilidade espiritual das pessoas, palavras tão odiosas quanto pobreza e fome. Não é por acaso que os dois primeiros, dos dezessete Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para 2030 estabelecidos pela ONU, são: “acabar com a pobreza em todas as suas formas em todos os lugares” e “acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhorar a nutrição e promover agricultura”. Isso não significa que as TICs não sejam importantes nos ODS, pelo contrário, as tecnologias digitais desempenham um papel preponderante no cumprimento dos 169 objetivos em que os dezessete objetivos são desdobrados.

Sim, uma das principais razões pelas quais temos metade do planeta sem estar conectado é por causa da pobreza e da desigualdade que existe na população mundial. De acordo com o Banco Mundial, cerca de 10% da população vive em extrema pobreza, um número que devido à pandemia da COVID-19 pode aumentar em cerca de 150 milhões de pessoas durante 2021. Se olharmos para quantas pessoas vivem com menos de dez dólares diariamente, de acordo com o Banco Mundial, o número aumenta 53 pontos percentuais. Somente no México, segundo dados da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), a pobreza extrema aumentou, devido ao impacto da pandemia, em 11 pontos percentuais em 2020.

Os efeitos da pobreza são bastante claros, de acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU), todos os dias 25 mil pessoas morrem de desnutrição ou mais de 9 milhões anualmente. O problema foi agravado nos últimos meses à medida que este número aumentou devido ao impacto da COVID-19, principalmente nos países em desenvolvimento.

Diante desses dados, resta perguntar: como é que uma pessoa se conecta à Internet se ela não tem o que comer? A esta pergunta, eu acrescentaria, como a indústria de TIC pode colaborar com autoridades governamentais em todo o mundo para ajudar a mitigar um problema que vai além do uso ou não da tecnologia?

Antes de pensar nas necessidades binárias das pessoas, é preciso atender às necessidades urgentes que podem determinar a vida ou a morte de um segmento significativo da população. Considerando que conectar o desconectado é um objetivo da indústria de TIC, constitui um erro grave, é um problema muito mais amplo que deve ser abordado levando-se em consideração as necessidades urgentes de uma população global, onde segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (ONUAA), um décimo disso vai dormir com fome.

Um problema tão complexo requer uma solução holística que não tenha medo das palavras 'pobreza' ou 'fome', mas também entenda que existem outras arestas necessárias para garantir que mais pessoas estejam finalmente conectadas. Não fazer isso nos deixará como Godot na imobilidade de congressos internacionais onde os evangelizados são pregados e os palestrantes podem se sentir melhor graças aos tapinhas nas costas de seus colegas. Enquanto isso, mais de 25 mil pessoas, todas sem serem usuárias de banda larga móvel, perderão a vida por desnutrição no dia a dia.

*José F. Otero tem mais de 3 décadas de experiência no setor das TIC. Esta coluna é escrita em caráter pessoal.

*Artigo produzido por colunista com exclusividade ao Canaltech. O texto pode conter opiniões e análises que não necessariamente refletem a visão do Canaltech sobre o assunto.

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