Retrospectiva 2018 | As melhores produções originais da Netflix deste ano
Por Rafael Rodrigues da Silva |

2018 foi um ano importante para a Netflix. Nunca a empresa lançou tantos conteúdos originais: somente este ano o serviço de streaming investiu cerca de US$ 13 bilhões na produção de conteúdos próprios, e a previsão em janeiro era de lançar cerca de 700 conteúdos originais Netflix ainda este ano. Com tanta coisa nova chegando ao serviço em um intervalo de apenas 12 meses, muita coisa boa pode ter passado batida por muita gente. Por isso, vamos citar quais foram os dez melhores conteúdos originais lançados este ano na Netflix, abrangendo todos os tipos de programa oferecidos pela empresa — o que significa que pelo menos um dos conteúdos citados aqui deverá te interessar.
Vale avisar que, para esse exercício, foram escolhidos apenas filmes, séries, documentários e programas que estrearam no serviço em 2018, então não listaremos conteúdos como a terceira temporada de Demolidor, já que a série em si estreou em 2015 no serviço (e, definitivamente, não falaremos da sexta temporada de House of Cards aqui — aliás, vamos combinar: ninguém nunca mais fala sobre a sexta temporada de House of Cards em qualquer lugar, pode ser?).
O Mundo Sombrio de Sabrina
Uma das gratas surpresas deste ano. Nem mesmo quem já era fã da série de 1996 esperava que a releitura das histórias da jovem bruxa resultasse em algo tão bom. A produção da Netflix abandonou o gato falante (saudades Salem) e manteve a mesma ideia central de uma bruxa adolescente que perdeu os pais, mora com as duas tias e precisa equilibrar a vida de bruxa com a de uma adolescente comum. Mas, ao mesmo tempo que continua sendo uma série adolescente, O Mundo Sombrio de Sabrina insere no universo todo o cenário da Igreja de Satã, religião da qual todas as bruxas devem fazer parte, usando-a como analogia à igreja católica para contar a história de uma adolescente que quer viver sua vida de modo independente mas precisa lidar com as pressões impostas pela família, pela igreja e pela sociedade, que a forçam a todo momento a se tornar alguém que ela não é.
Utilizando um clima de filme de terror onde demônios e criaturas sombrias são ameaças mortais que podem atacar a qualquer momento, O Mundo Sombrio de Sabrina é uma das séries “adolescentes” mais pesadas dos últimos tempos, e que não tem medo de tocar na principal ferida desta fase da vida de todos: o fato de todo mundo já ter o destino da jovem planejado nos mínimos detalhes, mas ninguém se preocupar com quem ela é ou o que ela quer.
Aggretsuko
A Netflix possui um belo histórico de animações muito mais profundas do que aparentam ser em suas sinopses, e Aggretsuko é um dos melhores exemplos deste tipo de conteúdo que 2018 nos reservou.
A personagem da Sanrio (empresa mais conhecida por outra de suas personagens, a Hello Kitty) é uma jovem panda que trabalha no departamento de contabilidade de uma empresa japonesa e desconta o estresse diário de sua profissão cantando músicas de death metal em um karaokê após o expediente.
Apesar de, à primeira vista, parecer uma série bem infantil e bobinha, Aggretsuko trata o tempo todo de temas bem pesados, e aborda sobre como as pressões do mercado de trabalho, juntamente com as expectativas da família e sociedade sobre como uma jovem garota deve se portar e levar sua vida, podem gerar traumas irreversíveis a essas pessoas.
Wild Wild Country
A série documental sobre um dos mais famosos cultos dos Estados Unidos é talvez um dos melhores lançamentos documentais da Netflix neste ano, e chegou para se tornar o sucessor espiritual de Making a Murderer.
O documentário narra a história da comunidade Rajneeshpuram localizada no Condado de Wasco, no estado do Oregon, e sobre como esse grupo religioso que aparentemente pregava a paz entre os povos tentou dominar toda a cena política da região e foi o responsável pelo primeiro ataque terrorista biológico da história dos Estados Unidos, quando 751 pessoas foram infectadas por salmonela em uma tentativa de desestabilizar a região para que o guru do movimento, Bhagwan Shree Rajneesh (também conhecido como Osho), pudesse tomar a prefeitura de The Dalles, a maior cidade de toda a região onde ficava a sede do grupo.
Ao mostrar um culto pseudo-hinduísta, que distorcia os princípios da religião para defender ideias de monopólio burguesas e da sociedade de consumo (coisas que são a antítese dos dogmas da religião Hindu) e convencer um grupo de seguidores a infectar 751 pessoas com uma doença mortal é a coisa certa a se fazer, Wild Wild Country foi lançado no momento certo de nossa história. Em um ano onde tivemos tantas tensões e conflitos voltados contra estrangeiros, é preciso lembrar que muitas vezes o verdadeiro inimigo cresce no próprio seio do país, amparado por um discurso de proteção a uma religião que é distorcida para seus próprios fins sinistros.
A Balada de Buster Scruggs
O mais recente filme dos irmãos Coen — e o primeira da parceria entre a dupla de diretores e a Netflix — apresenta o melhor de tudo o que definiu as mais de duas décadas de carreira dos cineastas.
O filme é mais um western dos diretores, mas que se diferencia dos outros filmes do gênero por não ser apenas mais uma história de um pistoleiro solitário, mas uma antologia de diversas histórias que acontecem em cenários de velho oeste, sendo composto por diversos curtas cuja única linha comum é que todos se passam no mesmo universo.
A Balada de Buster Scruggs traz para a Netflix toda a beleza sublime e o humor sarcástico dos melhores trabalhos dos irmãos Coen, e ecoa em diversos momentos algumas de suas obra-primas, como Fargo, Onde os Fracos Não Têm Vez e Queime Depois de Ler, e nos prova que apenas uma dupla de diretores como os Coen poderiam criar uma antologia onde todas as histórias são, ao mesmo tempo, engraçadas e que tocam a ferida dos problemas mais profundos da condição humana, e onde nenhum dos diversos personagens apresentados é um simples arquétipo clássico do gênero.
A Maldição da Casa Hill
Uma das principais surpresas do ano, a série da Netflix rapidamente se tornou uma queridinha dos fãs dos fãs de terror — e com razão. A Maldição da Casa Hill não apenas é uma ótima produção do gênero de terror, mas também umas das melhores séries em geral lançadas pela Netflix nos últimos anos.
A história, que alterna entre dois períodos, se diferencia da maioria das produções do gênero por mostrar não apenas os eventos paranormais em si, mas também o trauma que eles provocaram nas vidas futuras de todos aqueles que os presenciaram. A história também se destaca por seus visuais, e cada quadro da produção é montado como se fosse uma pintura, onde nada está ali por acaso e tudo possui um significado, seja ele para criar tensão ou mesmo beleza para a cena.
Com algumas das cenas mais marcantes de todo o gênero de terror dos últimos anos e alguns plot twists que ninguém poderia prever, A Maldição da Casa Hill é facilmente não apenas a melhor obra de terror lançada na Netflix este ano, mas a melhor obra de terror lançada este ano, ponto final. Alguns críticos até acreditam que a série é a melhor obra já produzida em toda a história da Netflix, superando inclusive as primeiras temporadas de House of Cards, então se você ainda não viu a série este ano, pode colocá-la em sua lista para assistir assim que possível, que com certeza não será um desperdício de tempo (ao contrário da sexta temporada de House of Cards).
Patriot Act with Hassan Minhaj
2018 foi o ano dos programas do gênero “Late Show”, onde humoristas serviram como jornalistas para nos explicar o que raios está acontecendo com o mundo. Na TV aberta, programas como The Daily Show with Trevor Noah e The Late Show with Stephen Colbert tem registrado algumas das maiores audiências do horário nobre nos Estados Unidos, enquanto na TV a cabo Last Week Tonight with John Oliver tem sido um dos principais e mais premiados programas da HBO nos últimos anos. E, claro, a Netflix já vinha há algum tempo tentando criar o seu próprio programa no gênero — e conseguiu acertar em cheio com Patriot Act.
O programa de Hassan Minhaj — que já possui muita experiência nesse tipo de show por nos últimos quatro anos ter sido um dos correspondentes do The Daily Show — cria a sua própria versão do que é um programa Late Show voltado para uma plataforma de streaming. Ao invés de discutir sobre as últimas declarações do presidente Trump ou a polêmica da semana, o programa utiliza esses assuntos para tratar de temas mais abrangentes — mas que não deixam de ser complexos.
Com seis episódios que tratam de temas como “políticas de imigração”, “ações afirmativas” e “liberdade de expressão”, Patriot Act with Hassan Minhaj tem um formato que funciona perfeitamente para a plataforma de streaming, pois a abordagem usada faz com que os temas continuem atuais independente de quando cada episódio é assistido. E como um dos melhores humoristas em atividade nos Estados Unidos, Minhaj consegue falar desses assuntos de um modo que até o mais alienado millennial consiga ficar interessado durante toda a discussão e entender a importância e complexidade do tema, o que torna Patriot Act uma das mais importante produções da Netflix para 2018.
Ugly Delicious
Documentários sobre comida é um tipo de conteúdo que existe aos montes na Netflix, mas nenhum deles pode ser comparado a Ugly Delicious. Durante oito episódios, o chef David Chang (um dos mais renomados chefs do mundo e criador do que muitos críticos culinários consideram ser a melhor cadeia de restaurantes do mundo, o Mumufuku) nos leva em uma jornada não para descobrir as delicadezas da alta cozinha, mas a beleza existente nas comidas do dia-a-dia como pizza, churrasco e frango frito.
Durante toda a jornada, Chang ri da cara da tradição, desdenha de chefs que falam sobre “o jeito certo” de se cozinhar um prato, e defende abertamente que somente a experimentação, a mistura de culturas e o fim do segregacionismo culinário pode proporcionar cada vez melhores experiências culinárias.
No mesmo ano em que perdemos Anthony Bourdain, David Chang se revelou oficialmente para o mundo não-gastronômico como o próximo grande rebelde da gastronomia, e não só a visão única dele sobre o ato de cozinhar mas também o carisma natural do chef fazem de Ugly Delicious uma série obrigatória para todos os que gostam de cozinha, e certamente mudará suas ideias sobre muitas das “verdades consagradas” da culinária.
A Noite nos Persegue
Depois que The Raid (Aqui no Brasil conhecido como Operação Invasão) foi lançado em 2011, muita gente achou que o cinema de ação indonésio tinha chegado em seu auge e já não teria muito mais com o que contribuir para o desenvolvimento do gênero. Mas, como já diria (sem ofensas, claro) o grande Rogerinho do Ingá: achou errado, otário!
Pela segunda vez em menos de dez anos, um filme com o astro indonésio Iko Uwais nos mostra como a mente ocidental é limitada na hora de pensar novos caminhos para filmes de ação. Dessa vez, quem tenta mudar nossa concepção do gênero é o diretor Timo Tjahjanto, que usa sua experiência em filmes de terror para praticamente criar um novo subgênero dentro do cinema de ação, que mistura o tipo de ação frenética e sem pausas para respirar de Operação Invasão com o sangue e tripas de filmes gore de terror B. E não, isso não é a mesma coisa que Tarantino fez em Kill Bill: o filme de Tarantino está mais próximo de um episódio dos Teletubbies do que da violência utilizada no filme de Tjahjanto.
A Noite nos Persegue é, ao mesmo tempo, um dos filmes menos discutidos e um dos melhores filmes lançado em 2018 e, assim como aconteceu com Operação Invasão, eleva para outro nível todo o gênero de ação e provavelmente será copiado nos próximos anos por produções com muito mais investimento.
Sierra Burgess é uma Loser
2018 também foi o ano do renascimento das rom-coms, as comédias românticas que fizeram muito sucesso durante toda a década de 1990 e no início dos anos 2000, mas que desde meados de 2005 estiveram em baixa com a ascensão dos filmes de super-heróis. Entre as produções deste ano na Netflix, diversas delas foram boas produções do gênero, com destaque para filmes como Para Todos os Garotos que Já Amei, A Barraca do Beijo e O Plano Imperfeito. Mas nenhuma dessas produções é tão única quanto Sierra Burgess é uma Loser.
O filme é uma versão moderna da peça de teatro Cyrano de Bergerac, e conta a história de um caso de identidade equivocada, onde a maior “perdedora” do ensino médio se passa pela garota mais popular da escola na tentativa de conquistar o crush, o que acaba desenvolvendo uma amizade entre as duas garotas.
A grande diferença de Sierra Burgess é uma Loser para a maioria das comédias românticas do gênero está na protagonista do filme. Ao invés de colocar a “perdedora” como uma menina loira, magra, de olhos azuis e que se torna uma modelo da Victoria’s Secret se soltar o cabelo e tirar o óculos, a atriz Shannon Purser (a Barb de Stranger Things) apresenta uma personagem que condiz muito mais com o tipo de garota que seria considerada como uma “loser” no ensino médio: alguém muito inteligente e gente boa mas que não liga para maquiagens ou roupas provocantes, que tem o rosto cheio de sardas, tem um corpo fora do padrão o suficiente para ser chamada de “gorda” pelo resto da escola mas que, ao mesmo tempo, se sente bem consigo mesma e não possui muitas das inseguranças que outras adolescentes se esforçam para esconder. Isso torna Sierra Burgess uma personagem muito mais identificável do que a da maioria das comédias românticas, e coloca Sierra Burgess é uma Loser um degrau acima dos outros títulos do gênero lançados pela Netflix este ano.
Fútil e Inútil
Uma espécie de “longa de comédia documental”, Fútil e Inútil conta a história da dupla de amigos Doug Kenney e Henry Beard, dois estudantes que, mesmo com um diploma de Harvard, decidiram abandonar a carreira de advogados com que suas famílias sonhavam para dedicar suas vidas à produção de uma revista de piadas em 1970: a National Lampoon, que não só lhes garantiu fama como também mudou toda a comédia mundial dali pra frente, sendo o precursor de um humor escatológico e sem papas na língua que culminou na criação da revista MAD e, aqui no Brasil, com o programa Casseta & Planeta.
Ao tentar colocar na narrativa ao mesmo tempo o panorama histórico e crítico da carreira de Doug Kenney (que se suicidou em 1980), Fútil e Inútil tropeça em certos momentos ao querer abraçar coisas demais. Mas ainda que, nos quesitos técnicos, não seja nem de perto a melhor comédia deste ano ( a própria Netflix nos trouxe diversos especiais de comédia que podem facilmente ser considerados mais engraçados, como Filho de Patrícia de Trevor Noah e América Latina para Idiotas de John Leguizamo), é facilmente uma das mais interessantes, pois o fato de ser ao mesmo tempo uma celebração e uma crítica ao comediante que ajudou a construir a cena de humor que temos hoje faz com que a estranheza do longa se torne uma de suas maiores qualidades.
Com um elenco de grandes nomes da comédia como Will Forte (The Last Man on Earth), Joe Lo Truglio (Brooklyn Nine-Nine), Natasha Lyonne (Orange is The New Black), Joel McHale (Community), Emmy Rossum (Shameless) e Paul Scheer (How Did This Get Made?) no elenco, Fútil e Inútil é um filme obrigatório para todos aqueles que gostam não só de rir das piadas, mas também tentam entender como a comédia em si é feita.