Crítica | The Mandalorian é a melhor história de Star Wars da última década

Por Rafael Rodrigues da Silva | 07 de Janeiro de 2020 às 16h00

Quando em 2018 a Disney não apenas anunciou que iria começar o seu próprio serviço de streaming, mas também que ele já inauguraria com a primeira série para TV com atores reais baseada no universo de Star Wars (até então, todos os conteúdos para TV da saga eram animações), não apenas o Disney+ se tornou um dos serviços de streaming mais aguardados do mundo, como The Mandalorian se tornou uma obra tão aguardada quanto (ou, para alguns, até mais que) o próximo filme da franquia. E, ainda que toda essa expectativa tenha ajudado a Disney a quebrar qualquer recorde esperado — em apenas um dia, o Disney+ já havia conseguido os 10 milhões de assinantes que os analistas esperavam que o serviço conseguiria em todo o primeiro ano de operação —, ela também era perigosa. Afinal, “quanto maior o tamanho, maior a queda”, e uma expectativa muito alta por algo que ninguém fazia ideia do que seria poderia também significar uma enorme decepção para um fandom que já não é conhecido por ter muita paciência com qualquer coisa que quebre suas expectativas.

E, de certa forma, The Mandalorian quebrou mesmo todas as expectativas: em uma época em que os fãs de Star Wars se dividem em grupos e não conseguem decidir se os últimos dois filmes principais da franquia são obras-prima ou alguns dos piores já lançados, a série do Disney+ é aquela rara unanimidade que une todo mundo, com ambos os lados dessa briga pela "alma" da saga concordando que The Mandalorian é boa pra caramba. E essa unanimidade é conseguida ao fazer algo que nenhum dos filmes da última trilogia conseguiu entregar: apresentar um conceito totalmente novo de o que é uma história de Star Wars sem a necessidade de envolver personagens e eventos do passado.

AVISO DE SPOILER 
O texto a seguir conta superficialmente alguns trechos da série

Bangue-Bangue no espaço

A primeira mudança que vemos claramente entre The Mandalorian e todos os outros filmes de Star Wars é na própria ideia do que está em jogo: enquanto em todos os filmes da saga (incluindo Solo) os heróis lutam pelo destino de planetas inteiros ou do universo de forma geral, nada é assim tão grandioso na série. O Mandaloriano (ou Mando, para os mais íntimos) do título é apenas mais um trabalhador assalariado da galáxia que não tem tem interesse nenhum nas políticas que a regem, e quer somente fazer o seu serviço, receber por ele e já pegar o próximo sem dedicar qualquer tempo para descanso entre ambos — algo com o qual qualquer trabalhador freelancer pode se identificar.

Mas, logo no fim do primeiro episódio, já entendemos que este não será apenas um show de “missão da semana” — como, por exemplo, é Star Trek — pois assim que conhecemos o verdadeiro astro (sim, o Bebê Yoda) já entendemos qual será o ponto principal da série: Mando deverá proteger aquela criaturinha fofinha das garras dos sobreviventes do Império, que por algum motivo estão atrás dela. E logo descobrimos o porquê: o bebê (também chamado pela série de A Criança) não apenas é um usuário da Força, como seu controle sobre Ela é relativamente forte para a idade. A Criança mal consegue andar sozinha direito, mas é poderosa o suficiente para parar o ataque e levantar do chão um Mudhorn, uma criatura que se parece com um rinoceronte peludo e que deve pesar pelo menos umas duas toneladas.

Mas, apesar de todo esse poder, o Bebê Yoda ainda é uma criança, e não consegue se virar sozinho. Usar a Força o esgota de uma forma que ele sempre precisa tirar uma longa soneca depois. Assim, a missão de Mando se torna clara: ele precisa garantir a proteção da Criança, que continuará sendo caçada pelas tropas imperiais enquanto estiver viva.

Outra diferença da série para os filmes de Star Wars é em como o produto televisivo se inspira nos filmes de western. Não que os próprios filmes da saga também não possuam inspiração no gênero, mas enquanto eles bebem essa inspiração em pequenas doses, The Mandalorian está entornando garrafas e se afogando nela. E isso já é possível notar desde a primeira cena: a partir do momento que Mando entra num bar para capturar um fugitivo e precisa lutar com um bando de desordeiros — isso tudo sem dizer uma única palavra — fica claro que estamos de volta naquele cantinho da história do cinema que diretores como Sergio Leone usaram para solidificar no imaginário popular a figura do cowboy.

E o próprio protagonista parece ter saído diretamente desses filmes, já que Mando é a versão Star Wars do Homem Sem Nome eternizado por Clint Eastwood na trilogia de Leone. Assim como o personagem de Eastwood, Mando é um homem cuja presença é totalmente física. O personagem pouco fala ao longo de todos os oito episódios da série, e conhecemos muito mais sobre ele através de suas ações — aquilo que ele faz ou que, propositalmente, deixa de fazer — e do que os outros personagens dizem sobre ele, o que é algo bem diferente do que esperamos do “herói moderno” do cinema e remete diretamente a um momento no qual o que esperávamos das figuras masculinas é que elas fossem bonitas e caladas, e essa recusa em falar sobre si mesmo (ou sobre praticamente qualquer coisa) criava uma aura de mistério sobre suas personalidades que os tornavam ainda mais másculos e atraentes.

Mas é nesta área que uma das características mais marcantes de Mando parece em contraste com a ideia que temos do cowboy, já que o fato de ele nunca tirar o capacete faz com que não vejamos o rosto do herói durante 99% de toda a série. Mas, ao mesmo tempo, é essa recusa em tirar o capacete que faz com que Mando funcione como um herói de western clássico. Isso porque Pedro Pascal, ainda que tenha uma voz meio rouca que é perfeita para o papel, é um ator muito bom para convencer como o típico cowboy misterioso. E ele ser “muito bom” é porque atores como Clint Eastwood, Humphrey Bogart e Charles Bronson fizeram suas carreiras com base em apenas uma ou duas expressões faciais, e era justamente essa falta de expressão que ajudava a vender seus personagens como os “machões misteriosos”, já que nunca era possível saber o que exatamente eles estavam pensando ou sentindo em um determinado momento. Isso não acontece com Pascal, e é possível perceber isso claramente nos poucos segundos em que ele aparece sem o capacete: em uma cena que não durou nem 10 segundos, é possível notar toda a dor e conflito existente na mente do personagem, que sabe que, de certa forma, está quebrando seu juramento mas que, ao mesmo tempo, este é o único jeito de conseguir sobreviver para continuar mantendo outro juramento: o de proteger a Criança.

Esse é o tipo de conflito interno que Pascal consegue transmitir em apenas alguns segundos da câmera focando em seu rosto, e que atores como Eastwood e Bronson nunca demonstraram em suas carreiras inteiras. Por isso, o capacete acaba por proteger Pascal de sua própria qualidade como ator, e nos ajuda a “comprar” Mando como o cowboy misterioso e sem sentimentos — algo que seria impossível caso o rosto super expressivo de Pedro Pascal fosse mostrado a todo momento.

Além dos filmes de faroeste, outra mídia que tem uma tradição de protagonistas silenciosos são os videogames — principalmente entre os de RPG, onde até hoje alguns jogos escolhem não dublar seus protagonistas para manter aquilo que já se tornou uma marca do gênero. E, incrivelmente, há muita influência dos videogames no modo como a história de The Mandalorian é contada, principalmente na forma que funciona em muitos momentos a motivação do personagem.

Um dos momentos mais claros disso é no terceiro episódio, quando o personagem pega todo o dinheiro ganho na captura do Bebê Yoda e o utiliza para melhorar a armadura e comprar novas armas para, então, invadir a base dos fugitivos do Império e resgatar a Criança. Mesmo filmes baseados em jogos de videogame não possuem uma sequência de eventos que grita tanto “tirado de um videogame” quanto essa, e espero que os cineastas responsáveis por adaptar futuros filmes baseados em jogos para o cinema estejam prestando atenção nisso para entender como é possível juntar alguns clichês de jogos em uma narrativa que também faz sentido no cinema ou na TV.

Mesmo assim, a maior inspiração para a série são mesmo os filmes de faroeste, e basicamente todos os grandes clássicos são lembrados aqui: além do protagonista ser uma versão direta do personagem de Clint Eastwood na Trilogia dos Dólares de Leone, há diversas cenas — quando não episódios inteiros — que fazem uma referência direta aos clássicos do bangue-bangue. A batalha no final do primeiro episódio, quando Mando e o androide IG-11 precisam derrotar um pequeno exército para chegarem no local onde o Bebê Yoda está escondido, é praticamente uma releitura de todo o conflito final de Meu Ódio Será Tua Herança, incluindo até mesmo o uso da metralhadora giratória montada.

Outro filme lembrado em uma cena final é O Álamo, o clássico dirigido e estrelado por John Wayne e que é evocado no fim do episódio 7 e em praticamente todo o episódio 8, onde o grupo de heróis está acuado e precisa proteger com suas vidas algo precioso (na série o Bebê Yoda) contra um exército muito melhor armado e mais numeroso do que eles. E há também a obrigatória homenagem a Os Sete Samurais/Os Sete Magníficos, com o episódio 4 todo sendo uma releitura do que talvez sejam os mais famosos filmes de samurai/western de todos os tempos, onde um grupo de mercenários contratado para defender uma cidade de uma ameaça muito maior do que esperavam acaba tendo que transformar os próprios cidadãos dela em guerreiros para terem qualquer chance de vitória.

Com isso, The Mandalorian consegue ter sucesso naquilo que foi o grande problema dos últimos três filmes principais da franquia Star Wars: encontrar o equilíbrio entre homenagear filmes do passado que serviram de inspiração aos diretores enquanto apresentam uma história totalmente nova para quem está assistindo. Isso porque, ainda que em diversos momentos o filme reencene westerns clássicos, ele o faz como algo para avançar a história e não pelo receio de mudar aquilo que já foi feito anteriormente. J.J. Abrams poderia aprender muito com Jon Favreau sobre como fazer uma homenagem ao passado sem transformar esse passado em um “cabide” narrativo.

Aliás, Favreau mostra que também aprendeu bem com o tempo que ficou ao lado de Kevin Feige na Marvel, e grande parte do sucesso de The Mandalorian é porque ele aplicou tudo aquilo que o estúdio dos filmes de super-heróis provou que dá certo. Primeiro que, ao invés de dividir os roteiros dos episódios entre dezenas de roteiristas, ele pessoalmente tratou de cuidar dessa parte. Isso não quer dizer que o roteiro não tenha problemas. Ele tem, principalmente no quesito das conversas entre os personagens, que muitas vezes parecem que foram escritas por uma IA tentando imitar o modo como as pessoas falam nos filmes de faroeste. Mas ao menos fica perceptível que há um sentido claro, um objetivo que deve ser alcançado desde o primeiro episódio. E, com um objetivo bem definido de onde a narrativa deve sair e para onde ela precisa chegar, é muito mais fácil criar uma história consistente, mesmo que ela não tenha uma execução perfeita.

E ter um objetivo bem definido também permite dar uma maior liberdade para que os diretores possam trabalhar. Apesar de todos os episódios terem uma linha condutora bem definida, é possível perceber que cada diretor teve a liberdade de aplicar o seu próprio estilo neles. Isso é facilmente notado no último episódio, dirigido por Taika Waititi. Apesar de hoje ele ser um dos grandes diretores de ação de Hollywood, Taika nunca perdeu a essência do humor que marcou toda sua carreira até aqui, e mesmo sendo responsável pelo episódio de maior tensão da temporada, ele tem a liberdade para inserir uma cena de cerca de três minutos onde dois stormtroopers (interpretados pelos humoristas Jason Sudelkis e Adam Pally) ficam fazendo piadas sobre o Bebê Yoda, sobre a ineficiência da cadeia de comando do Império e sobre como os stormtroopers são atiradores tão ruins que não conseguem acertar um alvo parado a dois metros de distância.

A cena é totalmente diferente de tudo o que a série apresenta até ali e não condiz em nada com o momento de tensão com o qual o episódio anterior terminou (onde Mando está cercado de tropas imperiais e o Bebê Yoda foi capturado por um stormtrooper) mas justamente por isso funciona tão bem: ao ter a liberdade de aplicar seu humor típico nesta transição, Waititi consegue elevar a cena para o status de memorável ao mostrar um lado do Império (sempre tão sério e malvadão) que nunca vimos em nenhum momento de toda a franquia Star Wars, e trazer um pequeno respiro à toda a tensão daquele momento, que apenas será elevada conforme a história segue adiante.

E se tem algo que The Mandalorian não deixa nada a desejar aos filmes é na questão visual: a série é tão de cair o queixo quanto qualquer filme de Star Wars. Mesmo com um orçamento relativamente mais baixo (afinal, qualquer filme da franquia custa alguma centenas de milhões de dólares), a série continua oferecendo as mesmas paisagens visuais deslumbrantes e a mesma qualidade de efeitos especiais que qualquer filme da saga, deixando claro para quem assiste que este não é um caça-níqueis que usa o nome da franquia para atrair os fãs, mas uma obra real de Star Wars, com toda a qualidade e peso visual que o nome sugere. Há até mesmo um momento onde Mando enfrenta uma nave TIE Fighter, que é muito parecido com uma das cenas de A Ascensão Skywalker, e que não deixa nada a desejar na qualidade da sequência de ação quando comparado ao filme de maior orçamento.

Outro ponto em que a série mantém o mesmo padrão de qualidade dos filmes é na trilha sonora. Apesar de não contar com John Williams (que foi quem criou todas os temas clássicos de Star Wars e manteve a trilha sonora da franquia como uma das melhores da história do cinema), a Disney contratou para a série Ludwig Göransson, o sueco que talvez seja o melhor compositor para cinema e TV desta geração. Apesar de ter apenas 35 anos, Göransson já tem um currículo invejável, produzindo álbuns de Childish Gambino e Chance The Rapper, além de toda a trilha sonora da série Atlanta e dos filmes Creed, Creed II e Pantera Negra.

Em The Mandalorian, o músico mostra toda a versatilidade e criatividade que lhe renderam três Grammys e um Oscar, e a trilha sonora da série consegue misturar de forma surpreendente e magnífica os temas de John Williams para Star Wars com as que trilhas que Ennio Morricone imortalizou em filmes de faroeste como Três Homens em Conflito e Era Uma Vez no Oeste. Apesar das ideias musicais destes dois compositores serem completamente diferentes, Göransson consegue misturá-las de forma surpreendente em suas músicas, e entrega para The Mandalorian a trilha perfeita para a série, misturando de forma homogênea o universo de Star Wars com os westerns clássicos que foram a grande inspiração desta história, entregando uma daquelas raras trilhas sonoras que pode ser apreciada até mesmo por aqueles que não conhecem a série.

This is The Way

Em um momento em que todo o futuro da saga Star Wars está em aberto, The Mandalorian mostra um possível caminho que a franquia pode trilhar: o abandono de histórias “macro” sobre salvar todo o universo e investir mais em histórias “micro”, com menos coisas em jogo mas com um foco maior no desenvolvimento de personagens. Claro, não é o único caminho, mas é um dos possíveis a ser trilhado — e que provavelmente será o utilizado nas outras séries já confirmadas da franquia (a de Obi-Wan Kenobi e a de Cassian Andor).

Mas, independente do significado que ela terá para o futuro da saga, The Mandalorian já fez a sua parte. Desde que foi anunciado, a série tinha dois grandes desafios para superar: mostrar que era possível criar séries para TV de Star Wars que tivessem a mesma qualidade visual dos filmes da saga, e mostrar que os conteúdos exclusivos do Disney+ teriam uma qualidade suficientemente boa para valer a pena os usuários pagarem mais uma assinatura de streaming. E, em ambos os casos, ela foi bem sucedida: The Mandalorian é não apenas uma das melhores opções do catálogo da Disney+, mas também uma das melhores séries de TV lançadas em 2019 e uma das melhores obras de Star Wars já lançadas. E, depois de toda a controvérsia envolvida nos dois últimos filmes da franquia, é bem possível que Mando e o Bebê Yoda sejam quem irão ditar as regras sobre quais serão os próximos passos da saga. I have spoken.

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.