Crítica | Alice in Borderland traz distopia divertida com jogo de sobrevivência

Crítica | Alice in Borderland traz distopia divertida com jogo de sobrevivência

Por Natalie Rosa | 14 de Dezembro de 2020 às 20h20
Divulgação: Netflix

Com o fim de 2020 na porta, esperando para finalmente ir embora, a Netflix surpreende seus assinantes com o lançamento de uma nova série original, que promete uma maratona cheia de emoção e várias interrogações surgindo na cabeça. Alice in Borderland, original do Japão e que chegou à plataforma de streaming no último dia 10 de dezembro, conta uma história que é uma adaptação homônima de um mangá de 2014 que, de fato, tinha tudo para ganhar vida em um novo formato de entretenimento.

A premissa inicial da série não tem nada de diferente ou inovador, mesmo que envolva um futuro distópico e, possivelmente, um cenário pós-apocalíptico. Inclusive, com o passar dos episódios, e possível perceber uma leve semelhança com os acontecimentos de duas grandes franquias do cinema, mas vamos deixar esse ponto para depois, já que aparentemente este não é o único detalhe que chama a atenção em Alice in Borderland que consegue transformar a série em um produto único.

Imagem: Divulgação/Netflix

Atenção: esta crítica contém spoilers de Alice in Borderland!

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A trama começa quando, um certo dia, três amigos, passeando pela cidade, acabam fazendo umas brincadeiras que chamam a atenção da polícia e se escondem em um banheiro de metrô. Quando saem, percebem que toda a população de Tóquio desapareceu e só restam os três. Conforme as horas vão passando e os amigos vão passeando pela cidade para tentar entender o que aconteceu, eles descobrem que precisam participar de um jogo para sobreviver. Aliás, vários jogos.

Eles não têm escolha. Ou jogam, ou morrem. Morrem com um laser vindo do céu direto na cabeça. No primeiro jogo, já vemos que o que a série está tramando não é nada amigável, muito menos simples, envolvendo muita lógica, decisões bem pensadas e, principalmente, é preciso deixar se levar pelo instinto de sobrevivência. A cada jogo, situações mais complicadas vão acontecendo e rapidamente começamos a entender que o que está acontecendo faz parte de algo muito maior e que será difícil escapar.

A série parece se transformar em outra, além de trazer muito mais respostas, quando os protagonistas descobrem que existem vários outros sobreviventes e um lugar chamado "Praia", em que as pessoas que vão sobrevivendo aos jogos ficam juntas, se divertem e se preparam para os próximos desafios. No entanto, como o convívio em sociedade em meio ao fim do mundo pesa ainda mais a questão da sobrevivência, existe muita guerra e traição.

Imagem: Divulgação/Netflix

Em meio à cidade de Tóquio repleta de luzes, prédios altos e muitas cores, o desafio enfrentado pelos personagens parece um grande cenário de videogame, assim como as características físicas e personalidades de cada pessoa. Entre os protagonistas, temos um bartender descolado com o cabelo descolorido, um nerd com roupas "sérias" que se deixar levar pela emoção e um viciado em videogame que usa roupas básicas e largadas, que lida com problemas familiares.

Logo, com mais arenas de jogos aparecendo, assim como novos personagens, vemos outros tipos bem peculiares, como um rapaz todo tatuado que gosta de se exibir com uma grande espada, outro que está sempre de moletom e com as mãos do bolso mostrando que sabe de algo importante, uma jovem mulher com dreads no cabelo, um palito na boca e sempre usando biquíni, um homem sádico cheio de piercings no rosto, ou ainda o líder da Praia, que se comporta como um rei e que deixa o ego subir à cabeça e controlar todas as suas ações.

Finalmente, é hora de entender as referências apresentadas em Alice in Borderland, e claro que a primeira é Alice no País das Maravilhas, que em inglês se chama Alice in Wonderland. Isso porque, assim como no conto de fadas, as cartas de baralho e seus símbolos representam alguma coisa, e na série é a dificuldade de cada jogo. Alguns são levados mais pela lógica e outros envolvem traição e sentimento. Já o termo "border", que inglês significa fronteira, faz referência aos jogos estarem acontecendo, aparentemente, somente em Tóquio, e o objetivo deles é sair de lá.

Imagem: Divulgação/Netflix

Além disso, a obrigação de fazer algo extremo, que vai envolver a morte de muitas pessoas, também lembra o filme que, provavelmente, é o mais sádico de todos os tempos: Jogos Mortais. Porém, os desafios de Alice in Borderland não são nada em comparação à franquia do cinema. Os jogos não acontecem por acaso e existem pessoas, seres, alienígenas, seja lá o que forem os criadores desse jogo perverso, que exige, direta ou indiretamente, que os participantes matem os outros para sobreviver, e algo parecido é visto na franquia Jogos Vorazes, também adaptação de uma saga de livros, que mostra líderes sádicos e que se divertem controlando toda essa desgraça.

Muitas vezes, durante momentos em que conhecemos melhor os personagens, ficamos esperando por uma resposta moral que justifique a existência do jogo — talvez por quem está acostumado com a fórmula ocidental —, mas nem sempre esses questionamentos ficam explícitos. Mas um dos momentos em que é possível, pelo menos um pouco, tentar entender essa possibilidade, acontece no início, quando somente uma pessoa de um grupo de amigos poderá sobreviver, e vários flashbacks de seus momentos juntos são trazidos à tona.

Alice in Borderland é uma série que pode ser considerada um mangá em live action, trazendo referências da cultura pop, entre filmes e videogames, e é uma grande surpresa para quem estava esperando um drama japonês e uma história menos intensa. A trama, de fato, é divertida, não há como negar, apesar de um roteiro confuso e algumas explicações que não façam sentido ao menos que você tire alguns minutos para digerir as cenas. Todos esses pontos fazem com que você consiga assistir aos oito episódios em sequência sem nem ver o tempo passar.

Imagem: Divulgação/Netflix

É claro que, como diversas outras atrações com muitas coisas acontecendo, muitos elementos, cenas ação e referências, alguns detalhes deixam a desejar, como algumas atuações e situações que beiram o absurdo, mesmo que a história já seja um grande "o que está acontecendo aqui?", além de alguns momentos das atuações que, de tão falhas, chegam a ser engraçadas. Isso, no entanto, não tira o mérito do elenco que consegue transparecer toda a sua agonia desse mundo perverso que não escolheram viver.

Os efeitos especiais conquistam por si só, mesmo que nem sempre perfeitos, e se completam na criação de uma obra japonesa de respeito que cumpre com maestria o seu papel principal: entreter. Muitas questões ainda ficaram em aberto e, se depender disso e da popularidade que a trama está recebendo ainda nos primeiros dias, há chances de que logo tenhamos uma segunda temporada.

A série Alice in Borderland já está disponível na Netflix em oito episódios.

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