Por que é quase impossível derrubar grandes sites piratas da internet?
Por Lillian Sibila Dala Costa • Editado por Jones Oliveira |

A pirataria na internet é como a Hidra de Lerna: se você cortar uma cabeça, nascem duas. Derrubar domínios clandestinos, atualmente, é apenas um inconveniente temporário para os administradores. Um exemplo perfeito é o caso do Anna’s Archive, que, mesmo tendo endereços derrubados pela Justiça, logo registrou mais três para manter suas atividades.
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Mas por que os piratas virtuais continuam em atividade? Processos milionários, queda de infraestrutura e condenações não deveriam bastar para desincentivar a atividade? O problema, além de tecnológico, é mercadológico, e o Canaltech vai destrinchar tudo por aqui. Mas antes, um pouco de história.
Pioneiro inafundável: The Pirate Bay
O The Pirate Bay é um antigo conhecido por quem baixava séries, filmes e livros há décadas: o site sobreviveu a uma famosa batida policial na Suécia, em 2006, e segue em atividade até hoje. Abandonando os arquivos pesados, os responsáveis pelo repositório mudaram de tática para sobreviver.
O TBP passou a usar magnet links, linhas de texto que indicam o caminho do torrent, sem necessidade de baixar os arquivos que outros sites usam. Todo o acervo do site passou a pesar menos de 100 MB, cabendo em um pendrive simples.
Isso facilitou a criação de dezenas de sites clones, os mirrors, e tornou quase impossível derrubar o The Pirate Bay.
Terror das universidades: Sci-Hub
O Sci-Hub é um dos grandes repositórios clandestinos de artigos científicos. Criado por Alexandra Elbakyan, o site dribla processos milionários de empresas como a Elsevier, publicadora que recentemente também processou o Anna’s Archive. Como a página escapa dos ataques consistentes?
Simples: turismo de servidores. Os sites são hospedados em países que ignoram notificações judiciais de direitos autorais estadunidenses e europeias, como Rússia e Cazaquistão. Quando não há vontade política para cumprir as ordens internacionais, os mandados judiciais são basicamente inúteis.
"Netflix Pirata": Popcorn Time e Stremio
Casos de pirataria de filmes e séries, como o Popcorn Time, usam a força do código aberto para sobreviver. Mesmo que os criadores do serviço clandestino tenham sido presos e o braço original de programação do projeto tenha sido derrubado, os detentores dos direitos autorais ainda perderam a guerra.
Como o código do aplicativo era aberto, milhares de programadores anônimos pegaramm a base e desenvolveram sua própria versão: mesmo que um deles seja preso ou tenha o site derrubado, outros dez desenvolvedores surgem com outra versão, como o famoso Stremio.
Ração das IAs e a Dark Web: Z-Library e Anna's Archive
O Anna’s Archive e o Z-Library também usam táticas semelhantes num “gato e rato” de domínios, perdendo extensões tradicionais como .com e .org para migrar para domínios exóticos, como .vg, .pk e .se.
Quando a internet aberta fecha as portas para os hackers, os repositórios acabam migrando para a dark web, como a rede Tor ou I2P, onde o rastreio do IP do servidor é criptografado. Assim, mesmo ordens judiciais não conseguem ter efeito físico.
Vale lembrar que grandes repositórios servem como “ração da IA”, ou seja, juntam catálogos enormes de mídia, como livros, séries e filmes que são “raspados” pelos grandes modelos de linguagem como forma de se informarem da maneira mais rápida e barata possível. Aos desenvolvedores de LLMs e chatbots, catálogos clandestinos são um prato muito cheio, muitas vezes podendo ser acessados com assinaturas VIPs.
A pirataria, acima de tudo, é um problema de acesso e preço. Enquanto a tecnologia moderna permitir backups descentralizados, com uso de blockchain e torrents, por exemplo, e a demanda do público e até mesmo das empresas persistirem, a Hidra seguirá viva. É muito difícil, quase impossivel na verdade, tentar remediar a questão sem tocar na raiz do que a gera.