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O perigo da biometria que quase ninguém percebe

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Erick Teixeira
Erick Teixeira

Reconhecimento facial, leitura de digital e até escaneamento da íris já fazem parte da rotina de milhões de brasileiros. O que pouca gente percebe é que essas informações estão entre os dados mais sensíveis que existem e, diferente de uma senha comum, não podem ser alteradas caso vazem.

Com o avanço da inteligência artificial e dos deepfakes, especialistas em segurança digital alertam que o uso indiscriminado da biometria pode abrir espaço para novos tipos de golpes, fraudes financeiras e roubo de identidade.

Esse foi o tema do novo episódio do Podcast Canaltech, que recebeu Marta Schuh, diretora de Cyber & Tech Insurance da Howden Brasil, para discutir os impactos da biometria no dia a dia, os desafios da privacidade digital e os riscos do avanço acelerado da IA.

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A biometria já virou parte da rotina

Hoje, desbloquear o celular com o rosto, acessar o banco pela digital ou entrar em prédios usando reconhecimento facial parece algo natural. Segundo Marta, a biometria deixou de ser apenas uma ferramenta de identificação e passou a funcionar como mecanismo de autenticação digital.

Na prática, rosto, digital, voz e leitura da íris estão se tornando “senhas biológicas” utilizadas para validar identidades em serviços financeiros, aplicativos, aeroportos, empresas e sistemas corporativos.

O problema é que a popularização dessas tecnologias aconteceu mais rápido do que a conscientização da população sobre os riscos envolvidos.

IA e deepfakes mudaram o cenário

Durante a entrevista, Marta explicou que a inteligência artificial já consegue reconstruir voz, entonação, padrões de fala e aparência com poucos minutos de material disponível online.

Segundo ela, o Brasil ainda não viveu uma “grande onda” de deepfakes, mas o cenário deve mudar rapidamente nos próximos anos.

A preocupação vai além de vídeos falsos na internet. A combinação entre IA e biometria pode facilitar golpes financeiros, abertura de contas fraudulentas e fraudes de identidade cada vez mais difíceis de identificar.

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A executiva compara o momento atual da inteligência artificial ao início da internet no fim dos anos 1990: uma tecnologia ainda em expansão, mas que deve transformar radicalmente a sociedade em pouco tempo.

O que é o World ID?

Outro tema abordado no episódio foi o crescimento de iniciativas como o World ID, projeto que utiliza biometria para criar uma espécie de identidade digital global.

A ideia é centralizar validações biométricas para substituir gradualmente documentos físicos tradicionais. Segundo Marta, o conceito lembra processos já utilizados em aeroportos internacionais, principalmente nos Estados Unidos, onde parte da imigração já acontece por reconhecimento facial.

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Apesar do potencial de praticidade, ela defende cautela antes da adoção em larga escala. “O projeto é muito bonito na prática”, afirma a especialista durante a conversa, mas destaca que ainda faltam discussões importantes sobre segurança, privacidade e proteção dessas informações.

O maior problema: dados biométricos não podem ser trocados

Uma senha vazada pode ser alterada. O mesmo não acontece com rosto, digital ou íris.

Esse é justamente um dos principais pontos de preocupação levantados durante a entrevista. Segundo Marta, o vazamento de biometria tem impacto permanente, porque esses dados acompanham a pessoa pela vida toda.

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Ela afirma que já evita fornecer biometria em diversos contextos do dia a dia, principalmente quando não existe clareza sobre como essas informações serão armazenadas ou protegidas.

Empresas estão adotando biometria “por modismo”

Segundo Marta Schuh, muitas empresas passaram a implementar reconhecimento facial simplesmente porque a tecnologia virou tendência.

Ela cita casos de portarias, clínicas, academias e até apartamentos residenciais que passaram a exigir biometria sem necessidade operacional real.

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Na avaliação da especialista, esse comportamento aumenta a exposição dos usuários sem necessariamente trazer benefícios relevantes de segurança.

Ela defende que empresas avaliem se o uso da biometria realmente faz sentido para a operação antes de assumir riscos envolvendo dados tão sensíveis.

LGPD garante direito de recusa

Durante o episódio, Marta também explicou que a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) classifica biometria como dado sensível.

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Isso significa que empresas precisam justificar a coleta dessas informações e demonstrar necessidade legítima para o armazenamento. Segundo ela, em muitos casos, usuários podem se recusar a fornecer reconhecimento facial quando existem outros meios válidos de identificação, como RG ou CNH.

A especialista também lembra que a legislação prevê o chamado “direito ao esquecimento”, permitindo solicitar a exclusão dessas informações em determinadas situações.

Segurança digital vai além da tecnologia

Apesar da importância de ferramentas de proteção, Marta afirma que segurança digital depende principalmente de conscientização.

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Segundo ela, grande parte dos incidentes cibernéticos começa por falhas humanas, o que torna educação digital e treinamento tão importantes quanto investimentos em tecnologia.

Ela defende que empresas passem a tratar segurança cibernética como parte estratégica do negócio — e não apenas como custo operacional.

Onde a biometria realmente faz sentido

Apesar das críticas ao uso excessivo, Marta reconhece que existem contextos em que a biometria pode trazer ganhos reais de segurança.

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Hospitais são um dos exemplos citados por ela durante a conversa. Segundo a especialista, ambientes de saúde frequentemente sofrem ataques cibernéticos e precisam de mecanismos rápidos de autenticação sem comprometer a operação médica.

Para Marta, o desafio daqui para frente será equilibrar praticidade, segurança e privacidade em um cenário cada vez mais influenciado pela inteligência artificial.