Psicólogo Chris Ferguson derruba mitos sobre vício em tecnologia

Por Wagner Wakka | 24 de Maio de 2018 às 08h44

Muita gente já ouviu sobre vício em tecnologia e casos de pessoas que ficaram adictas a redes sociais, videogames e até televisão. Contudo, isso cai no imaginário público, muitas vezes com nenhum ou pouco embasamento científico. Para isso, o professor de psicologia da Universidade da Stetson da Flórida, Christopher J. Ferguson, escreveu um artigo mostrando seis dos principais mitos a respeito do assunto.

Ele já é um velho conhecido da comunidade gamer por ter escrito uma série de livros sobre a relação entre violência e jogos digitais. O último, lançado em 2017, é Moral Combat: Why the War on Violent Video Games Is Wrong, em que ele defende que se preocupar com os efeitos que a violência nos jogos pode acarretar aos jovens é precipitado.

“Eu sou um psicólogo que trabalhou com adolescentes e famílias e conduziu pesquisas sobre uso de tecnologia, videogames e vício. Acredito que a maioria dessas alegações de medo sobre tecnologia são bobagens. Existem vários mitos comuns de vício em tecnologia que merecem ser desmascarados por pesquisas reais”, pontua.

A droga da tecnologia

Contudo, neste artigo, Ferguson quer derrubar outros mitos. A começar, ele diz, tecnologia é uma droga e não funciona da mesma forma como cocaína, heroína e metanfetaminas. Ele defende que, como as principais atividades prazerosas da vida, o uso de tecnologias aumenta a liberação de dopamina, mas nada além de uma ação parecida com nadar, ler um livro ou comer. Quantitativamente, o uso de tecnologia, como vídeogames, aumenta em cerca de 50% da dopamina no cérebro em comparação com 450% da cocaína e 1.300% de metanfetaminas.

O segundo ponto do artigo mostra que não é fácil se tornar um adicto em tecnologia. Um estudo proposto por Ferguson mostra que 3% dos jogadores de videogame desenvolveram problemas de comportamento, como faltar à escola ou problemas com notas, por conta do vício em jogos.

Doença mental

Embora seja do senso comum que o vício em tecnologia possa ser um tipo de doença mental, isso ainda não é formalizado pela ciência. Ferguson questiona uma decisão da World Health Organization de adicionar o termo “doença de games” na lista de enfermidades.

Ele argumenta que há estudos que mostram que esse tipo de doença está mais associada à consequência de sintomas de outros problemas, tais quais a depressão. A divisão de tecnologia e psicologia em mídias da American Psychological Association divulgou uma nota em que se mostra crítica ao termo “doença de games”. Ainda, a própria UNICEF é reticente em usar o termo "vício" para descrever o excesso de uso de tecnologia por crianças.

Outro estudo, de Oxford, mostrou que pessoas que foram consideradas viciadas em jogos não mostraram maior número de problemas de saúde e psicológicos que o grupo de controle. “Pesquisas adicionais sugeriram que qualquer problema que os superusuários de tecnologia possam sofrer tende a ser mais brando do que o que aconteceria com uma doença mental, e geralmente desaparecem por conta própria sem tratamento”, crítica.

Auto-adicção

Um outro ponto levantado por Ferguson é a tecnologia como causadora do vício de si mesma. Ou seja, que produtos tecnológicos poderiam inerentemente ser viciantes. Como já apresentado, ele volta para a pesquisa que mostra que os problemas apresentados por pessoas que usam demais a tecnologia são oriundos de outros problemas. “As pessoas não pensam que pessoas depressivas que dormem o dia todo têm um ‘vício à cama’”, aponta. “Esforços para tratar o ‘vício em tecnologia’ podem fazer pouco mais do que tratar um sintoma, deixando o verdadeiro problema intacto”.

O ponto que Ferguson questiona é que os aparatos tecnológicos são tão viciantes quanto quaisquer outras ações como exercício, alimentação, sexo, trabalho, sendo que poucos destes têm uma definição como doença. O que mostra, segundo ele, que a tecnologia tem uma tendência maior a ser considerada mais perigosa que outras atividades.

Suicídio

Por fim, o psicólogo questiona a relação entre o uso de tecnologia e o número de pessoas que tiram a própria vida. Ele diz que há quem aponte que o uso de aparatos eletrônicos têm criado um aumento do número de suicídios.

Contra isso, Fergunson argumenta que, nos Estados Unidos, a taxa de suicídio aumentou sobretudo depois de 2008, quando começou a crise financeira no país. Logo, a simples associação deste aumento com o uso de redes sociais e aparelhos celulares se mostra infundada.

“Um artigo recente vinculava o uso da tela à depressão e ao suicídio entre adolescentes. Mas outro estudioso com acesso aos mesmos dados revelou que o efeito não era maior do que a ligação entre comer batatas e suicídio. Isso é um problema: os acadêmicos às vezes fazem alegações assustadoras com base em dados minúsculos que são frequentemente blips estatísticos e não efeitos reais”.

O artigo completo está disponível no site da Fast Co Design.

Fonte: Fast Co Design

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