COVID-19: por que o caixão é enterrado lacrado? Entenda como é o último adeus

Por Fidel Forato | 02 de Julho de 2020 às 14h34

Durante a pandemia do novo coronavírus (SARS-CoV-2), centenas de milhares de pessoas já morreram em decorrência da COVID-19. Somente no Brasil, mais de 60 mil pessoas faleceram pela infecção respiratória, segundo dados do Ministério da Saúde. Infelizmente, os familiares dessas pessoas não puderam velar seus entes queridos e, muito menos, ter um velório tradicional. Por conta dos riscos, a maioria desses caixões são lacrados.

Conforme o Guia para o Manejo de Corpos no Contexto do Novo Coronavírus – COVID-19, publicado em março pelo Ministério da Saúde, "os velórios e funerais de pacientes confirmados ou suspeitos da COVID-19 NÃO são recomendados durante os períodos de isolamento social e quarentena". Mesmo assim, o documento traz uma série de orientações para quem decida por realizar a despedida, nos termos possíveis.

Entre eles, é orientado "manter a urna funerária fechada durante todo o velório e funeral, evitando qualquer contato (toque/beijo) com o corpo do falecido em qualquer momento post-mortem". A cerimônia também deve ocorrer em lugares ventilados e, de preferência, abertos com no máximo 10 pessoas, respeitando a distância mínima de, pelo menos, dois metros entre elas.

Ministério da Saúde não recomenda realização de velórios durante a epidemia da COVID-19 (Imagem: Reprodução/ Visual Science)

O protocolo ainda recomenda que seja evitada a permanência de pessoas que pertençam ao grupo de risco do novo coronavírus, como indivíduos com idade superior a 60 anos, portadores de doenças crônicas e imunodeprimidos. Além disso, a retirada do corpo deve ser feita por uma equipe de saúde, observando as medidas de precaução individual como o uso dos EPIs (Equipamentos de proteção individual, como máscaras e luvas).

No entanto, alguns casos de velório chamaram a atenção, por não respeitarem as medidas divulgadas pelo Ministério da Saúde, desde o início da epidemia do novo coronavírus. Um desses casos foi o de uma família da cidade de Cairu, na Bahia. No episódio, o caixão do familiar tinha sido lacrado na unidade hospitalar e, dessa maneira, deveria permanecer.

A família, entretanto, decidiu abrir o caixão durante o velório, mesmo com recomendações contrárias. Além disso, os presentes se aglomeraram na ocasião. Poucos dias após o ocorrido, cinco pessoas que estiveram no velório foram diagnosticadas com a infecção respiratória.

Por que o caixão é lacrado?

As vítimas do novo coronavírus podem abrigar o vírus dentro do seu organismo, mesmo após a morte, por isso muitas autoridades têm se questionado sobre a melhor forma de enterrar essas pessoas e os riscos envolvidos. "Os caixões são fechados, principalmente, para oferecer segurança aos funcionários e familiares, evitando e minimizando os riscos à saúde", explica Lina Paola, infectologista do hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo e formada na Pontifícia Universidade Bolivariana, na Colômbia.

"O pulmão expele todo ar que está contido, dentro do órgão, por até 72 horas, e os líquidos do corpo também são eliminados. Começam a sair os fluídos corporais e todos eles são, potencialmente, transmissores de doenças. Esse processo começa uma vez que o corpo morre", comenta a infectologista.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), "exceto nos casos de febre hemorrágica (como Ebola ou febre hemorrágica de Marburg) e cólera, os cadáveres geralmente não são infecciosos". Quando o foco é a COVID-19, o maior risco de contaminação acontece em situações de autópsia, por isso a atenção deve ser redobrada no manuseio do corpo, mas a doença ainda segue sendo melhor investigada.

"Como ainda não temos conhecimentos concretos da permanência do vírus no corpo humano, é melhor mantermos todas essas medidas até todos os estudos conclusivos serem feitos, com dados mais confiáveis. Isso é para a segurança da equipe de saúde, para a equipe que maneja o corpo e para os familiares. É uma situação triste, mas põe em risco muitas pessoas ao redor do corpo", completa a infectologista Lina Paola sobre a importância de não se interagir com quem morreu de COVID-19.

Mesmo lidando com o falecimento de um familiar por causa do coronavírus, os parentes que moravam na mesma casa devem ter cuidados e atenção redobrada para uma possível infecção depois do enterro, também. Isso porque o vírus pode permanecer vivo por alguns dias, em determinadas superfícies dentro da residênica.

Maneiras de se despedir

Sem um velório tradicional e sem o sepultamento, os familiares e amigos encontram grande dificuldade para a elaboração do luto. "O que me dá a certificação de que a pessoa morreu? É ver a pessoa dentro do caixão. A dificuldade de elaborar o luto vem do não poder ver esse corpo. Posso dizer isso a partir da experiência em Brumadinho [cidade de Minas Gerais onde o rompimento de uma barragem levou a inúmeras mortes], onde as vítimas tiveram, exatamente, essa a dificuldade. A dificuldade da elaboração do luto por não se ter os corpos ou apenas fragmentos", explica a psicóloga Lyani Vieira do Prado, especialista em luto e voluntária do Núcleo de Saúde Mental da Cruz Vermelha de São Paulo.

Tão importante, a elaboração do luto consiste em algumas etapas pelas quais os companheiros de uma pessoa que faleceu passam, sem necessariamente contar com uma ordem fixa para as fases. Entre os momentos dessa experiência estão: aceitar a nova realidade que foi imposta; experimentar os sentimentos, como a dor e a tristeza; se adaptar a esse mundo no qual a pessoa está ausente; reposicionar emocionalmente, dentro do seu eu, as memórias do falecido; e, então, conseguir olhar para um futuro.

Familiares de vítimas da COVID-19 também necessitam de apoio médico, inclusive o psicológico (Foto: Reprodução/ Pexels)

"Como tudo isso [orientações para que velórios não aconteçam], é uma proteção para a população, precisamos ajudar na elaboração do luto com algumas técnicas, remotamente. Sendo que nessa hora é sempre importante [as pessoas] serem acompanhadas por psicólogos, de preferência, especialistas em luto", orienta Prado. "Uma das técnicas que existem é fazer uma carta de despedida. Escrever nessa carta tudo aquilo que eu [o familiar] gostaria de ter dito para a pessoa, mas não disse", comenta sobre uma das muitas possibilidades para enfrentar esse momento.

Além disso, um bom conselho é se propor novos momentos. "A pessoa pode cuidar de um jardim, assistir a filmes ou ler um livro. Pode arrumar gavetas, dar uma outra ordem nas coisas da cozinha. Sugiro também pintura com lápis de cor e com livros para colorir, que a pessoa vá diversificando suas atividades. Ocupar o tempo, que hoje temos ocioso, é muito importante", afirma Prado.

"É bastante importante que essas pessoas, que, de uma forma geral, passam pelo luto, mantenham contato uma com as outras. Se não sabe falar pela internet, fale pelo telefone, mas mantenha esses vínculos. É importante que os familiares se mantenham próximos", completa a psicóloga sobre a importância do diálogo nos tempos da COVID-19 e também do suporte emocional.

Fonte: Com informações: Ministério da SaúdeFolha de S. Paulo e UOL

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