Pacientes com COVID-19 podem desenvolver ou piorar problemas cardíacos

Por Claudio Yuge | 13 de Abril de 2020 às 14h35
Newsweek

Que a COVID-19 afeta mais os idosos e pessoas com comorbidades, a exemplo de hipertensão, diabetes e cardiopatias, não é novidade (desde o surto inicial). Agora, contudo, um estudo realizado por pesquisadores chineses indica que quase 30% dos pacientes desenvolveram ou agravaram problemas cardíacos por causa da doença. E essa análise foi confirmada por uma especialista brasileira.

O levantamento foi realizado com 187 pacientes com COVID-19, dos quais 27,8% apresentaram lesão miocárdica, o que resultou em disfunção cardíaca e arritmias. Segundo o relatório publicado online na plataforma científica da revista Jama Cardiology, do total 144 (77%) das pessoas foram liberadas e 43 (23%) morreram.

Desse total de óbitos, 63% apresentaram hipertensão, doenças coronarianas, cardiomiopatia e lesão miocárdica. A conclusão é que problemas cardíacos existentes podem piorar e aqueles que estão com um quadro próximo a desenvolver algum podem ter esse processo acelerado pela COVID-19. Assim, os pesquisadores recomendam que esses pacientes precisam ser priorizados, com tratamentos mais intensivos.

Reprodução/Sky News

“Existe uma relação entre COVID-19 e coração por alguns motivos: está comprovado que 40% a 50% dos pacientes que têm a forma grave da doença e que vão necessitar de unidades de terapia intensiva, ou seja, estão em estado crítico, possuem algum grau de comprometimento cardíaco prévio, hipertensão, seja doença no músculo cardíaco, insuficiência cardíaca, doença da coronária, tipo infarto ou angina, ou seja, ter doença cardiovascular aumenta a gravidade da infecção pela COVID-19”, confirma a Dra. Ludhmila Hajjar, cardiologista e diretora de Ciência, Inovação e Tecnologia da Sociedade Brasileira de Cardiologia, intensivista pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira e emergencista pela Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica.

Ludhmila falou com exclusividade ao Canaltech. “Por que isso acontece? Provavelmente o cardiopata já tem uma reserva, uma defesa pior [do organismo], e frente ao insulto agudo da infecção, o seu organismo reage pior e ele tem maior chance de desenvolver um quadro grave e de mortalidade”, complementa.

Faltam estudos sobre o impacto da COVID-19 no coração

Ainda faltam mais pesquisas a respeito da relação entre o novo coronavírus e doenças cardíacas. “No Brasil nós não temos estudos". As conclusões de Ludhmila enviadas ao Canaltech fazem parte de um texto inédito lançado na semana passada. “O que temos até agora é um artigo que publicamos na Revista Brasileira de Cardiologia. Ele é apenas uma das possibilidades para que o clínico, o emergencista e o intensivista avaliem o coração desses doentes logo na admissão do hospital e ao longo da evolução”, comenta.

Não há uma outra pesquisa dedicada especificamente a esse assunto realizada em outro país. Contudo, alguns casos relatados por médicos em outras localidades apoiam esse levantamento. Na Itália, um médico encontrou problemas cardíacos graves associados ao coronavírus. Um “paciente então saudável, de 53 anos” desenvolveu miocardite, uma inflamação no coração, apenas uma semana após sentir febre e tosse seca devido à COVID-19.

Reprodução/Anaaya Foods

“O novo coronavírus pode induzir arritmia em 16% dos doentes, induzir insuficiência cardíaca e choque em 5% a 10% dos pacientes, isquemia miocárdica em 20% deles e infarto agudo do miocárdio em torno de 10% dos infectados, pois ele gera inflamação, trombose nos vasos e inflama tanto o músculo cardíaco quanto o pericárdio, quanto o sistema de condução e os vasos sanguíneos”, explica Ludhmila.

Em outro exemplo, de acordo com The New York Times, um paciente de 64 anos no Brooklyn foi levado às pressas para tratar uma artéria bloqueada. Mas, posteriormente, a equipe descobriu que não se tratava de um ataque cardíaco, e sim de uma consequência da ação do novo coronavírus (SARS-CoV-2).

Coração também merece atenção especial

Isso tudo leva a uma outra visão sobre a doença, pois, até agora, o grande foco tem sido os problemas respiratórios e a escassez de ventiladores médicos. "Estávamos pensando em pulmões, pulmões, pulmões. Então, de repente, começamos a ouvir sobre o possível impacto direto no coração", diz John Rumsfeld, diretor de ciência e qualidade do Colégio Americano de Cardiologia, nos Estados Unidos.

Esse assunto ainda está sendo melhor averiguado e vem intrigando a comunidade médica em todo o mundo, principalmente porque isso pode mudar o atual tratamento para a COVID-19. "É extremamente importante responder à pergunta: o coração dos pacientes está sendo afetado pelo vírus, podemos fazer algo a respeito?", questiona Ulrich Jorde, especialista em coração do Sistema de Saúde Montefiore na cidade de Nova York. "Isso pode salvar muitas vidas no final", complementa.

“É muito importante que a gente tenha em mente que o vírus causa problema cardíaco. Tem problema cardíaco? Marque a gravidade. A gente tem que cuidar das doenças e afecções cardiovasculares durante a internação e durante a evolução da doença”, recomenda a Dra. Ludhmila.

Com informações do Futurism.

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