Nova Guerra Fria | Russo quer modificar bebês geneticamente com aval de Putin

Por Fidel Forato | 09 de Outubro de 2019 às 19h15

Existe um consenso de que modificar geneticamente seres humanos não é uma boa ideia, pelo menos no presente, quando ainda faltam estudos sobre os riscos e os impactos dessas modificações em longo e médio prazo. Isso, ainda, para não citar todo o processo ético e jurídico envolvido nas pesquisas. Prova disso foi a indignação da comunidade científica e as sanções, inclusive, da China, que recaíram sobre o geneticista chinês He Jiankui, responsável pela edição genética de dois embriões humanos e que tomou conta do noticiário internacional. No entanto, um pesquisador russo anuncia o desejo de realizar novos experimentos, só que agora com aparente liberação do presidente Vladimir Putin.

Menos de um ano depois que os primeiros humanos geneticamente modificados nasceram, o cientista Denis Rebrikov fala abertamente sobre novas pesquisas, utilizando o sistema CRISPR. A ideia do russo é desativar o gene GJB2, que leva à surdez, uma condição que afeta cerca de 10 recém-nascidos por ano na Rússia. Inclusive, Rebrikov já está trabalhando com casais surdos e que não querem passar esses genes para seus filhos. 

Como ainda há pouco entendimento sobre quais poderiam ser os possíveis efeitos colaterais desse tipo de intervenção, a comunidade internacional pede controle da tecnologia. Diante das afirmações polêmicas, importantes geneticistas da Rússia convocaram uma reunião secreta com autoridades de saúde do Governo, em uma instalação no sul de Moscou. Entre os participantes da reunião, estava a filha mais velha de Vladimir Putin, Maria Vorontsova, segundo três presentes.

Retrato do cientista russo que quer modificar o código genético (Foto: Andrey Rudakov/Bloomberg)

Os apoiadores dos estudos de Rebrikov, presentes na sessão, mostraram-se otimistas com o encontro e entenderam a possibilidade Vorontsova defender a causa. Sem afirmar "sim" ou "não", a filha de Putin concordou que o progresso científico não pode ser interrompido e que a edição de DNA humano deve ser proibida no setor privado e confinada a instalações estatais para maximizar a supervisão.

Questão Putin

Enquanto os planos de Rebrikov continuam a pleno vapor, a resposta oficial do governo russo tem sido, no mínimo, morna. No ano passado, Putin destinou cerca de US$ 2 bilhões para pesquisas genéticas que, segundo o presidente, é um setor que "determinará o futuro do mundo inteiro". Além disso, já manifestou preocupações sobre soldados geneticamente modificados em possíveis conflitos armados.

Com a China regulamentando a edição de embriões humanos e os EUA estendendo sua proibição recentemente, a Rússia tem a chance de se tornar o principal motor dessa “indústria”, com a vantagem do pioneirismo. O cientista Rebrikov compara a busca pela edição perfeita de genes com a corrida espacial da Guerra Fria, só que com mais corredores disputando o pódio.

Putin imagina humanos geneticamente modificados em eventual guerra (Foto: Marvel/Divulgação)

No entanto, a edição genética precisa antes ser bem vista pela sociedade, antes que se torne uma realidade. Para isso, Rebriekov traçou um plano, em que primeiro deve mostrar, de maneira clara, que os benefícios superam em muito os riscos, como faz ao ajudar pais surdos. Além disso, precisa contar com a vontade política e a aceitação social, fatores direta e indiretamente dependentes de Putin.

"Essa situação é completamente análoga ao desenvolvimento de uma bomba atômica", disse Rebrikov. “As pessoas mal-intencionadas podem usar a tecnologia para fins negativos? Claro." E encerra com um questionamento: "Mas as preocupações éticas impediram a União Soviética de fazer isso?"

Fonte: SingularityHub; Bloomberg

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