Mistério da ciência: mulher se cura de AIDS espontaneamente

Por Fidel Forato | 08 de Setembro de 2020 às 13h39
Arek Socha/Pixabay

Um fato pouco comum para a área médica e as ciências é um paciente se curar, de forma independente, sem nenhum tipo de remédio ou tratamento. Mesmo que pareça ficção, uma mulher de 66 anos, que contraiu o vírus da imunodeficiência humana (HIV) — também conhecido como o vírus da AIDS — em 1992, pode ser a primeira pessoa a ser curada sem medicações experimentais ou um transplante de medula óssea na história, afirma grupo de pesquisadores norte-americanos.

Morado do estado da Califórnia, nos Estados Unidos, Loreen Willenber, já é um "objeto" de estudo há muitos anos por cientistas. Isso porque seu organismo sempre conseguiu enfrentar o HIV de uma forma bastante eficiente, o que faz dela uma "controladora de elite" desse vírus, ou seja: ele nunca chegou a se manifestar em seu organismo, sem o uso de nenhuma medicação. Independente dessa situação rara, o vírus permaneceu por quase 30 anos em seu corpo. 

Pela primiera vez na história, uma pessoa se curou de forma espotânea do HIV (Imagem: Gerd Altmann/Pixabay )

Para se dimensionar essa condição rara do corpo de Willenberg, entre as pessoas que convivem com o HIV, menos de 0,5% podem controlar a infecção, através do próprio sistema imunológico, sem o uso de antirretrovirais. Nesses casos, o vírus é suprimido pelas defesas da pessoa e é quase indetectável. Além disso, não é transmitido e nem pode ser replicado.

Até este ponto, a ciência tinha aprendido a conviver com essa característica peculiar dos "controladores de elite" do HIV. O que novamente surpreendeu é que a paciente, provavelmente, se auto-curou da infecção. Publicado na revista científica Nature, um estudo detalha que Willenberg pode ter erradicado completamente todos os vestígios do vírus da Aids em seu corpo.

Entenda a pesquisa sobre o HIV

Mesmo que seja uma descoberta incrível para o campo dos estudos do HIV, o caso da mulher que se curou de forma espontânea não era o foco do estudo. Inicialmente, os pesquisadores do Ragon Intitute, centro de pesquisa focado na infecção, investigavam como funcionava o sistema imunológico de 65 "controladores de elite" e, entre eles, estava Willenberg.

Durante os exames da paciente em questão, os pesquisadores estudaram cerca de 1,5 bilhão entre as suas células sanguíneas e de outras regiões, como intestino. Curiosamente, todas estavam livres do HIV. Claro que ainda é cedo para teorias e mais pesquisas precisam ser realizadas, mas o caso despertou a esperança de que o mesmo poderia acontecer com milhões de pessoas com HIV que estão tomando medicamentos antivirais para suprimir o vírus.

"Isso sugere que o próprio tratamento possa curar as pessoas, o que vai contra todos os dogmas", explica Steve Deeks, infectologista envolvido no projeto. Isso porque a principal tese, por enquanto, é de que o organismo dela combateu tão bem os vírus, não permitindo que se replicassem, que os eliminou de vez. Teoricamente, essa situação poderia ser reproduzida a partir do tratamento antirretroviral. 

Outros casos de cura do HIV

Na ainda breve trajetória de curas do HIV, outras duas estratégias — vale ressaltar, de quase impossível reprodução — foram aplicadas com sucesso para o mesmo fim. Também morador da Califórnia, Timothy Ray Brown, foi tratado na cidade alemã de Berlim e se tornou a primeira pessoa a ser considerada curada do HIV, em 2007. Para isso, o homem passou por um transplante de medula óssea, enquanto se tratava de um caso de leucemia, e como resultado do tratamento se viu livre do vírus. 

Mais de uma década depois, um outro paciente, Adam Castillejo, foi declarado curado do HIV, no ano de 2019, após um transplante de medula óssea para tratar de um linfoma, que é um outro tipo de câncer. Em ambos os casos, a curso de deu a partir de procedimentos arriscados e bastante invasivos para qualquer pessoa, ou seja, não poderiam ser replicados em massa. 

Agora, no início deste ano, um homem brasileiro se tornou a primeira pessoa a se curar do HIV, sem a necessidade de um transplante de medula óssea, mas a partir de uma série de remédios e até de uma vacina experimental. No país, foram os pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) que promoveram tal feito, em um estudo que levou anos.

Mudanças no tratamento do HIV?

Embora a mais recente notícia seja incrível para a ciência e indica possíveis caminhos para se solucionar os mistérios do corpo humano, o feito individual está longe de alterar ou promover mudanças no tratamento contra o HIV. O caso da mulher de 66 anos é mais como uma prova de conceito da cura do que qualquer outra coisa. O caso ainda precisará ser acompanhado por anos, porque eventualmente o HIV pode voltar a se manifestar no corpo da ex-paciente.

“O verdadeiro desafio, claro, é como você pode intervir para tornar isso relevante para os 37 milhões de pessoas que vivem com HIV” no mundo, explica o médico Sharon Lewin, diretor do Instituto Peter Doherty, sobre os próximos passos que os pesquisadores precisarão investigar, propor e, principalmente, testar antes da cura "popular" do HIV. 

Para acessar o estudo publicado na revista Nature, clique aqui.

Fonte: Nature via Insider    

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