Insônia | Entenda por que usar remédio para dormir é uma "faca de dois gumes"

Insônia | Entenda por que usar remédio para dormir é uma "faca de dois gumes"

Por Natalie Rosa | Editado por Luciana Zaramela | 20 de Maio de 2021 às 17h30
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Todo mundo, em algum momento da vida, já sofreu pela insônia, seja em momentos isolados, transitórios ou de forma crônica. De acordo com o estudo Acorda, Brasil, realizado no início de 2021, cerca de 65% dos brasileiros sofrem com algum distúrbio do sono, sendo um número ainda maior que a média mundial, que chega a 45%. A privação do sono pode ser muito perigosa para a saúde, e o alerta começa com sintomas como irritabilidade, falta de concentração, lentidão na hora de executar atividades, além de alterações no humor e impulsividade.

Para tentar se livrar desse mal, muitas pessoas acabam buscando ajuda em remédios para dormir, ou simplesmente para se sentir mais relaxado, incluindo as opções naturais existentes no mercado. A iniciativa, no entanto, pode chegar a um ponto de não ser mais tão benéfica, fazendo o paciente voltar à estaca zero da insônia e ter o sono desregulado novamente. Buscando entender o que acontece com o organismo na falta do sono e com a tentativa de ter noites melhores com a medicação, o Canaltech entrou em contato com profissionais da área para trazer informações mais precisas.

Imagem: Reprodução/wayhomestudio/Freepik

Quando é preciso fazer o uso de remédios para dormir?

O uso de medicamentos para dormir é recomendado a indivíduos que não conseguem pegar no sono, aqueles que acordam durante a noite diversas vezes e até mesmo para quem sofre de insônia terminal, quando se acorda antes do desejado e o paciente não consegue mais dormir. Eglae Souza, psiquiatra do Instituto de Psiquiatria Paulista, lista quais são as condições que podem fazer com que uma pessoa sofra de insônia.

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"Pacientes portadores de transtornos psiquiátricos, que podem ser quadros depressivos, com distúrbios do humor, psicóticos, pacientes com doenças metabólicas (diabetes, hipertensos, doenças da tireoide, distúrbios hormonais, mulheres no climatério e na menopausa), doenças neurológicas e doenças do sono (bruxismo, apneia, catalepsias), e outras doenças clínicas e cirúrgicas", pontua a especialista.

Fabio Porto, neurologista comportamental do Hospital das Clínicas de São Paulo, contou ao Canaltech que parte do diagnóstico é entender se a falta de sono se deve à insônia primária, sendo ela a doença, ou se existe uma outra condição provocando isso. Então, corrigindo o problema que está causando a insônia, não será preciso fazer o uso de remédios para dormir. "Na verdade, a recomendação de medicamentos é com base no diagnóstico da insônia, e não em quem [a tem]", diz o neurologista.

Conversamos ainda com Luiz Scocca, psiquiatra e membro da Associação Americana de Psiquiatria (APA), que também reforça que a insônia pode ser simplesmente um sintoma de outra condição de saúde. "Poderíamos pensar que a recomendação é para cada pessoa que tem insônia", diz o psiquiatra. "Mas não é tão simples assim. Não podemos esquecer um detalhe muito importante: a insônia pode ser apenas um sintoma de uma condição psiquiátrica ou de saúde. O hipertireoidismo, por exemplo, é muito acompanhado de insônia, então se trabalhássemos somente neste sintoma, o de não dormir ou dormir pouco, não basta apenas usar algum indutor de sono, pois não estaríamos tratando a pessoa corretamente", explica.

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Quais são os tipos de remédios para dormir?

Porto conta ainda que existem vários remédios para dormir, cada um com uma ação em diferentes receptores e com efeitos diferentes, não existindo um mecanismo único. Souza também reforça essa questão, contando que os remédios para insônia mais recomendados são as drogas Z, conhecidas também como "os benzodiazepínicos (zolpidem, zaleplona, zopiclona, eszopiclona e indiplona), que são moduladores do receptor GABA-A, antagonistas do receptor de orexina, antidepressivos tricíclicos e agonistas do receptor de melatonina".

Scocca complementa dizendo que também existem os medicamentos barbitúricos, que são usados raramente e atuam no sistema GABAérgico como se fossem um "freio" no cérebro. O especialista comenta também o tratamento com a famosa melatonina, hormônio natural que ajuda o paciente a sentir sono no momento em que ele realmente deve, ou seja, quando fica escuro. Inclusive, já é possível encontrar antidepressivos que atuam no organismo estimulando a produção de melatonina, como pontua o profissional.

O psiquiatra explica que a melatonina ainda não tem a venda liberada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) no Brasil, fazendo com que muitas pessoas importem o produto de fora do país. Além disso, com indicação médica, é possível fazer a compra dos comprimidos ou pílulas em farmácias de manipulação. Porém, apesar dos benefícios, não é recomendado o uso sem o aconselhamento médico.

Eglae Souza também fala sobre a melatonina, contando que esse hormônio, que é produzido pela glândula pineal durante à noite, tem a produção reduzida com o envelhecimento. "A melatonina pode ser um coadjuvante no tratamento da insônia leve, ligada a contextos. Mas não é tratamento para os distúrbios primários, nem secundários dos sono. Deve ser usada somente com prescrição médica, após avaliação clinica e com diagnóstico da causa da insônia estabelecido", diz a especialista.

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Medicação para dormir apenas com a recomendação profissional

Assim como todo tipo de medicação, remédios para dormir também podem trazer alguns problemas de saúde, assim como a tolerância, dependência e a abstinência. "Esses remédios devem provocar tolerância, então eles devem ser usados com cautela e parcimônia, com acompanhamento médico. Diversos deles podem provocar também a reação paradoxal, deixando a pessoa agitada, inquieta e confusa", explica Fabio Porto.

A longo prazo, estudos dizem que o uso prolongado de remédios para dormir pode aumentar as chances de o paciente desenvolver demência no futuro, já que esses medicamentos provocam efeitos negativos no cérebro, segundo o neurologista. Então, o ideal é também buscar formas de tratamento não-farmacológicos, pois não são apenas os medicamentos que podem ajudar na qualidade do sono e não são a única solução.

Souza diz também que aderir a esses tratamentos sem reconhecer o quadro clínico e psiquiátrico do paciente, ou os distúrbios do sono que ele sofre, pode levar a uma piora significativa do quadro, tornando a sua vida ainda mais difícil. A especialista listou alguns danos que o uso da medicação a longo prazo podem causar:

  • Desenvolvimento de tolerância, provocando a necessidade de aumento, a cada vez mais, de doses dos medicamentos para ter o mesmo efeito;
  • Desenvolvimento de dependência aos medicamentos, trazendo sintomas de abstinência, como depressão, fadiga, cefaleia, inquietação, irritabilidade, entre outros;
  • Risco de queda e acidentes, principalmente em idosos;
  • Déficit cognitivo, déficit de memória, alterações do comportamento e do pensamento, comprometimento da memória;
  • Menos reflexos, podendo provocar acidentes de trânsito, de trabalho, entre outros;
  • Piora do quadro de depressão;
  • Sonambulismo;
  • Com a interação com bebidas alcoólicas, pode levar à parada respiratória.

A médica diz ainda que o uso excessivo de remédios para dormir pode ainda provocar uma reação contrária ao seu efeito, o que é chamado de efeito paradoxal, podendo acontecer com pacientes propensos a isso. "Um exemplo é usar o diazepam para acalmar ou dormir, mas apresentar quadro de agitação intensa e insônia", explica.

Além do medicamento

O tratamento da insônia exige também uma mudança na qualidade de vida. A recomendação de Souza é trabalhar na "higiene do sono", desligando aparelhos eletrônicos cerca de 30 minutos antes de deitar, além de evitar ter luminosidade excessiva no local e deixar o celular no modo avião. A especialista também indica a prática de atividade física sem ser em horários noturnos, a adoção de uma alimentação mais saudável, meditação, acupuntura, entre outras opções de melhoria do bem-estar.

Luiz Scocca diz que o sono deveria ser o hábito mais valorizado, mas que nem todas pessoas se dedicam a essa melhoria. "Pessoas das mais diversas idades não adotam horários regulares de sono e isso faz toda a diferença. É preciso dormir no horário certo, não se pode brigar com o sono. O ato de dormir precisa ser algo em que você vai desligando aos poucos para que o sono venha. Este tempo precisa ser calculado, as atividades precisam ser mais tranquilas até o momento de dormir", conta. O psiquiatra pontua também que alguns alimentos ingeridos à noite podem prejudicar o processo, como cafeína, bebidas alcoólicas e açúcar, por exemplo, e que o uso da cama para algo além de dormir, como para se alimentar ou assistir televisão, pode fazer com que o cérebro crie uma aversão ao colchão no momento do sono.

Fabio Porto diz que até mesmo os remédios naturais podem trazer riscos, porque ainda assim eles acabam provocando um efeito químico. Então, independente do tipo de medicação, nunca se deve abrir mão do diagnóstico e entender o motivo da insônia.

Com informações de: O Estado de Minas, Mental Help

Fonte: BBC

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