Faísca de transformação: como a saúde pode se tornar mais sólida no Brasil?

Por Colaborador externo | 27 de Janeiro de 2020 às 19h40
ra2studio/Depositphotos

Por Fabiana Salles*

A saúde no Brasil é amplamente discutida sob diferentes aspectos, desde o modelo adotado no serviço público do País (que não é visto com facilidade no restante do mundo) até as longas filas de pacientes aguardando atendimento em hospitais, o que chega acontecer até nos particulares. No entanto, o que mais chama a atenção está em como as coisas são feitas da mesma maneira durante décadas e com pouca ou nenhuma melhoria, além da baixa perspectiva de existirem mudanças positivas em um futuro próximo.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima que o Brasil tenha em torno de 210,1 milhões de habitantes. Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), pouco mais de 47,1 milhões de brasileiros possuem acesso ao serviço particular de atendimento médico. Com isso, pode-se dizer que cerca de 163 milhões das pessoas no país dependem do Sistema Único de Saúde (SUS).

A Confederação Nacional de Saúde em parceria com a Federação Brasileira de Hospitais desenvolveu o Relatório da Situação dos Hospitais Privados no Brasil de 2019, que registrou a existência de 4.267 hospitais privados contendo 260.695 leitos contra 2.435 dos públicos com 149.530 leitos.

Ou seja, com uma conta básica conseguimos entender que, dos dependentes do serviço público de saúde, em torno de 1.090 pessoas disputariam lugar por apenas um leito nos hospitais do SUS, enquanto aqueles que têm o privilégio de ter cobertura do plano de saúde teriam a concorrência com apenas 180 beneficiários por leito em ambientes particulares. Esse é um cenário hipotético e que é quase nula a possibilidade de todas as pessoas ficarem doentes ao mesmo tempo no País a ponto de gerar essa situação extrema e esse estado de mais caos na espera por um local de internação.

O sistema de saúde pública do Brasil é visto como referência mundial em atendimento médico, hospitalar, campanhas de vacinação entre outras divisões do SUS, que são fornecidos à população sem cobranças dos pacientes, a não ser os impostos que todos já pagam. Entretanto, para quem vive aqui não é difícil pontuar ineficiências que geram um impacto alto nos dependentes desse serviço, sendo a demora (para consultas, exames, retornos, tratamentos e cirurgias) uma das principais dificuldades.

É inegável que estamos diante de um tema que historicamente é gerido com foco em um mesmo pilar: a infraestrutura. A construção de novos hospitais ou novas unidades básicas de saúde há tempos é citada no discurso dos políticos. E o fato é que na era da inteligência, da tecnologia e da disrupção, os negócios que têm a eficiência como core business, como as startups, começam a ser faísca de transformação para que todo o segmento possa se mudar assim como o mundo mudou.

A economia também mudou. Os maiores negócios hoje são aqueles que nada possuem, mas que ressignificaram como seus mercados funcionam. Haja visto Uber e Airbnb, por exemplo. Na saúde, é o mesmo! As pessoas precisam ser auxiliadas na prevenção para evitar doenças. Elas necessitam de cuidado, que definidamente não é propiciado pela caixa de concreto do hospital!

Por isso, o pilar deveria ser abastecido com eficiência e não só com infraestrutura. Um grande exemplo nessa área, que pode propiciar melhoria para a população sem depender de milhões investidos em construção civil, está na utilização das informações que o Governo já tem em mãos.

Na atualidade, grande parte dos ambientes médicos e hospitalares tem controle dos atendimentos e procedimentos realizados, pois os funcionários sejam atendentes, enfermeiros ou médicos, alimentam os softwares com esses registros que interligam os sistemas de toda a saúde pública do País. Todo esse volume de dados gerado poderia, há muito tempo, já ser utilizado para uma série de ações de prevenção para os beneficiários e modernização de todo o ecossistema que vemos hoje.

Mas, como esses dados podem ser utilizados como saída? As possibilidades de aplicação são diversas. Um exemplo é evitar o agravamento da saúde. Com o acesso ao histórico médico, é possível detectar padrões de que alguma doença está para surgir ou uma patologia já existente pode ter uma piora significativa demandando procedimentos mais complexos como cirurgias, internações, tratamentos intensivos e atendimento multiprofissional. Por exemplo, problemas ortopédicos são os mais comuns que poderiam ser estabilizados e resolvidos com alternativas como a fisioterapia e outras terapias, se diagnosticado corretamente e em tempo hábil, e evitando métodos invasivos como a operação.

Também através dos dados há a possibilidade de detectar tipos de enfermidades que manifestam determinada região do país ou estão em alta em certo período do ano. Por exemplo, se fosse identificado através dos atendimentos nos hospitais que problemas respiratórios estão em alta no Sul do Brasil, seria possível aplicar ações para controle do surto com mais eficiência. Assim, é possível controlar a sobrecarga de filas, evitar a piora de quadros clínicos por falta de assistência adequada, conter o avanço dos agravamentos para casos crônicos, minimizar o aumento de internações entre outras frentes que podem comprometer a qualidade de vida das pessoas e os gastos públicos ao mesmo tempo.

O uso dos dados para ações de conscientização, prevenção e cuidado da saúde, antes da doença, economiza recursos financeiros, organiza todo o sistema e, ao mesmo tempo, educa o cidadão a ter o autocuidado e utilizar o serviço com mais assertividade para evitar sobrecarga de atendimento. Parte disso já é feito na saúde privada, principalmente internamente nas empresas que oferecem o benefício de convênio médico aos seus funcionários e dependentes.

Vamos a um breve panorama: as companhias são responsáveis por cerca de 70% da massa de 47,1 milhões de pessoas atendidas pelos médicos e hospitais particulares; o plano de saúde consome cerca de 12% dos custos, ficando apenas atrás da folha de pagamento, e é uma despesa que nunca regride, pois os índices em que os preços são estabelecidos sobem com velocidade ano após ano com pedidos de reajustes que alcançam a marca de 100%, o que gera impacto imediato nas contas das empresas.

O que têm sido feito para tornar a questão da saúde mais sólida de dentro para fora, se dá através do acesso as contas médicas da população interna com a identificação dos grupos de risco, dos pacientes crônicos entre outras possibilidades. Além da estruturação de ações delineadas especificamente para cada conjunto de pessoas para promover bem-estar e não chegar a necessidade de gerir doenças.

Esse cuidado aproximado das pessoas, a programação de campanhas de promoção à saúde direcionadas a públicos específicos e a instrução sobre a melhor utilização do atendimento são ferramentas que podem controlar os custos com o plano e trazer reajustes baixos, inferiores a 10%, chegando até a eliminar essa adequação de contrato. Essa utilização controlada favorece a empresa, os colaboradores e seus dependentes, a corretora de seguros, os hospitais e a operadora, pois a engrenagem passa a rodar com mais eficiência.

A gestão de saúde, tanto privada quanto pública, precisa efetivamente gerir saúde e não mais a doença, como é feito até hoje. Gestão tem um significado de fazer melhor uso dos recursos para o sucesso esperado e não se debruçar apenas no leite que derramou do copo. Essa é a faísca que queremos despertar para acender a chama da transformação para solidificar essa questão no Brasil.

*Fabiana é CEO da GESTO, health tech que atua com corretagem de seguro saúde baseada em ciência de dados

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.