Especial Novembro Azul | Câncer de próstata também é assunto tech

Por Nathan Vieira | 17 de Novembro de 2019 às 16h54

De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA), no Brasil, o câncer de próstata é o segundo mais comum entre os homens (atrás apenas do câncer de pele não-melanoma). Em valores absolutos e considerando ambos os sexos, é o segundo tipo mais comum. A taxa de incidência é maior nos países desenvolvidos em comparação aos países em desenvolvimento. A estimativa de novos casos é de 68.220 incidências, segundo as estatísticas mais atuais do instituto, que são de 2018. Enquanto isso, o número de mortes chegou a 15.391, segundo dados de 2017. Assim como no caso do outubro rosa, que chama a atenção para a prevenção do câncer de mama, a sociedade se mobiliza em novembro para trazer informações em torno do câncer de próstata.

O Dr. Alex Meller, urologista da Unifesp e do Hospital Israelita Albert Einstein, explica que o câncer de próstata é uma doença essencialmente genética, com um fundamento hereditário bastante importante, que caracteriza um nódulo que aparece na glândula prostática, com uma função principalmente de reprodução. “Esse nódulo é assintomático. Ele se origina dentro da glândula, e por isso é difícil de detectar. Por isso nasce a necessidade do check up, porque nele a gente consegue detectar o nódulo enquanto ele ainda não é palpável, e enquanto ele ainda não apresenta sintomas”, afirma. Alex ainda ressalta que não há sintomatologia definida, e que o câncer de próstata, quando se torna sintomático, é porque já está avançado, tornando o caso mais complicado para tratamento.

E é justamente por causa dessa urgência que a iniciativa do novembro azul é tão importante. “A gente sabe que, no câncer de próstata, o tratamento mais curativo se dá quando é detectado no início. Então a divulgação do novembro azul serve para trazer o paciente para o consultório urológico e diagnosticar precocemente esse câncer”, completa o urologista. Alex também diz que a faixa etária que está mais sujeita a essa doença é dos 50 aos 75 anos, quando o homem não apresenta nenhum antecedente hereditário, e dos 45 aos 75 anos quando apresenta a hereditariedade, ou quando é negro.

O urologista conta que após os 75 anos não é mais necessário fazer o check-up, graças à evolução muito lenta da doença, que a essa altura não traz mais riscos de morte. “Então a gente para de fazer o check-up aos 75 anos — com algumas exceções, que seriam pacientes que têm histórico familiar de longevidade muito grande (se todos os familiares viveram até os 90 ou 100 anos). Para esse rol, ainda faz-se check-up por mais tempo”.

E a tecnologia tem ajudado a diminuir a agressividade dos tratamentos. “Com ela, a gente consegue fazer tratamentos minimamente invasivos, o que torna a recuperação do paciente mais rápida, e deixa menos sequelas, dá menos efeitos colaterais após a cirurgia. Vê-se também grandes inovações na parte de diagnóstico, por exemplo, novos exames aparecendo para a prevenção de câncer específico em determinadas regiões, assim como o avanço no diagnóstico de doenças sanguíneas”. Alguns aplicativos e inovações estão aí justamente para ajudar na informação a respeito do câncer de próstata (e de vários outros), na prevenção, no tratamento e até no pós-operatório.

Inteligência artificial

Aqui no Brasil, uma startup chamada PreviNEO resolveu utilizar a inteligência artificial para prevenir, diagnosticar e reduzir os riscos de incidência dos principais tipos de câncer que ocorrem no Brasil, através de um programa de oncologia. O método de atuação consiste em três etapas principais: análise de dados, cálculo de risco e orientações. Foram mais de 5 mil casos de pacientes em risco identificados pela startup. É por meio de uma anamnese que a IA atua com o paciente ao primeiro "contato" virtual: isso significa que, por meio de um questionário, o paciente informa a IA, que por sua vez faz o rastreamento para câncer de próstata, câncer de mama, câncer de pulmão, câncer de cólon e câncer de útero. A PreviNEO conta que das 11.933 pessoas atendidas pela plataforma que apresentaram risco de câncer, 6.901 são homens (57.8%), sendo que 3.184 têm menos de 35 anos; 3.371 têm entre 35 a 55 anos e 346 têm mais de 55 anos, e 1.106 apresentaram alto risco de desenvolver câncer de próstata.

Em paralelo a isso, a Boston Consulting Group (BCG) também aposta na inteligência artificial para lidar com o câncer. Acontece que a empresa promove anualmente um campeonato chamado BCG Gamma Challenge, em que os participantes devem usar análise avançada de dados para gerar insights e resolver um problema a partir de grandes volumes de informações. A última edição aconteceu no dia 9, sob o tema "Tratamento de câncer no sistema público de saúde", e o grupo vencedor levou R$ 8 mil em bolsas de estudo. A iniciativa é feita em parceria com a ABRALE – Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia e com o Observatório de Oncologia.

"Ter um grupo desse tamanho ajudando nossa causa, é muito relevante. Estou surpresa com a quantidade de jovens que se candidataram a participar do desafio, e a qualidade do trabalho, a maturidade das propostas que estão sendo apresentadas, apesar da pouca idade que eles têm e de não conhecerem o tema, já que ali eles tinham quinze dias para se debruçar nessas informações e trazer algum insight que, na prática, a gente pudesse usar e melhorar", conta Merula Steagall, a presidente da ABRALE.

Apesar de mencionar um cenário esperançoso de avanço para a medicina proporcionado pela inteligência artificial, Merula revela que a relação com a oncologia ainda precisa tomar maiores proporções. "O que a gente está percebendo é que está muito distante de acontecer na prática. A gente ainda depende muito do ser humano mesmo, porque tem muitas variáveis no estágio do câncer, na idade do paciente, nas opções de tratamento — se está acessível ou não naquele lugar. E como tudo na informática, depende de alguém imputar o conhecimento. O computador sozinho não tem esse conhecimento", afirma. "E os parceiros de conteúdo e conhecimento para a área da oncologia são os principais centros mundiais, que estão em Nova York e no Texas. Mas esses centros têm muitos recursos que a gente não tem no Brasil, como opções de tratamento. Então a gente ainda está muito defasado. Em termos de ajuda para o câncer de próstata ou outros tipos de câncer, a gente está muito longe da promessa feita", acrescenta.

Congelamento de sêmen

Outra ajuda que a tecnologia pode oferecer é o congelamento de sêmen. "Nesse cenário, a tecnologia avançou muito, hoje temos maneiras de fazer FIV (fertilização in vitro) com ótima seleção embrionária, análise genética do embrião e diversas técnicas que avançaram", explica o dr. Matheus Roque, especialista em reprodução humana da Mater Prime. Ele aponta que o congelamento de sêmen é indicado principalmente para homens que vão passar por procedimentos que podem prejudicar a fertilidade deles, e que tenham a pretensão de ter filhos no futuro ou ainda não sabem se vão ter filhos ou não. "Tratamentos oncológicos, homens que vão passar por quimioterapia, radioterapia, ou algum procedimento cirúrgico como cirurgia de testículo e câncer de próstata, são situações que podem levar ou à alteração na produção dos espermatozoides ou alguma obstrução na saída dos espermatozóides ejaculados, então esses homens antes de fazer esses procedimentos congelam o sêmen para que depois eles possam utilizar", Matheus afirma.

Ele ainda menciona que em outras situações, como vasectomia, por não quererem mais filhos, eles podem congelar o sêmen antes do procedimento, caso queiram mudar de ideia. O custo é por volta de R$ 1.000, depois há uma taxa anual ou mensal para manter o material congelado. "É importante destacar que sempre que falamos de infertilidade, o homem é tão responsável quanto a mulher. Então a responsabilidade de um casal que está tentando engravidar e não consegue não pode recair sobre a mulher", explica. "Nos casais em que se descobre alguma causa de infertilidade, o fator masculino está em 50% dos casos", aponta.

Aplicativo ajuda no pós-operatório

O aplicativo iPelvis — desenvolvido por Maura Seleme, PhD em fisioterapia pélvica — tem como premissa ajudar os pacientes que estão com incontinência urinária, incontinência fecal, prolapso ou disfunção sexual, com direito a vídeos e exercícios, informações e espaço para interação entre o paciente e a equipe multidisciplinar que atende esses casos.

A dra. Maura explica que, em média, 30% dos pacientes que passam pelo procedimento cirúrgico de retirada da próstata podem apresentar uma perda de urina bem importante. "Isso acontece porque, normalmente, a musculatura do assoalho pélvico fica fragilizada depois da realização da cirurgia, o que pode causar incontinência urinária. O iPelvis é um aplicativo que propõe exercícios de reforço do assoalho pélvico, estimulando a contração e coordenação dessa musculatura. Esses exercícios, que podem ser feitos em casa, ajudam o paciente a se recuperar rapidamente e voltar a viver a vida normalmente", explica.

Segundo a responsável pelo app, é por meio do iPelvis que o paciente vai aprender, junto com o fisioterapeuta, como contrair corretamente os músculos do assoalho pélvico. "Esse despertar da consciência corporal ajuda muito os homens a se preparem para a cirurgia e, depois, para se reabilitarem no menor tempo possível para voltarem a viver plenamente”, ressalta. Ao acessar o aplicativo, o paciente encontra várias rotas de tratamento, que devem ser escolhidas depois do diagnóstico clínico realizado por um médico especializado. O App está disponível para download para os sistemas operacionais em iOS e Android a um valor de R$ 29,90 por ano.

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