Cientistas conseguem 'reviver' cérebros de porcos 10 horas após a morte

Por Felipe Ribeiro | 22 de Abril de 2019 às 21h00
Divulgação

Pesquisadores da Universidade de Yale, por meio de um artigo na revista Nature, descreveram como eles conseguiram reviver parcialmente os cérebros de porcos desincorporados várias horas após a morte. Essa descoberta chocou alguns especialistas, já que os órgãos de qualquer mamífero, após 15 minutos sem oxigênio, perdem as funções e morrem.

Primeiro, os pesquisadores levaram 32 cérebros de porcos abatidos para alimentação e esperaram quatro horas. Depois, ligaram-nos por seis horas a um sistema chamado BrainEx, que bombeava esses cérebros com oxigênio, nutrientes e produtos químicos protetores.

No final das 10 horas, os cientistas descobriram que o tecido do cérebro dos porcos estava praticamente intacto, com as células cerebrais individuais em funcionamento, executando suas tarefas básicas de absorver oxigênio e produzir dióxido de carbono. Os neurônios nesses cérebros não estavam se comunicando, então não havia consciência, mas as células estavam vivas.

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Os cientistas esperam que essa descoberta com os porcos também seja útil para a pesquisa em neurociência, permitindo o teste de outras drogas e doenças, além de aumentar a possibilidade de ajudar pessoas a reviver cérebros prejudicados por derrame ou outras lesões.

Como funciona o sistema BrainEx?

O sistema BrainEx vem da iniciativa BRAIN do National Institutes of Health (também conhecida como Brain Research através do avanço das Neurotechnologies Inovadoras). Este foi o projeto “moonshot” do presidente Barack Obama para mapear o cérebro humano e criar novas ferramentas para estudá-lo. Para Andrea Beckel-Mitchener, chefe da equipe da Iniciativa BRAIN no NIH, o BrainEx “é realmente uma ferramenta para estudar a biologia básica”, para estudar a estrutura tridimensional de um cérebro vivo fora dos limites do corpo.

Quatro horas depois de os porcos terem sido abatidos numa fábrica de processamento de carne, os cientistas ligaram os cérebros ao BrainEx para tentar restaurar e preservar a função celular das massas após a morte. Como os pesquisadores ressaltaram muitas vezes, o BrainEx não tem a capacidade de “reanimar” um cérebro inteiro, mas sim de recuperar algumas funções.

Funcionamento do BrainEx

O dispositivo, na prática, parece com um coração artificial. Bombeia um perfusato — um sangue sintético que fornece oxigênio e nutrientes — por todo o cérebro, através das próprias artérias do porco. Este "sangue" também contém substâncias químicas que impedem a oxidação (ou seja, a quebra) do tecido corporal e a apoptose (células que se rompem após a morte). Ele também contém um bloqueador de atividade neural, cujo propósito é duplo.

Um deles era interromper a excitotoxicidade — um processo pelo qual os neurônios ficam danificados quando são deixados ligados, criando um desequilíbrio químico, levando também à morte celular. O outro era garantir que o cérebro não "acordasse" e recuperasse qualquer nível de consciência. Se alguma consciência fosse detectada, os pesquisadores disseram que eles teriam encerrado o experimento imediatamente — eles estavam até preparados com anestesia para administrar ao cérebro, caso fosse detectada qualquer atividade neural disseminada.

Depois de seis horas no BrainEx — 10 horas após o abate — os pesquisadores não viram sinais de consciência nos cérebros, mas eles viram sinais de vida. Quando ligado ao sistema BrainEx, "vemos os cérebros extraírem oxigênio... eles usam glicose e produzem CO2", disse Zvonimir Vrselja, pesquisador de Yale e um dos coautores do estudo.

As questões éticas desses experimentos também estão sendo debatidas, mas, segundo os pesquisadores e especialistas da própria Universidade de Yale, as substâncias utilizadas durante os procedimentos garantiram que esses cérebros não tivessem qualquer reação nervosa, além do fato de esses órgãos serem oriundos de um comércio de carne, sem fins experimentais.

Fonte: Vox

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