Cérebro humano pode funcionar, da mesma maneira, sem uma metade; mas como?

Por Fidel Forato | 21 de Novembro de 2019 às 18h50

O cérebro humano e o seu funcionamento ainda são uma grande incógnita para a ciência. E uma das causas desses mistério é a plasticidade cerebral — sua capacidade de se reestruturar e se adaptar caso alguma de suas partes sejam danificadas ou removidas. Nessas circunstâncias, ele é capaz de formar novos neurônios que completam seus vazios.

Em novo estudo, publicado na revista Cell Reports, pesquisadores da Califórnia demonstraram que a plasticidade cerebral é muito mais poderosa do que se imaginava. Dentro de casos específicos, adultos que tiveram metade do cérebro retirado quando crianças, em um procedimento conhecido como hemisferectomia, levam uma vida normal.

A técnica foi usada pela primeira vez na década de 1920, para o tratamento de tumores cerebrais malignos. Mas seu sucesso em crianças com malformações cerebrais, convulsões intratáveis ​​ou doenças, em que os danos estão confinados a metade do cérebro, surpreendeu os cientistas.

Após o procedimento, muitas crianças ainda conseguem andar, conversar, ler e realizar tarefas diárias. Além disso, aproximadamente 20% dos pacientes que realizaram a retirada de metade do órgão encontram emprego remunerado, quando adultos. Esses indivíduos podem, inclusive, ter conexões neurais mais fortes do que aqueles que nunca tiveram alterações bruscas no cérebro.

O desafio dos cientistas, agora, é descobrir como isso aconteceu, o que pode desencadear novos tratamentos para derrames ou outras formas de dano cerebral. No estudo americano, foi examinada a função neural e a conectividade de seis pessoas, entre 20 e 30 anos, que passaram pela hemisferectomia entre os três meses e os 11 anos.

Desde quando começaram a pesquisa, os médicos sabiam que os pacientes com hemisferectomia levavam uma vida normal após o procedimento, mas até então só tinham sido realizados estudos de casos fragmentados, que não revelavam até que ponto o cérebro foi capaz de se recuperar.

Diante dos resultados obtidos, a equipe do Instituto de Tecnologia da Califórnia afirmou estar surpresa com o quão bem os cérebros cortados ao meio se adaptaram e se reorganizaram ao longo do tempo.

"O cérebro é extraordinariamente plástico", disse Dorit Kliemann, neurocientista cognitivo do Instituto de Tecnologia da Califórnia e o primeiro autor do estudo. "Ele pode compensar uma perda substancial da estrutura cerebral (desde que em crianças) e, em alguns casos, as redes restantes podem suportar cognição quase típica", completa.

"As pessoas com hemisferectomias que estudamos tinham um funcionamento notavelmente alto", disse a pesquisadora Dorit Kliemann. “Elas têm habilidades de linguagem intactas. Quando as coloquei no scanner, conversamos um pouco, assim como as centenas de outras pessoas que digitalizei.”

Ressonância magnética do cérebro após a cirurgia e, ao lado, na idade adulta (Fonte: Cell Reports)

Por que isso é surpreendente?

"Sempre que examinávamos suas varreduras cerebrais, dizíamos: 'Uau, esse cérebro realmente não deveria funcionar'", explica Ralph Adolphs, neurocientista do Instituto de Tecnologia da Califórnia. “Se você pegar qualquer sistema que apresente várias partes, onde determinadas funções dependam das outras, como o coração, e você o dividir ao meio, isso não funcionará. Se você pega meu laptop e corta ao meio, não vai funcionar”, exemplifica.

A maioria das redes cerebrais usa os dois hemisférios para funcionar. É o caso do reconhecimento facial que envolve os dois lados do córtex. Outro exemplo é a capacidade de mover os membros, que são processadas por lados opostos do cérebro. O hemisfério direito controla o movimento do lado esquerdo do corpo e vice-versa.

"É como se você precisasse que todos os diferentes membros de uma banda tocassem juntos para obter uma música sincronizada e coerente", explica, de maneira mais didática, Marlene Behrmann, neurocientista cognitiva que não participou do estudo.

Surpreendentemente, o que os pesquisadores descobriram é que, embora o tipo de conexão permanecesse o mesmo nos indivíduos com apenas um hemisfério, diferentes regiões responsáveis ​​pelo processamento de informações sensoriais e motoras, como visão, atenção e sugestões sociais fortaleciam as conexões existentes. Elas se comunicavam mais frequentemente entre si do que em cérebros comuns.

De certa forma, era quase como se partes do cérebro que normalmente fossem especializadas, em determinada função, como tocar um instrumento, estivessem conversando com outros parceiros e começassem a tocar também outros instrumentos, explica Marlene Behrmann. Dessa maneira, "suas redes cerebrais parecem ser multitarefa", conclui.

Os resultados são encorajadores para pesquisadores que tentam entender como o cérebro se adapta e funciona após uma hemisferectomia, mas esses conhecimentos podem levar a novas descobertas no campo da ciência. Afinal, essa pesquisa começa a construir uma nova verdade para o cérebro humano: de que sua plasticidade é um fenômeno mais duradouro.

Fonte: FuturismThe New York Times

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