Por quê as redes sociais de música nunca dão certo?

Por Raphael Andrade | 20 de Julho de 2016 às 13h55

Com a popularização das redes sociais nos últimos anos, é possível perder as contas de quantas "plataformas revolucionárias" já foram criadas com algum determinado objetivo, mas que falharam em cumprir com o seu propósito. Não importa a escala do projeto, ou o esforço colocado na empreitada, só ter boas intenções e estar de olho em um nicho promissor não é o suficiente.

Falando diretamente sobre esses pontos levantados, podemos destacar as redes sociais voltadas à música. Desde o início dessa onda com o MySpace, um usuário de internet que passa bastante tempo online provavelmente já se juntou à algumas redes sociais de música com intuito de partilhar seus interesses. O problema é que depois de um tempo todos abandonam suas contas, não importa o quanto inovadora a plataforma diz ser. Por quê isso acontece? E esse fenômeno é exclusivo das plataformas musicais? Para responder essas perguntas, é preciso entender que o buraco é mais embaixo.

Um estudo de caso: Crowdmix

Para entender melhor os problemas que cercam as redes sociais de música é válido analisar a mais nova delas, intitulada Crowdmix.

Crowdmix

Há três anos atrás, a plataforma Crowdmix apareceu como uma alternativa interessante para as redes sociais já velhas conhecidas do público, como Facebook e Twitter. Com foco em música, a ideia é reunir uma série de comunidades voltadas a diferentes gêneros musicais, reunindo assim pessoas que tem gostos parecidos em um mesmo lugar. No Crowdmix, os usuários também podem conferir ranking das músicas populares, discussões e compartilhar canções. Além disso, o aplicativo do serviço também se conecta a outros apps como Spotify, YouTube e iTunes.

Um dos primeiros problemas enfrentados pelo serviço é que, no seu lançamento, ele não permitia inscrição. Para utilizá-lo, era necessário receber um convite para acessar a plataforma. Três anos depois, o Crowdmix continua da mesma forma.

Outro ponto é que desde sua criação o Crowdmix já enfrentou diversos problemas: demissões de funcionários, problemas com pagamento de salários e saída do CEO da empresa. Com lançamento previsto para maio, a rede social ainda não saiu realmente do papel. Ao acessar o site oficial, o usuário se depara apenas com um campo para inserir um e-mail, mas sem nenhuma outra informação.

Para sites especializados em tecnologia - e que conseguiram colocar as mãos em uma versão demo da plataforma - o Crowdmix se mostrou uma plataforma com design competente e que conseguiu se sair bem até onde se propôs. Porém, a única coisa que é consenso nas resenhas é que essas características não são o bastante para salvar a rede social.

Problemas que persistem

Como dito no começo do texto, não importa se a rede social de música é baseada em uma boa ideia ou em um gênero musical promissor, em 99% dos casos, o problema que afeta as plataformas musicais tem a ver com escala.

O MySpace, primeira rede social de música da internet, enfrentou seus perrengues, mas ela também foi a primeira rede bem-sucedida. Parte do sucesso do MySpace se deveu ao fato de que, na época, a plataforma era o único local na internet (deixando o YouTube de lado) em que os usuários podiam fazer o streaming de canções sem pagar nada. Junto à isso, o espaço que a plataforma oferecia a gêneros musicais novos e bandas amadoras também era muito atraente. É claro que nem tudo são rosas: nos relançamentos subsequentes da rede ela sofreu para se adaptar e não deu certo.

MYSPACE

Um dos motivos que levou o MySpace a sofrer rejeição tempos depois de ter sido tão popular foram os problemas enfrentados por toda rede social: escala (e, de certo modo, propósito). Como todo mundo, para entrar em uma nova rede social, você recebe um convite, faz uma conta, dá uma olhada no que é oferecido e, se não tem ninguém que você conhece, você sai da rede para nunca mais voltar. Esse ciclo com final trágico é o procedimento padrão de muitos usuários, e bem difícil de ser revertido.

Cada rede social existente atende a um propósito, e o usuário continua utilizando a plataforma muito por causa dos amigos e conhecidos que também estão nela. Se os seus amigos, ou aquela celebridade que você gosta utilizada o Instagram, você também estará lá engajando com todos. Agora, se você adentra um espaço em que você não se identifica, é provável que você não permaneça nele.

Caso o Crowdmix realmente consiga ser lançado, a rede enfrentará essas mesmas questões. As pessoas já utilizam Facebook, Snapchat, Twitter entre outros para compartilhar seus interesses. A Britney Spears lançou uma nova canção? Diversos tweets sobre ela serão postados no Twitter. O Metallica trouxe sua nova turnê ao país? Você, com certeza, lerá no Facebook o relato de um fã que foi ao show.

Uma nova plataforma requer tempo e esforço do usuário, e num mundo em que um usuário padrão de internet já possui conta em outras cinco redes, é improvável que ele irá criar mais uma conta em uma rede que não o traga benefícios (ainda que seja apenas sociais) bem definidos.

A escala de uma plataforma também é importante. Para se tornar bem-sucedida uma rede social precisa se tornar uma grande sensação, mas no caso do Crowdmix, por exemplo, uma escala grande afeta de maneira negativa o propósito da rede. Como divulgado em sites e fóruns, o Crowdmix planeja conectar diretamente artistas com seus fãs, para fazer amigos, conversar, marcar concertos, entre outros. Porém, quanto maior o artista é, é menos provável que os fãs desse artista tenham algo em comum.

Se você curte uma banda grunge alternativa, é quase certo de que você tenha muitas coisas em comum com outros fãs desse mesmo grupo. Assim, pode ser uma boa ideia para essa banda participar do Crowdmix. Infelizmente para o serviço, reunir um monte de bandas indie não é suficiente para atrair investimentos milionários. Uma maneira de reverter isso é contar com comunidades de artistas grandes, como Ariana Grande, por exemplo.

Mas mesmo com uma comunidade voltada à Ariana Grande (e que tenha muitos membros) é difícil considerar que a maioria desses fãs tenham muita coisa em comum entre si.

O caso de Lady Gaga e sua rede social

backplane

Quando apareceu com seu visual diferente, excentricidades e música chiclete, Lady Gaga chamou muita atenção mesmo para quem nem gosta de música pop. Reunindo sucesso atrás de sucesso, a cantora também se aventurou por outras áreas que não a música, e uma desses projetos paralelos resultou na Backplane, uma startup feita especialmente para criar redes sociais de diversos tipos. Um dos produtos mais famosos criados pela Backplane foi Little Monsters, única plataforma criada pela empresa. Como o nome sugere, a rede foi feita para reunir fãs de Lady Gaga em um espaço todo customizado em cima da personalidade da cantora.

Como era de se prever, a rede social não deu muito certo pelos mesmo motivos citados anteriormente, falta de motivação e escala. A Backplane, startup responsável pela Little Monsters, também não teve final feliz: depois de cinco anos na ativa, a companhia declarou falência e teve que vender todos os seus bens.

Em time que está ganhando não se mexe

Enquanto grandes artistas não precisam de novas redes sociais para ampliar seu sucesso, grupos e cantores indie também não têm muitos motivos para apostar em novas redes. Muitas comunidades musicais de nicho ainda encontram em plataformas como o Meetup um local interessante para compartilhar suas obras. Fóruns de música também permanecem como bons locais para discussões.

Em resumo: redes sociais existem para atender a um propósito. Por outro lado, plataformas de música parecem existir procurando um problema para resolver.