Publicidade

Polícia investiga influencer por criar deepfakes de evangélicas com IA

Por  | 

Compartilhe:
Reprodução/Redes sociais
Reprodução/Redes sociais

A Polícia Civil de São Paulo investiga o influenciador digital Jefferson de Souza, 37 anos, acusado de usar inteligência artificial (IA) para manipular fotos de jovens fiéis da Congregação Cristã do Brasil (CCB) e inseri-las, sem autorização, em vídeos com conteúdo sexualizado. Entre as vítimas identificadas até agora há pelo menos uma adolescente de 16 anos.

O inquérito foi aberto em fevereiro após a estudante e seus pais procurarem a 8ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), em São Mateus, na Zona Leste da capital paulista.

Jefferson é suspeito de simular cenas de sexo ou pornografia com menor de 18 anos por meio digital, crime previsto no artigo 241-C do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), com pena de um a três anos de reclusão, além de multa. A investigação foi posteriormente ampliada para incluir suspeita de difamação envolvendo outras jovens adultas.

A pedido do Ministério Público, o caso saiu da 1ª Vara de Crimes Praticados contra Crianças e Adolescentes de São Paulo e foi encaminhado à 2ª Vara da Comarca de Lençóis Paulista, no interior do estado, onde Jefferson mora e trabalha como borracheiro em uma oficina mecânica.

Canaltech
O Canaltech está no WhatsApp!Entre no canal e acompanhe notícias e dicas de tecnologia
Continua após a publicidade

Como os vídeos eram produzidos

A dinâmica da manipulação foi confirmada pelo próprio influenciador em depoimento à polícia e em vídeos publicados por ele nas redes sociais. Jefferson retirava fotos de jovens evangélicas de perfis públicos, em geral imagens tiradas dentro das igrejas da CCB. Em seguida, usava ferramentas de IA do TikTok para animar as imagens, transformando-as em vídeos nos quais as fiéis aparecem dançando de forma sensual ao lado de outras mulheres com roupas curtas, situação que nunca ocorreu.

Em alguns vídeos, ele também inseria imagens do apresentador Silvio Santos, cujo estilo imita nas redes sociais.

A técnica utilizada é conhecida como deepfake, método que usa IA para criar ou alterar imagens, vídeos e áudios de forma realista, simulando situações que nunca aconteceram.

Em um dos vídeos, Jefferson explicou o processo: "Pego a foto, as irmãs postando foto de costas, e jogo na IA. A IA faz dançar”. Em outra gravação, admitiu ter inserido mulheres com pouca roupa nos conteúdos: "Tem algumas que eu coloquei lá, mas é uma forma de chamar atenção para ganhar seguidores”.

O que diz a defesa

Em nota divulgada pelo advogado Aguinaldo Aparecido Ereno, a defesa afirma que Jefferson colaborou com as investigações desde o início, prestou depoimento voluntariamente e permitiu a perícia em seus dispositivos eletrônicos. O texto sustenta que as publicações tinham "intuito estrito de sátira e crítica de costumes" e nega a intenção de promover "exploração sexual, pornografia ou qualquer ato que atentasse contra a dignidade sexual das pessoas mencionadas."

Continua após a publicidade

Quanto às vítimas menores de idade, a defesa alega que Jefferson "não possuía conhecimento sobre a idade das pessoas retratadas nas imagens públicas utilizadas". Em depoimento à polícia, ele afirmou que, "em razão do porte físico", acreditou tratar-se de adultas. A defesa reforçou ainda o princípio da presunção de inocência.

Após prestar depoimento, Jefferson publicou um vídeo nas redes pedindo desculpas à CCB e aos que se sentiram ofendidos. Em nenhum momento do vídeo ele mencionou especificamente os deepfakes produzidos com as imagens das mulheres e adolescentes.

Jefferson mantém o canal "Humor do Crente" no YouTube, com mais de 11 mil inscritos, e perfis no Instagram, Facebook e TikTok, onde se identifica como "Silvio Souza" em alusão ao apresentador Silvio Santos, reunindo cerca de 37 mil seguidores nessas plataformas.

Plataformas e CCB se posicionam

Continua após a publicidade

A Congregação Cristã do Brasil informou em nota que não mantém registro formal de membros e que apoia "as medidas legais cabíveis por parte das autoridades" em relação ao caso. O TikTok afirmou adotar tolerância zero a conteúdos de exploração sexual infantil e informou remover publicações desse tipo. O YouTube disse que retirou vídeos que violavam suas diretrizes. A Meta, responsável por Instagram e Facebook, não se pronunciou.

Algumas das publicações feitas por Jefferson foram retiradas das plataformas recentemente, seja pelo próprio influenciador ou pelas empresas de tecnologia.

A delegada Juliana Raite Menezes, responsável pelo caso na 8ª DDM, pediu que outras possíveis vítimas procurem a delegacia.