“O Facebook nos viciou como o cigarro”, diz um dos pioneiros da internet

Por Carlos Dias Ferreira | 20 de Setembro de 2018 às 17h00
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Um dos pioneiros responsáveis por dar à internet a forma que ela tem hoje, o analista Jaron Lanier se dedica atualmente a mostrar os malefícios oriundos do próprio ideal democrático entranhado nos genes da grande rede. Em seu livro Ten Arguments for Deleting Your Social Media Accounts Right Now (Dez Argumentos para Excluir suas Contas em Redes Sociais Agora Mesmo, sem tradução para o português), Lanier aponta como as plataformas sociais online se valeram de métodos utilizados pela indústria do tabaco e do álcool para nos deixar viciados.

Em entrevista ao site do El País, o analista explicou que essa prática é, como se diz, “mais velha do que andar para trás”, e também apontou o que acredita ser o problema fundamental para a atual estrutura das redes sociais. “Ainda acredito de verdade na Internet, mas algumas poucas companhias monopolistas tomaram o controle da Internet e a arruinaram”, disse ao referido veículo.

Ele continua: “Ao que me oponho é esse controle por parte de monopólios gigantes, em que qualquer conexão entre pessoas só pode ser financiada se houver uma terceira pessoa que quer manipular essas duas pessoas – a internet, em si, continua sendo genial”.

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Quanto ao Facebook? Algo plenamente descartável. Não acho que o Facebook agregue qualquer utilidade”, afirma Lanier. “A razão de tanta gente usá-lo não é que agregue qualquer utilidade, o que ele agrega são técnicas de vício; essa diferença é extremamente importante.” A solução deveria passar pela conscientização de que, em algum ponto, algo saiu do controle. Mas, para tanto, é preciso entender por que um usuário típico de internet não consegue permanecer mais do que alguns minutos sem conferir algum tipo de feed.

Comportamentalismo na era digital

De acordo com Lanier, o maior problema da estruturação atual das redes sociais advém da forma utilizada para capitalizar. Ao derrubarmos o que o pensador chamou de “instituições intermediárias”, abriu-se espaço para a formação de monopólios cujo modus operandi é fortemente calcado em princípios de condicionamento psicológico. A ideia, em suma, é nos viciar enquanto acreditamos em uma propagandeada liberdade de comunicação sem mediadores.

No caso, o que Facebook, Instagram e afins fazem é utilizar os preceitos do chamado “behaviorismo” nos tornar a todos viciados em suas plataformas. “Essa ciência se baseia na ideia de que você pode alterar de forma confiável o padrão de comportamento de uma criatura, pessoa ou animal, através de um ciclo de feedback, e que pode medir o que a criatura faz”, explicou o analista ao El País.

A teoria comportamentalista encontrou no feedback constante das redes sociais um aliado perfeito para a previsão de comportamentos e o consequênte controle por meio da disposição de material direcionado.

Ao medir a reação da “criatura”, os serviços online são capazes de estabelecer correlações entre tipos de conteúdos consumidos e alterações comportamentais – formando as propagandas direcionadas e relativamente mais efetivas que se tem hoje, a serviço dos verdadeiros clientes das plataformas. “O que é diferente de formas anteriores de meios de comunicação e de publicidade é que você pode medir constantemente tudo, desde sua expressão facial, com quem você conversa, o que diz e, obviamente, o que você procura.”

Um retorno aos conteúdos pagos

Com o advento da internet, o ato de socializar se tornou consideravelmente mais fácil, descortinando o que parecia ser uma utopia: agora toda a informação pode ser compartilhada sem passar pelo crivo de grandes corporações e empresas de mídia. Para Lanier, entretanto, algo se perdeu durante esse festim de boa vizinhança digital.

“Concretamente, o que se quebrou foram as organizações intermediárias, como os jornais”, aponta o pensador. “Elas foram fragilizadas, (...) e essas organizações forneciam um recurso que era absolutamente necessário.” Ao deixar tudo “muito aberto”, como diz o analista, o que se criou foram “hipermonopólios” que se tornaram controladores e autoritários.

Dessa forma, o retorno das instituições intermediárias poderia ocorrer apenas por meio de uma revisão nos formatos atuais de comércio e publicidade. A exemplo de serviços como o Netflix, Lanier defende um modelo em que o usuário seria o cliente pagante por conteúdos diversos – e não as empresas atrás de publicidade direcionada.

Mas isso apenas poderia ocorrer após se vencer a ideia de que as redes sociais, em seu formato atual, seriam inevitáveis. “Acho que, da mesma maneira, hoje acreditamos que o Facebook é o único possível, porque muita gente cresceu com ele”, diz o analista, admitindo que não há como saber o que seria desse novo modelo de internet. “É preciso inventar - mas assumir que não se pode fazer é ridículo”, conclui.

Fonte: El País

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