O legado de Stan Lee, o Shakespeare do século XX

Por Rafael Rodrigues da Silva | 13 de Novembro de 2018 às 16h46
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“No início, criou-se as histórias em quadrinhos de super-heróis. E as histórias eram sem forma e vazias; e havia trevas sobre o futuro da mídia; e o espírito da criação se moveu sobre o branco das páginas. E disse Lee: “Excelsior!”; e fez-se um novo tipo de herói. E viu Lee que esse herói era bom, e fez então a separação entre ele e os outros já existentes. E Lee chamou ao novo herói Marvel.”

Ao longo da história, poucos criadores podem falar com convicção que exerceram uma influência tão grande em suas áreas que não só mudariam todo o entendimento posterior a eles como modificariam também o significado de todo o trabalho anterior à sua revolução. São poucos, bem poucos, nomes.

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...Stan Lee.

Se o século XX foi o século das histórias em quadrinhos, Stan Lee foi o gênio que tornou isso possível. Um autor que conseguiu transformar uma mídia praticamente falida no maior poderio do entretenimento mundial.

Com grandes poderes…

Nascido em 1922, Stanley Martin Lieber (que décadas mais tarde mudaria seu nome oficialmente para Stan Lee) praticamente nasceu dentro da indústria dos quadrinhos. Ávido consumidor das revistas durante a infância, Lee utilizou suas conexões familiares para, aos 16 anos, ser contratado como assistente na Timely Comics, empresa que seria o berço do nascimento da Marvel.

Com exceção de três anos em que Lee se alistou no exército e foi enviado para a Europa para servir durante a Segunda Guerra Mundial, o rapaz trabalhou muito na Timely até conseguir uma chance de escrever suas primeiras histórias, e passou os primeiros anos na empresa fazendo tarefas como buscar o almoço dos funcionários e encher o pote de tinta dos ilustradores. Em 1941 Lee teve a primeira chance de escrever uma história para a editora, e o talento nato do garoto logo o catapultou para uma vaga de editor menos de um ano depois.

Durante as décadas de 1940 e 1950, Lee escreveu histórias de diversos gêneros narrativos para a Timely, como faroestes, ficção científica, fantasia medieval, e até terror. Mas, ironicamente, nada de super-heróis. Essa era a época em que o gênero estava em baixa, e mesmo ícones americanos como o Super-Homem e o Batman passavam por um período de baixas vendas.

Stan Lee, na época que serviu o exército durante a Segunda Guerra (Imagem: Wikipedia)

Esse cenário só foi mudar no fim da década de 1950, quando um revival do Flash pela DC colocou os super-heróis novamente na moda, com a criação da Liga da Justiça da América sendo a principal responsável por trazer a atenção do público de volta para a mídia. É nessa época que Martin Goodman, presidente da editora, pede para quem Lee também crie uma equipe de super-heróis.

Mas, ao contrário do esperado, na época Lee não ficou tão feliz com a nova tarefa. Ele se sentia cada vez mais desanimado com seu papel na empresa, que sentia estar podando sua criatividade, e estava pensando seriamente em pedir demissão e procurar outro emprego. Mas foi um conselho de Joan, sua esposa, que o empurrou para o caminho que seria percorrido durante o resto de sua vida: se ele já estava desanimado e querendo pedir demissão, por que não ignorar as “regras editoriais” e escrever uma história do jeito que ele queria? Afinal, o máximo que poderia acontecer era ser demitido, justamente algo que ele já estava querendo, mesmo.

Sem nada a perder, Lee apresentou o Quarteto Fantástico, primeiro grupo que realmente era do jeito que ele sempre imaginou que um super-herói deveria ser: super-humanos, mas não deuses. E o resto é história.

...vem grandes responsabilidades

Até a entrada de Stan Lee no mercado com a criação do Quarteto Fantástico, a DC Comics dominava completamente as histórias de super-heróis com personagens que eram semideuses. Os heróis da DC não apenas tinham poderes, mas eles eram os melhores e mais fortes poderes do mundo. O Flash não era apenas alguém com supervelocidade, mas ele era o homem mais rápido de todo o universo; o Super-Homem era um alienígena com superforça, supervelocidade, visão de raio-x, visão de calor, sopro congelante e invulnerabilidade a qualquer tipo de ataque, o que o tornava tão poderoso quanto Deus para olhos mortais; até mesmo o Batman, o único humano sem super-poderes, não era tão humano assim: ele era o melhor artista marcial do mundo, o melhor detetive e pessoa mais inteligente da Terra e, além de tudo isso, ainda era um quasilionário que nunca teve de se preocupar em pagar uma única conta. Eles eram interessantes, mas nenhum deles era alguém com quem os leitores poderiam se identificar.

E é exatamente isso que Lee mudou com a criação do Quarteto. Nenhum dos integrantes do grupo era tratado com os mesmos superlativos dos heróis da DC: Reed Richards era um cientista que consegue esticar qualquer parte do corpo do jeito que achar melhor, Sue Storm fica invisível, Johnny Storm consegue cobrir o corpo de chamas e Ben Grimm tem toda a pele de seu corpo transformada em rocha pura. Eles são poderosos, sem dúvida; não é qualquer humano que consegue levantar um carro, soltar bolas de fogo pelas mãos ou ficar invisível. Mas, ao contrário dos membros da Liga da Justiça, nenhum dos integrantes do Quarteto é fantástico por si só. Ainda que sejam mais poderosos do que um humano, é difícil imaginar que qualquer um deles poderia usar seus poderes para salvar o mundo sozinho. Stan Lee criava uma equipe que realmente precisava agir como uma equipe, trabalhando juntos para que o resultado final de suas ações fossem maior do que a simples soma de suas partes.

Com o Quarteto, Lee não havia criado apenas a história de uma equipe de super-heróis, mas sim a de uma família de classe média como tantas outras que existiam no país, com o diferencial de eles também serem super-heróis. Mas os problemas familiares estavam todos lá: intrigas entre membros; a convivência com personalidades distintas sob o mesmo teto; as dificuldades entre pessoas tão diferentes trabalharem juntas por um objetivo em comum e ainda ter dinheiro para pagar o aluguel e fazer as compras no fim do mês; a dificuldade dos membro em lidar com uma figura muitas vezes mais autoritária de Reed Richards, que não apenas agia como o líder do grupo mas como a grande figura paterna da família; a tentação de utilizar os poderes apenas para benefício próprio. Pela primeira vez, os heróis não eram deuses que estavam na Terra para salvar os meros mortais, mas pessoas com medos e defeitos como as que encontramos durante toda nossa vida, mas que num golpe do destino se viram desenvolvendo habilidades extraordinárias que deveriam ser usadas para o bem

O sucesso do modelo fez com que a editora quase falida, que agora se chamava Marvel Comics, voltasse a se fortalecer no mercado editorial devido às vendas impulsionadas pelos novos heróis de Lee. E ele continuou os criando: com a ajuda de Jack Kirby, além do Quarteto, Lee também criou Hulk, Thor, Homem-de-Ferro e os X-Men; Bill Everett o ajudou a criar o Demolidor; e Steve Ditko ajudou na criação do Doutor Estranho e, também, no herói que viria não apenas a definir a carreira de Lee como também colocar a Marvel definitivamente como uma das principais editoras de quadrinhos do mundo: o Homem-Aranha.

Mais do que criar heróis com características humanas (mesmo quando ele estava literalmente falando de deuses, como foi o caso do Thor), Lee também se preocupava com que suas criações participassem dos debates que assolavam a política dos Estados Unidos durante as décadas de 1960 e 1970. Os X-Men foram literalmente criados para representar na mídia movimentos como o dos Panteras Negras, que pediam igualdade de direitos para pessoas de etnia negra. O grupo foi se modificando com o passar das décadas, mas algo nunca mudou: os mutantes sempre foram uma metáfora para qualquer grupo minoritário que luta pela igualdade de direitos. Ainda que tenham sido criados como uma forma de representar nos quadrinhos a luta de movimentos negros, com o passar das décadas os X-Men também já foram utilizados como um instrumento de conscientização sobre infectados por AIDS durante o final da década de 1980/início de 1990, e hoje suas histórias são claramente uma metáfora para as lutas do movimento LGBT+.

Fazer personagens que pareciam humanos não era o suficiente para Lee; eles precisavam ser humanos. Seus heróis não só tinham tinham seus problemas pessoais, mas também viviam no mesmo mundo de seus leitores. Ao contrário da DC, a Marvel de Lee não criava cidades fictícias para abraçarem seus personagens. O Homem-Aranha balançava pelos prédios conhecidos de Manhattan, e presenciava as passeatas por direitos iguais que invadiam as ruas da cidade. Grandes poderes traziam grandes responsabilidades não apenas para suas criações, mas também para o próprio criador.

Excelsior!

Olhando para seu legado durante os últimos dias de vida, provavelmente Lee deve ter dado um sorriso de canto de boca ao ver o tamanho da “confusão” que ele criou. Ele não é responsável apenas por revolucionar os quadrinhos, mas por revolucionar toda a indústria do entretenimento.

Não só o destino da Marvel, mas até a DC foi inspirada pelas histórias de Lee. O Batman que conhecemos hoje, aquele que é um justiceiro consumido pela culpa de não ter conseguido salvar seus pais, só começou a existir depois que Stan Lee mostrou na Marvel que era um bom negócio criar heróis com fraquezas humanas. Não que o homem-morcego já não tivesse perdido os pais antes disso; a origem dele é a mesma desde que foi criado por Bob Kane na década de 1930. Mas, antes da revolução capitaneada por Stan Lee, essa morte não tinha tanto peso na personalidade do personagem quanto hoje. E isso é muito fácil de ser visto nas adaptações para TV e cinema do personagem. A primeira série do Batman, de 1966, mostrava o herói nos moldes clássicos das histórias típicas da DC: ele era um herói confiante de si, que não temia nada, que nunca era enganado por seus inimigos e que sempre os derrotava facilmente utilizando seu intelecto muito superior e habilidades de luta. Ele era um humano de collant, mas ninguém o fazia ter medo, pois ele tinha certeza de que era superior a todos os seus adversários. E essa é a única adaptação que apresenta essa personagem. Todas as posteriores — depois que Stan Lee já havia revolucionado a mídia com seus heróis humanos — apresentaram um herói muito mais tenso, que carrega nos ombros o peso da culpa da morte de seus pais, que ainda que fosse bem treinado podia ser morto a qualquer momento por seus adversários. E esse é o verdadeiro legado de um gênio: ele não apenas cria uma arte nova, como modifica toda aquela já existente sem nem precisar tocar nela.

Isso não quer dizer que Stan Lee era um santo. Assim como suas criações, Lee tinha habilidades que o destacavam da multidão, mas ainda era cheio de defeitos como qualquer outro ser humano. Segundo relatos de antigos funcionários, Lee era um pé-no-saco como chefe, exigindo prazos impossíveis e gritando constantemente com aqueles que trabalhavam para ele — tanto que há diversos indícios de que Steve Ditko se inspirou nele para criar J.J. Jameson, o chefe infernal do jornal onde Peter Parker trabalha. E não podemos esquecer nunca os casos recentes de assédio sexual do autor, que foi acusado por enfermeiras que cuidavam dele de apalpá-las sem consentimento, andar nu pela casa e até pedir sexo oral durante o banho.

Lee nos deixou nesta segunda-feira (12), vítima de uma pneumonia decorrente de complicações da idade. Com 95 anos, não dá para dizer que a morte do quadrinista é uma grande surpresa. A cada notícia de nova internação durante os últimos meses, todos já esperávamos que ele já não teria mais tanto tempo entre nós. Mas isso não torna a despedida mais fácil.

Ainda que tenha sempre se identificado mais como o Homem-Aranha, Stan Lee talvez possa ser melhor comparado com o Homem-de-Ferro: uma pessoa que altera entre momentos adoráveis e atitudes detestáveis, mas que a partir de seu gênio criou algo que não só lhe elevou para níveis além dos mortais, como pôde viver para ver sua criação mudar todo o mundo como conhecemos. E, se em 2018, temos filmes como Pantera Negra, que utiliza a narrativa de super-heróis para contar uma história relevante às lutas, medos e anseios atuais, a culpa é toda do velho Lee.

Fonte: Dial B For Blog, The Ringer

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