E que venham os fracassos!

Por Henrique Setton

Alguém gostaria de um fracasso bem passado?

É isso mesmo! Nesse país de gente insana e inteligente, o fracasso é muito bem aceito. Não sejamos ingênuos: ninguém gosta de fracassar. O fracasso envolve custos, perdas financeiras, frustrações e muita saúde. Mas a forma de lidar com ele é que é um diferencial do povo do Tio Sam. Aqui, se aprende com os erros!

A filosofia é simples: o caminho tortuoso do empreendedorismo inevitavelmente resulta em uma série de pequenos ou grandes fracassos. Os empreendimentos que dão certo são aqueles cujos fundadores souberam aprender com seus erros, minimizando-os e transformando-os em oportunidade. Tanto é forte esse pensamento que dedicaram um dia especial para isso: geralmente, nos mês de outubro, acontece, em San Francisco, a FailCon – Failure Conference ou “Conferência do Fracasso”, em tradução livre.

A proposta desse encontro é apresentar casos de fracasso (ou não) que deram oportunidade para que seus protagonistas fizessem escolhas decisivas para mudar o rumo de suas histórias.

Apesar de um dia inteiro de casos e discussões, gostaria de ressaltar duas apresentações que, na minha opinião, foram os pontos altos em uma das edições de que participei: Travis Kalanick (da Uber) e Joe Gebbia (da Airbnb - lê-se “Air B and B” de “AirBed and Breakfast”).

Primeiramente, clique no nome deles e veja o “naipe” dos dois no parágrafo anterior. Uma vez reconhecidos (ou não), vale a pena contar suas histórias brevemente.

Travis criou a Scour, uma das primeiras ferramentas de busca da Internet com tecnologia p2p (“peer-to-peer” – utilizada para transferência de arquivos, como os de música, por exemplo), quando ainda estava nos 20 e poucos anos. A idéia, obviamente, era original e a tecnologia invejável. Apesar disso tudo, até que pudesse vendê-la, Travis passou por bons apertos: traição do sócio que, além de boicotar o projeto, roubou a idéia e a equipe de engenheiros, levando-os para outra empresa; pressão forte dos investidores; custos exorbitantes; e, é claro, a solidão por conta do abandono da namorada. Achou pouco, leitor? Pois então, ele ainda foi processado por várias empresas do ramo musical por desrespeito aos direitos autorais por uma quantia de USD 250 bilhões! No final, ele conseguiu fazer um acordo e vender sua cota de ações.

Joe, por sua vez, largou o emprego com seu amigo, com quem dividia o apartamento, e juntos resolveram abrir um negócio na Internet. Como as coisas não estavam acontecendo e com a falta de dinheiro, eles não tiveram dúvida: ofereceram um colchão de ar (“Airbed”) e café-da-manhã (“Breakfast”) para quem topasse pagar para eles um valor menor ao invés de pagar uma diária cara de um hotel.

Como as coisas não melhoravam, eles tiveram uma idéia: mapearam o apartamento e viram quanto espaço vazio poderia ser utilizado para incluir mais colchões de ar. Assim, conseguiram pagar mais um aluguel, e outro, e outro.

Finalmente, eles entenderam que poderiam criar um site que permitiria a várias pessoas fazerem o mesmo que eles: o Airbnb.

A história do Joe pareceu mais fácil, não é, leitor? Errado! Ele e o sócio passaram um bom tempo desenvolvendo projetos paralelos que não os levaram a nenhum lugar, além da falta de dinheiro. Se isso já não tivesse sido suficiente, algum tempo depois do lançamento e do sucesso do site, eles ainda foram processados por não se responsabilizarem e por não se posicionarem devidamente e prontamente no caso de uma mulher cuja casa oferecida/alugada em San Francisco através do site foi vandalizada. Não preciso nem dizer que esse assunto foi abafado na FailCon. Incoerente, não? (Para ler a notícia (em inglês), clique aqui. Para ler o novo posicionamento da Airbnb (em português), clique aqui).

Com relação ao case da Airbnb, Joe levantou algumas lições e análises bem interessantes: a vida de empreendedor é uma montanha-russa; se a resposta de potenciais clientes for “talvez” (“maybe”, em inglês) para a pergunta “você utilizaria esse produto?”, talvez é igual a não (ele recebeu praticamente 100% de “talvez” em uma pesquisa e nenhum cliente utilizou o produto!); e que não se precisa de protótipo para realizar a primeira venda ou, em outras palavras, venda a idéia muito bem, mesmo sem ter o produto finalizado.

Bom, depois de tantos aprendizados, concluí o dia da conferência em um outro encontro chamado YouPix. Diferentemente da FailCon, o YouPix é uma plataforma brasileira que celebra a Cultura de Internet. Em resumo, a proposta, nesta data, foi realizar um intercâmbio cultural (de Internet) com os americanos. Em outras palavras, foi apresentada a forma como os brasileiros se relacionam um com os outros e como isso é derivado para a Internet. O mesmo aconteceu em relação à cultura americana.

Além de muito divertido, foi interessante constatar, nas palavras da palestrante Rosana Hermann, que intrínseco à cultura brasileira está o “espírito-de-porco”, pelo qual queremos sempre usar a criatividade para dar um jeitinho para coisas não tão certas acontecerem e boicotar os gringos e outras nações que nos enfrentam. Aqui estão, como exemplos, os casos do ator americano Ashton Kutcher (#chupa) e do “Cala Boca, Galvão!”. Vale a pena entrar nesses links!

Em contrapartida, foi apresentada a cultura americana de “American Pie” e “Jackass” na onda das “Pistolas d’Água que Atiram Fogo”, que tomou o país há alguns meses.

Até o próximo!