Pressão da Microsoft pode significar o fim do Slack

Por Rafael Rodrigues da Silva | 12 de Julho de 2019 às 07h47
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Uma das ferramentas de comunicação corporativas favoritas das empresas de tecnologia pode estar com os dias contados. Isso porque, desde que a Microsoft desenvolveu o Teams — que oferece basicamente os mesmos recursos do Slack —, a ferramenta vem perdendo usuários a cada mês.

O Slack, que há poucos meses se tornou uma empresa de capital público ao disponibilizar suas ações na bolsa de valores, vem passando por um período de enorme desconfiança em relação ao seu futuro, com ações em queda, o número de novos usuários caindo e cada vez mais empresas falando em abandonar a plataforma e migrar para o Teams. Esta, por sua vez, tem visto um aumento no valor de suas ações, um crescimento nas taxas de adoção e um nível bem baixo de pessoas que desistiram de usá-la.

O levantamento feito pela empresa de pesquisa de marketing ETR mostra um cenário parecido com o que aconteceu entre Facebook e Snapchat, em que a companhia maior copiou a inovação trazida pela startup e praticamente a tirou do mercado. Esse cenário é chamado pela senadora norte-americana Elizabeth Warren de “kill zone”: uma grande empresa de tecnologia, ao se ver diante de um potencial concorrente em crescimento, ou compra a concorrência ou a destrói, fazendo com que todas as tecnologias fiquem concentradas nas mãos das mesmas empresas, o que por sua vez acaba atrapalhando o processo de inovação futura.

Pesquisa da ETR mostra que 16% das maiores empresas dos Estados Unidos pensam em diminuirs seus gastos com o Slack, enquanto apenas 2% pensam a mesma coisa do Microsoft Teams (Imagem: ETR) 

E a situação entre Snapchat e Facebook é bem parecida em todos os sentidos: assim como o Facebook tentou fazer com o Snapchat, a Microsoft também havia tentado comprar o Slack há quatro anos, e ambas, ao não conseguirem fechar negócio, passaram a copiar todas as funções do software da empresa que tentaram adquirir. E eles podem fazer isso com impunidade pela natureza das patentes dos softwares: a única coisa possível de patentear é o código em si, e não a função que ele desempenha. Assim, se não houver uma cópia do código da programação em si, uma empresa pode copiar qualquer função dos softwares de suas concorrentes sem qualquer receio de ser acusada de plágio.

Ainda que isso seja bom para desenvolvedores independentes — por exemplo, a Microsoft não pode processar ninguém que crie um software de edição de texto próprio que funcione de modo parecido com o Word —, essa via de mão-dupla também acaba ferindo inovações independentes, pois permite que empresas com muito mais capital e reconhecimento do mercado copiem essas inovações e as vendam como algo próprio sem qualquer tipo de punição.

Outro problema em tentar competir com uma empresa do tamanho da MIcrosoft é o fato de ela não ter necessidade de lucrar de imediato com qualquer produto que lance no mercado, podendo chegar “atrasada”, mas tendo cacife para lançar um produto por um preço abaixo do custo apenas para criar uma clientela e "roubar" mercado da concorrência antes de desenvolver estratégias para lucrar. E a Microsoft não é nova nesse “jogo”: foi exatamente isso que ela já havia feito em 2015 com o Power BI, sua ferramenta visual de análise de dados. Ainda que a qualidade do produto não fosse tão grande quanto ao do software desenvolvido pela Tableau, que era quem dominava o mercado, o fato de atrelar a marca Microsoft a um software que era bem mais barato do que a concorrência foi o suficiente para fazer com que muitos clientes migrassem para o programa da empresa de Bill Gates, fazendo com que o valor das ações da Tableau despencassem.

Pesquisa da ETR mostra como de janeiro de 2018 para cá o número de empresas que usam o Microsoft Teams cresceu muito mais do que as que utilizam o Slack (Imagem: ETR)

Outro motivo que tem feito com que muitas empresas troquem o Slack pelo Teams é pelo fato de, nos últimos três anos, várias empresas já terem investido em adquirir o Office 365 e os serviços em nuvem do Azure. E, quando já se possui todos esses serviços, o Teams não apenas tem uma integração muito melhor com os programas deste pacote como ainda sai de graça.

Na pesquisa efetuada pela ETR, esses são os dois principais motivos que têm feito as empresas trocarem o Slack pelo Teams: maior integração com os outros programas do Office 365 e menor preço. O consenso é de que o Teams não é tão bom quanto o Slack, mas ele é bom o suficiente para valer a economia que essas empresas fazem — literalmente a mesma história que que já ocorreu em 2015 com o Power BI e o Tableau.

Mas isso não quer dizer que o caminho do Slack já está definido como o da desgraça — tanto que a Snap e o Tableau ainda estão aí sobrevivendo, mesmo com a pressão exercida por gigantes como Microsoft e Facebook para tirá-los do mercado. Mas a empresa, que abriu seu IPO se gabando de ser o software de comunicação utilizado por 65 das 100 empresas mais valiosas da lista da Forbes, provavelmente terá de mudar sua estratégia se quiser sobreviver, focar menos em grandes corporações (que já utilizam o Office 365 e têm todos os motivos para usar o Teams) e dar mais atenção a empresas menores (que muitas vezes nem sabem da existência de programas de comunicação corporativa).

Fonte: Vox

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