Publicidade

O novo desperdício corporativo está na infraestrutura mal governada

Por  | 

Compartilhe:
cloud nuvem hospedagem armazenamento
Sv Studio Art/Freepik

*Por Bruno Paiuca

Continua após a publicidade

O imaginário corporativo associa, de modo natural, o desperdício a salas vazias, andares subutilizados, estoques excessivos, processos burocráticos e estruturas administrativas infladas. Nesse contexto, eficiência significava reduzir espaço físico, renegociar contratos e enxugar operações. Esse raciocínio ainda existe e tem sua importância, mas o principal centro de perdas das empresas modernas é mais complexo e está ligado à tecnologia.

Nesse sentido, atualmente, o desperdício mais difícil de identificar roda silenciosamente em servidores, ambientes em nuvem, recursos provisionados sem controle e arquiteturas digitais que cresceram sem governança proporcional.

O fato é que a transformação digital alterou profundamente a natureza das operações empresariais, que passaram a depender de cloud computing para praticamente tudo, desde armazenamento, processamento, aplicações críticas, segurança e analytics até IA, integração de sistemas e escalabilidade operacional.

Canaltech
O Canaltech está no WhatsApp!Entre no canal e acompanhe notícias e dicas de tecnologia
Continua após a publicidade

O problema é que a velocidade da adoção tecnológica foi muito superior à maturidade de gestão sobre essa infraestrutura. Em muitos casos, companhias migraram para a nuvem acreditando que elasticidade significava eficiência automática e descobriram (ou ainda não), que seus workloads não demandam infraestrutura de forma tão elástica quanto supostamente imaginavam. Flexibilidade sem controle ou sem demanda também amplia desperdício em escala.

Os números ajudam a traduzir a dimensão do desafio. O relatório FinOps in Focus 2025, da Harness, projeta que empresas devem desperdiçar US$ 44,5 bilhões em infraestrutura cloud ao longo deste ano por falhas de governança, baixa integração entre engenharia e finanças e ausência de visibilidade operacional. Esse dado indica uma baixa maturidade na adoção de arquiteturas Cloud Native, e mostra como muitas organizações investem nessa tecnologia, sem antes estarem com suas operações preparadas para tal.

O mesmo levantamento mostra que 52% dos líderes de engenharia afirmam que a desconexão entre áreas técnicas e financeiras gera desperdício direto nos ambientes de nuvem. Em paralelo, menos da metade das organizações possui visibilidade em tempo real sobre recursos ociosos, workloads superdimensionados e ambientes sem utilização efetiva.

Além disso, em muitas empresas, ambientes criados para testes permanecem ativos indefinidamente, máquinas virtuais seguem provisionadas acima da necessidade real, bancos de dados continuam consumindo recursos após projetos encerrados, armazenamentos esquecidos acumulam custos mensais invisíveis ao negócio e recursos são mantidos sem ownership definido ou métricas claras de utilização. A soma desses pequenos desperdícios cria um efeito estrutural relevante, especialmente em organizações que operam em larga escala.

Uma análise da VendorBenchmark, baseada em mais de 700 ambientes corporativos, aponta que as empresas desperdiçam entre 28% e 34% de todo o investimento em cloud com recursos ociosos, provisionamento excessivo e ambientes esquecidos. Trazendo esse percentual para a realidade financeira, uma companhia que investe US$10 milhões anuais em infraestrutura pode perder até US$3,4 milhões sem necessariamente perceber onde está o problema.

A infraestrutura só gera valor quando há governança

O levantamento reforça uma mudança importante no conceito contemporâneo de eficiência operacional: o desperdício deixou de ser predominantemente físico e passou a ser distribuído, digital e muito mais difícil de enxergar sem mecanismos estruturados de governança.

Esse contexto ajuda a explicar por que o debate sobre FinOps deixou de ser restrito à otimização de custos e passou a ocupar uma posição estratégica dentro das organizações. Durante muito tempo, a percepção sobre FinOps esteve ligada apenas à redução de despesas em cloud. Hoje, o mercado começa a entender que o tema envolve algo muito mais amplo, ou seja, governança operacional, responsabilidade financeira compartilhada, visibilidade contínua e alinhamento entre tecnologia e negócio.

Continua após a publicidade

O relatório State of FinOps 2025, da FinOps Foundation, mostra justamente essa mudança de mentalidade. Pela primeira vez, a implementação de governança e políticas em escala aparece como prioridade superior até mesmo à simples redução de custos. O levantamento considera organizações responsáveis por mais de US$69 bilhões em gastos com cloud e evidencia que as empresas perceberam que eficiência sustentável depende menos de cortes pontuais e mais da capacidade de estabelecer disciplina operacional contínua.

Ademais, existe um componente cultural importante nessa discussão. Muitas organizações ainda tratam a infraestrutura digital como responsabilidade exclusivamente técnica. O problema é que cloud deixou de ser apenas um tema de TI há bastante tempo. Cada decisão de provisionamento possui impacto financeiro direto e cada ambiente ativo representa consumo operacional contínuo.

Nesse sentido, recursos sem monitoramento afetam diretamente a eficiência, a previsibilidade e a margem do negócio. Por isso, a governança contemporânea de infraestrutura exige um modelo muito mais integrado, baseado em uma lógica operacional orientada por responsabilidade contínua.

Como o FinOps redefine a eficiência operacional

Continua após a publicidade

Na prática, isso envolve monitoramento em tempo real, automação para desligamento de recursos ociosos, definição clara de ownership, políticas de provisionamento, rastreabilidade de consumo e integração efetiva entre as áreas de negócio e tecnologia.

Esse movimento também exige maturidade técnica e executiva para evitar decisões simplistas, como acreditar que a repatriação de cargas seja, por si só, a solução para os desafios de custo e eficiência. Em muitos casos, essa decisão pode ser tão pouco refletida quanto a adoção desenfreada de cloud observada na década anterior.

O contexto atual torna essa discussão ainda mais crítica. A sobrecarga dos times de tecnologia, combinada ao avanço da inteligência artificial, aumenta a demanda por performance, produtividade e escalabilidade, ao mesmo tempo em que amplia as superfícies de ataque. Nesse cenário, modelos legados de gestão de infraestrutura, com limitada ou nenhuma capacidade de gerenciamento por API, podem limitar a capacidade das empresas de responder a demandas cada vez mais explosivas e dinâmicas.

Da mesma forma, essa limitação pode comprometer a capacidade de responder a incidentes, especialmente quando comparada às capacidades oferecidas pelos hyperscalers. O valor da cloud, portanto, não está necessariamente em uma planilha fria de custos, mas nas capacidades disponíveis a um clique para provisionar, escalar, proteger e defender o negócio no ambiente digital.

Continua após a publicidade

Esse novo cenário altera a forma como a competitividade deve ser interpretada. Por anos ela esteve associada à expansão tecnológica acelerada, agora, o mercado mais maduro entende, requer e precifica governança, crescendo a percepção de que sustentabilidade operacional depende da capacidade de administrar essa expansão com inteligência, já que uma infraestrutura eficiente é aquela mais coerente com a necessidade real do negócio.

No fim das contas, o novo desperdício corporativo está escondido em dashboards ignorados, ambientes esquecidos, recursos sem dono e operações digitais que cresceram sem governança proporcional. Justamente por ser silencioso, distribuído e tecnicamente complexo, esse desperdício se tornou ainda mais perigoso para empresas que dependem de escala, previsibilidade e eficiência para sustentar seu crescimento.

Hoje, a reflexão que fica para as organizações não está associada apenas a quanto elas investem em tecnologia, mas quanto desse investimento realmente gera valor operacional.

Continua após a publicidade