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Multicloud sem FinOps pode virar complexidade cara

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Reprodução/Freepik
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*Por Bruno Paiuca

A discussão sobre multicloud costuma ser conduzida sob uma lógica de expansão tecnológica: mais flexibilidade, maior resiliência e capacidade de escalar operações com menos dependência de uma única infraestrutura. O problema é que, na prática, muitas empresas descobriram que diversificar ambientes cloud também significa multiplicar contratos, métricas, custos, processos e pontos de controle

Nesse sentido, o levantamento State of the Cloud 2024, da Flexera, mostra que 89% das organizações já operam em ambientes multicloud. O dado indica que trabalhar com diferentes provedores deixou de ser exceção para virar padrão corporativo. No entanto, a mesma pesquisa aponta um sinal importante: gerenciar gastos em cloud apareceu, pelo segundo ano consecutivo, como o principal desafio das empresas, superando inclusive preocupações tradicionais relacionadas à segurança. 

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Esse ponto ajuda a desmontar uma percepção comum no mercado. O multicloud costuma ser vendido como sinônimo de liberdade tecnológica e resiliência operacional. Em parte, isso é verdade, já que distribuir aplicações entre diferentes provedores amplia possibilidades técnicas e aumenta a capacidade de adaptação das operações. O desafio surge quando essa expansão acontece sem uma camada consistente de gestão financeira e governança operacional

E muitas empresas entraram na era multicloud sem revisar processos, sem consolidar métricas e sem criar mecanismos claros de visibilidade de custos. O resultado é um ambiente tecnicamente sofisticado, mas financeiramente desorganizado. 

Assim, recursos duplicados começam a surgir entre provedores diferentes, times contratam capacidade acima da necessidade real, ambientes antigos permanecem ativos por falta de rastreabilidade, backups redundantes continuam armazenados indefinidamente e máquinas virtuais esquecidas seguem consumindo orçamento sem gerar qualquer valor para o negócio. 

Refletindo esse cenário, uma análise recente da TechRadar avaliou que o desperdício médio em cloud chegou a 29% em 2026. Entre os principais fatores estão Virtual Machines (máquina virtual que simula um equipamento físico) subutilizadas, bancos de dados abandonados, provisionamento excessivo de capacidade e recursos redundantes espalhados entre diferentes ambientes. O dado reforça que a elasticidade da nuvem pode ampliar eficiência, mas também consegue escalar desperdícios com enorme velocidade quando não existe governança. 

Isso acontece porque ambientes multicloud costumam distribuir operações entre áreas distintas da empresa. Desenvolvimento, infraestrutura, dados, segurança e financeiro frequentemente trabalham com indicadores diferentes, ferramentas diferentes e objetivos diferentes. Sem integração, cada área otimiza apenas sua própria operação, enquanto a companhia perde a visão consolidada do ambiente como um todo. 

A mudança cultural por trás das FinOps

É justamente nesse ponto que as FinOps passam a ocupar um papel estrutural dentro da estratégia digital das organizações e não apenas como uma via de redução de custos em cloud. O próprio mercado amadureceu essa visão. O FinOps Foundation, por exemplo, atualizou em 2024 sua definição de Cloud FinOps para incluir ambientes multicloud, integração entre áreas e foco em geração de valor para o negócio. 

Essa mudança conceitual é importante porque o desafio atual vai além de economizar, o centro da discussão agora é a capacidade de governança. Empresas que operam múltiplas nuvens precisam desenvolver mecanismos contínuos de previsibilidade, rastreabilidade e priorização de recursos. Sem isso, a expansão da infraestrutura digital começa a gerar exatamente o efeito contrário ao prometido, aumentando a ineficiência operacional. 

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Muitas organizações ainda tentam resolver esse problema apenas adicionando novas ferramentas de monitoramento. No entanto, o excesso de dashboards não resolve a ausência de gestão integrada e, em alguns casos, pode até mesmo ampliar a sensação de fragmentação. O ponto decisivo, nesse sentido, é transformar essas informações em decisões operacionais coordenadas entre tecnologia, finanças e negócio. 

O próprio estudo da Flexera supracitado mostra esse movimento de amadurecimento indicando que 57% das grandes empresas já utilizam ferramentas de multicloud FinOps para otimização de custos. Isso revela que o mercado começou a perceber que crescimento em cloud exige disciplina operacional compatível com a escala da infraestrutura digital

Existe ainda um componente cultural importante nessa discussão. Em muitos ambientes corporativos, provisionar recursos virou uma atividade quase automática, desconectada de critérios claros de consumo e retorno operacional. Essa lógica cria um efeito preocupante, com pequenos desperdícios espalhados entre múltiplos ambientes que se acumulam até se transformarem em um volume financeiro relevante.

E ambientes multicloud sem padronização também aumentam a dificuldade de auditoria, rastreabilidade e conformidade, afetando diretamente a capacidade de tomada de decisão, já que  quando a empresa não consegue entender com clareza onde estão seus principais consumos, quais aplicações geram mais custo ou quais ambientes estão subutilizados, a gestão deixa de ser estratégica e passa a operar de forma reativa. Ou seja: em vez de planejar crescimento, os times passam a combater desperdícios já instalados. 

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O debate sobre multicloud precisa, portanto, avançar no Brasil. A discussão não pode continuar limitada à flexibilidade técnica ou à redundância operacional. O verdadeiro diferencial competitivo está na capacidade de administrar ambientes distribuídos sem perder previsibilidade financeira, consistência operacional e alinhamento estratégico

E, em um cenário em que infraestrutura digital virou parte central da competitividade empresarial, crescer sem visibilidade pode custar muito mais caro do que se imagina.

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