Análise | Com 70 filmes em 2021, a Netflix avisa: é ela quem manda em Hollywood

Análise | Com 70 filmes em 2021, a Netflix avisa: é ela quem manda em Hollywood

Por Rui Maciel | 28 de Janeiro de 2021 às 09h00
Montagem: Laísa Trojaike/Canaltech

No último dia 12 de janeiro, a Netflix fez um anúncio bombástico: durante todo o ano de 2021 ela lançará um filme inédito por semana - todos com o selo "Original Netflix". Para isso, a empresa fez um vídeo, convocando diversos dos principais astros de Hollywood, que terão seus longas exibidos pela plataforma, para mostrar algumas das principais novidades. Confira abaixo:

A estratégia da empresa com essas dezenas de novos filmes é ousada. Em um mundo ainda tomado pela pandemia, a empresa se beneficiou fortemente da quarentena, tanto que em sua última apresentação dos resultados financeiros, ela anunciou que atingiu o marco de 200 milhões de assinantes, um recorde.

De acordo com o relatório divulgado também no último dia 20, 37 milhões de contas foram criadas durante todo o ano de 2020, enquanto 8,5 milhões desse número foram apenas no quarto trimestre. Essa marca quebra o recorde de assinantes anual da Netflix, alcançando US$ 25 bilhões em receita anual e um aumento do lucro operacional em 76%, saltando para US$ 4,6 bilhões.

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Com tais números e ainda sob a sombra da pandemia, a empresa analisou que a crise sem precedentes que as redes de cinema enfrentam não deve acabar tão cedo. Com isso - e as produtoras desesperadas para lançar seus filmes - ela fez uma mega negociação com a máquina de astros de Hollywood para trazê-los para baixo de seu guarda-chuva e bancar suas produções.

De quebra, a plataforma de streaming mandou um recado claro ao mundo: se antes ela era vista como uma ameaça ao cinema, agora é considerada a salvação de Hollywood. E é ela quem passa a dar as cartas.

A Netflix já tinha avisado sobre a "ofensiva cinematográfica"

A ambição da Netflix em revolucionar o mercado cinematográfico não foi decidido de uma hora para outra, por causa da pandemia. Sua ambição vem de longe. Em uma matéria do dia 16 de dezembro de 2018, do jornal The New York Times, Scott Sttuber, head da divisão de filmes originais da Netflix, já havia avisado que a empresa faria uma "ofensiva cinematográfica" no mercado.

Scott Stuber: o executivo comandou a "ofensiva cinematográfica da Netflix (Foto: Wikipedia)


Para isso, na época, Stubber afirmou que a Netflix lançaria 55 filmes originais por ano, com orçamentos que variam entre US$ 20 e US$ 200 milhões. Além disso, adicione documentários e longas de animação e o número de lançamentos anual pularia para, aproximadamente, 90 obras. Para efeito de comparação, a Universal Studios - no qual Stubber era um dos mais altos executivos - lança cerca de 30 filmes por ano.

E sempre lembrando: esse "ataque" já era arquitetado antes da pandemia do coronavírus.

A COVID-19 aumentou o cacife da Netflix junto ao Oscar...

Antes da pandemia, a Netflix precisava que seus filmes fossem premiados com o Oscar (ou ao menos concorressem). Isso porque o prêmio máximo do cinema serve como uma validação para que a empresa pudesse competir com os estúdios pelos melhores talentos, entre atores, diretores e produtores.

Para fazer com suas obras pudessem concorrer à estatueta dourada, a empresa precisava lançar mão de uma estratégia que a deixava contrariada: por exigência da Academia, todo filme, para concorrer ao Oscar, precisa ser exibido em um cinema de Los Angeles por, pelo menos, sete dias seguidos, com três sessões diárias. Com isso, a companhia precisava negociar com as redes como Cinemark, AMC, entre outras, para conseguir lançar seus filmes na telona.

Como essas empresas sabem que isso é apenas uma "gambiarra", já que esses longas da Netflix ficariam apenas o tempo mínimo para se tornarem elegíveis ao Oscar - e logo depois estariam no streaming, sem que as redes tivessem tempo de lucrar com a bilheteria - elas se recusavam a exibir seus filmes. Com isso, a Netflix precisava montar, todo ano, uma operação de guerra para que suas produções pudessem concorrer ao prêmio.

Mank: um dos candidatos da Netflix ao Oscar terá caminho facilitado para concorrer esse ano (Imagem: Netflix)


No entanto, a pandemia da COVID-19 mudou totalmente esse cenário. Com um 2020 sem, praticamente, nenhuma estreia nos cinemas - já que eles permaneceram fechados - as regras para concorrer ao Oscar 2021 tiveram de mudar. E elas passaram a considerar as produções exibidas nos serviços de streaming como elegíveis ao prêmio, sem precisar passar pelas telonas. A única exigência é que esses filmes devem inseridos na plataforma de streaming exclusiva da Academia e ficar disponível para os votantes em até 60 dias após o seu lançamento no serviço correspondente.

Ainda que a Academia afirme que essa regra valerá apenas para o Oscar desse ano - uma vez que ela afirma acreditar no poder e na importância do cinema - não será surpresa se ela voltar no ano que vem.

...e também aumentou o seu cacife de negociação com Hollywood

Além facilitar o processo para permitir que seus filmes concorram ao Oscar, a pandemia do coronavírus deu a Netflix um poder de barganha gigantesco para que a empresa pudesse trazer os maiores astros de Hollywood sob o seu guarda-chuva. Afinal, sem salas de cinema, muitas das produtoras precisavam lançar seus filmes de alguma maneira.

Com isso, a Netflix apareceu para preencher esse vazio e com uma ótima posição para negociar. Com dinheiro em caixa, a empresa conseguiu atrair boa parte do primeiro escalão de Hollywood, entre atores e diretores, que trouxeram seus próximos filmes à tiracolo.

Gente do quilate de Leonardo DiCaprio, Sandra Bullock, Dwayne Johnson, Idris Elba, Meryl Streep, Zendaya, Jennifer Lawrence, Ryan Reynolds, Jennifer Garner, Gal Gadot, Dave Bautista, Naomi Watts, Jake Gyllenhaal, John David Washington e Octavia Spencer, entre os atores. Ou diretores como Jane Campion, Adam McKay, Zack Snyder, Joe Wright, Antoine Fuqua, Shawn Levy, Robert Pulcini e Lin-Manuel Miranda, entre outros. Sem contar cineastas como o genial David Fincher, que assinaram contrato de exclusividade com a plataforma.

Zendaya e John David Washington em Malcom & Marie: Netflix atraiu uma leva de atores e diretores do 1º escalão de Holluwood (Foto: Divulgação / Netflix)


Apenas como exemplo do que vem por aí: o filme Don't Look Up, de Adam McKay, sobre um grupo de astrônomos que faz um tour mundo afora para alertar o mundo sobre a chegada de um asteroide que pode destruir a Terra, terá um elenco formado por Meryl Streep, Leonardo DiCaprio, Jennifer Lawrence, Cate Blanchett, Timothee Chalamet, Jonah Hill, Ariana Grande, Chris Evans, entre outros. Um verdadeiro Dream Team.

Aliás, a lista completa do que será lançado pelo serviço em 2021 pode ser conferida aqui - em inglês):

A concorrência conseguirá acompanhar? Difícil

Com toda essa envergadura em termos de novos filmes, dificilmente os principais serviços de streaming do mercado, que eram considerados verdadeiras ameaças a Netflix até pouco tempo, conseguirão a amplitude de lançamentos da empresa. Para efeito de comparação, em 2019, ou seja, em uma época pré-pandemia, os três principais estúdios de cinema do mundo - Disney, Universal e Warner Bros - lançaram, combinados, 82 filmes nos cinemas. Apenas 12 a mais do que o prometido apenas pela Netflix nesse ano.

Além disso, esses próprios estúdios, que também são donos de serviços de streaming concorrentes da Netflix (como a Disney+ e HBO Max, da Warner), precisaram vender suas alguns de seus filmes para a própria rival, para fazer caixa.

A Disney, por exemplo, teve de vender The Woman in the Window, com Amy Adams, Gary Oldman e dirigido por Joe Wright, para a Netflix. O mesmo aconteceu com a MGM, com a comédia Bad Trip e a animação Wish Dragon, da Sony Pictures. Sem contar Os 7 de Chicago, que a Netflix comprou da Paramount e que está promovendo para que o filme concorra ao Oscar desse ano.

 A Mulher na Janela, estrelado por Amy Adams: Disney precisou vender o filme para a rival Netflix para fazer caixa (Imagem: Divulgação / Netflix)

Além dessa necessidade de equilibrar o caixa, boa parte das concorrentes da Netflix ainda precisam batalhar para construir uma base sólida de assinantes.

E essa batalha será árdua. O Disney+, por exemplo, até mostrou um início promissor: em pouco mais de um ano após a sua estreia, ela obteve 86,8 milhões de assinantes, pouco menos da metade da Netflix, que tem muito mais tempo de mercado. No entanto, ela vem sofrendo para colocar suas séries e filmes na rua, cujos lançamentos foram adiados diversas vezes por causa da pandemia. Isso porque o serviço só traz conteúdos do próprio conglomerado Disney, que inclui a divisão de mesmo nome, além de Pixar, Marvel, Star Wars e Fox. E sem material novo, fica mais difícil atrair novos assinantes.

Já a Warner, com seu HBO Max, adotou uma estratégia mais polêmica para conseguir crescer a sua base de assinantes. No começo de dezembro do ano passado, ela anunciou que todos os seus lançamentos de 2021 - incluindo blockbusters gigantescos como Matrix 4, Esquadrão Suicida , Duna, entre outros - serão lançados tanto nos cinemas, quanto em seu serviço de streaming. A ação impactará 17 filmes do estúdio.

A medida, compreensivelmente, enfureceu as redes de cinema, que viram suas chances de faturar com a bilheteria cair mais e mais. No entanto, a Warner espera que a estratégia impulsione o número de assinantes do HBO Max ao longo de 2021. E ela prometeu "voltar ao normal" em 2022. Algo que muita gente duvida que aconteça se essa manobra der certo.

O novo Esquadrão Suicida: um dos filmes que a Warner lançará nos cinemas e no HBO Max para atrair assinantes (Imagem: Warner Bros.)


E mesmo com as expectativas de crescimento, alcançar a Netflix não será nada fácil. Números do site Statista preveem que a Disney+ deve chegar a 194 milhões de assinantes até novembro de 2025. Já o HBO Max, pode atingir 28,52 milhões no mesmo período. Já a própria Netflix pode ter 274,14 milhões de adeptos.

Essa mesma briga por assinantes, obviamente, também chega aos outros dois principais concorrentes da Netflix: a Amazon Prime e o Apple TV+. No entanto, alcançar a líder não é algo que preocupa tantos seus executivos. Isso porque Apple e Amazon pensam suas plataformas de forma diferente, como parte de um ecossistema mais amplo de serviços. Além disso, ambas têm um caixa bem generoso para se manter na disputa, com a estratégia "devagar e sempre", por muitos anos, já que os respectivos serviços não são exatamente o core business dessas companhias. Ao contrário de suas rivais.

O risco do "Efeito VHS"

Analisando todo esse cenário, é seguro dizer que a Netflix deve dominar com folga o mercado de streaming nos próximos anos. A estratégia agressiva da empresa vem dando resultados - e a pandemia acelerou e ampliou o domínio da empresa comandada por Reed Hastings.

No entanto, além da quantidade, é preciso levar em conta também a qualidade dos filmes. E considerando que lançar um filme por semana - às vezes, até mais - é algo ousado, podemos temer que esses longas sofram com o chamado "Efeito VHS".

Para os mais novos, explico: quando o VHS - ou, se preferir, as fitas de videocassete - se popularizaram mundo afora entre as décadas de 1980 e 1990, a demanda por filmes era maior que a oferta. E para atender a sede do público, as produtoras resolveram fazer filmes em quantidade industrial, com orçamento muito menor, em menos tempo e, claro, com muito menos esmero.

O resultado foi que as videolocadoras foram invadidas por um monte de "produções B", criando o que o crítico de cinema Roberto Sadovski chamou de "astros de locadora": atores que não emplacavam grandes sucessos de bilheteria, mas faziam um monte de filmes ruins, focados mais quantidade do que qualidade. Mas que supria a demanda da época, então segue o jogo.

Esquadrão 6: muitos filmes originais da Netflix sofrem com a falta de polimento (Imagem: Netflix)


Por que eu estou usando esse exemplo? Porque com o Netflix prometendo lançar 70 filmes em um ano, é razoável supor que muitos deles estão sendo montados a toque de caixa. E como diz aquele velho ditado: "A pressa é inimiga da perfeição". Com isso, há um temor de que muitos desses longas cheguem à plataforma de streaming sem o devido polimento, o que pode comprometer o resultado final.

E ainda que gosto seja uma questão subjetiva, é seguro dizer que a Netflix ainda peca muito em boa parte dos filmes que levam o seu selo "Originals'. Para cada Roma, O Irlandês, Mank, OTigre Branco e até pérolas menores como Beirute e Resgate, o Netflix põe na rua muitas bombas e até filmes promissores, que poderiam ser bem melhores se passassem por um processo de refinamento mais apurado e sem pressa. E exemplos não faltam: Bright, Bird Box, Old Guard, Aniquilação, A Mulher Mais Odiada dos EUA, Esquadrão 6, Perda Total, Operação Fronteira e muitos, muitos outros.

Enfim, é esperar pelo melhor. Mas uma coisa não resta dúvida: hoje, Hollywood precisa pedir a benção para a Netflix.

Com informações do The New York Times (1) (2), Variety, Observer, Statista, Roberto Sadovski

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