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Guerra na nuvem: por que data centers privados viraram alvos militares?

Por  • Editado por Bruno De Blasi | 

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İsmail Enes Ayhan/Unsplash
İsmail Enes Ayhan/Unsplash

A Guarda Revolucionária do Irã confirmou na última quarta-feira (4) que alvejou data centers da Amazon no Oriente Médio. Essa foi a primeira vez que infraestrutura de uma gigante da tecnologia americana se torna alvo durante um conflito internacional, e, segundo especialistas, pode marcar o início de uma nova era de estratégias militares de guerra.

Os ataques ocorreram após ofensivas conjuntas de Estados Unidos e Israel contra o Irã. Em resposta, drones iranianos danificaram três instalações da Amazon Web Services (AWS) na região — uma no Bahrein e duas nos Emirados Árabes Unidos, estas últimas atingidas diretamente.

A justificativa da Guarda Revolucionária foi o envolvimento da empresa em "atividades militares e de inteligência do inimigo". Israel e os EUA também teriam atingido ao menos dois data centers em Teerã, um deles ligado à própria Guarda Revolucionária.

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A Amazon não comentou os bombardeios, mas orientou clientes a ativar planos de recuperação de desastres, realizar backups em outras regiões e redirecionar o tráfego para longe das instalações afetadas.

A infraestrutura que sustenta o mundo digital sempre foi invisível para a maioria das pessoas. O conflito no Golfo Pérsico pode ter mudado isso permanentemente.

Quando a comunicação se torna um alvo

Atacar infraestrutura de comunicação não é uma novidade na história dos conflitos armados. Rádios estatais, emissoras de TV e centrais telefônicas sempre figuraram nas listas de alvos prioritários. A diferença é que agora parte crucial dessa infraestrutura está dentro de galpões refrigerados repletos de servidores.

Para o coordenador da Pós-Tech de DevOps e Cloud da FIAP, Douglas Martins, a lógica é: atacar um data center é atacar o sistema nervoso de um país.

"A informação é o cérebro do mundo hoje. Quando ocorre um ataque a um data center, ele interrompe não só o acesso a esses dados, mas a economia, a capacidade de se comunicar com o mundo externo e o controle geral do governo", explica.

O pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da Fundação Getulio Vargas, Leonardo Paz, aponta a inteligência artificial como a principal razão para os data centers terem entrado no radar militar agora.

O uso de IA no campo de batalha para identificar alvos, processar imagens de drones, analisar dados de satélite em tempo real depende diretamente de capacidade de processamento. E esse processamento, hoje, vive na nuvem.

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"Na medida em que você começa a minar a capacidade de processamento de dados, a acurácia da seleção de alvos passa a ser cada vez menos sofisticada", diz Paz. "A IA tem se tornado um componente bastante importante, especialmente na identificação de alvos e na composição do exército oponente”.

Já o diretor de Arquitetura Cloud para Engajamentos Estratégicos da Oracle, Weligton Pinto, reforça que o uso militar da nuvem já é realidade consolidada.

Governos contratam provedores como AWS, Azure, Google Cloud e Oracle Cloud para hospedar dados classificados, simulações e ferramentas de IA. O Departamento de Defesa dos EUA, por exemplo, mantém contratos multibilionários como o JWCC (Joint Warfighting Cloud Capability), dividido entre esses provedores para fornecer capacidades que vão de dados não classificados ao nível top-secret.

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Por que não vimos ataques assim antes?

Em conflitos como os do Iraque, do Afeganistão e da Líbia, os adversários dos Estados Unidos não tinham capacidade técnica ou alcance geográfico para atingir a infraestrutura digital americana.

Nos últimos anos, no entanto, o Golfo Pérsico se tornou um dos principais polos de expansão dos grandes provedores de nuvem do mundo, atraídos pela energia barata, pelo espaço físico e pelos contratos com governos locais.

"O Irã não tem condição de atingir data centers nos Estados Unidos. No Oriente Médio, nesse momento, ele consegue", resume Leonardo Paz. "A nuvem cria uma certa distância entre o alvo e a capacidade de processar dados. Mas isso gera outros problemas."
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Júlio Chaves, pesquisador da FGV EMAp, lembra que esse tipo de ataque já ocorreu, em menor escala, quando a Rússia atacou data centers ucranianos em 2022, sobretudo os conectados ao governo.

"No caso do Oriente Médio, os alvos eram data centers comerciais da AWS, que não necessariamente estavam sendo usados pelos militares — mas, estando em território aliado ao inimigo do Irã, certamente causaram grandes danos."

A diferença relevante entre os dois casos, segundo Chaves, é exatamente essa: antes, alvos eram data centers governamentais. Desta vez, a infraestrutura comercial de uma empresa privada americana foi atingida, e isso muda o precedente.

Nossos dados correram risco?

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Para a maioria dos usuários comuns, que guardam fotos no Google Drive, documentos no OneDrive ou usa aplicativos que rodam na nuvem, as interrupções foram regionais e temporárias. A perda permanente de dados é rara, porque os grandes provedores replicam informações em múltiplos data centers ao redor do mundo. Se um cai, os outros assumem.

"Imagine que um data center específico tenha sido atacado. Todos aqueles dados são replicados entre diferentes data centers, então a informação nunca é perdida. O que muda é a rota", explica Martins.

O risco é maior para governos e organizações que operam com apenas um provedor de nuvem, sem redundância. "Se atacar todos os data centers da AWS que atendem ao governo, teremos um problema sério. Cai tudo, começa o caos", alerta Rodrigues.

Atacar um data center é crime de guerra?

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O direito internacional humanitário estabelece que ataques militares só são legítimos quando direcionados a alvos estritamente militares. Atacar infraestrutura civil, como escolas, hospitais, embaixadas, configura crime de guerra.

Para o doutor em Geografia Política pela USP e professor no curso de pós-graduação em Geopolítica do Mundo Contemporâneo da PUC Minas, Jorge Mortean, a linha é clara na teoria:

"Um data center só poderia ser considerado um alvo legítimo se estivesse dentro de uma instalação militar e fosse utilizado para fins militares. Fora dessa exceção, nenhum país tem o direito de atacar um data center localizado em área civil”, afirmou.

Mas na prática, a situação é mais nebulosa. A Amazon mantém contratos com governos e forças armadas de países aliados aos EUA e Israel na região, o que o Irã usou como justificativa para o ataque.

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Para Mortean, isso não muda o enquadramento jurídico. "Ataques militares contra alvos civis são considerados crimes de guerra. Isso vale para um data center, uma embaixada, uma escola ou um hospital", disse.

O professor reconhece, porém, a realidade do campo de batalha: "na dinâmica de um conflito que escapa de qualquer legalidade, existe um arcabouço jurídico, mas os conflitos frequentemente ultrapassam esses limites. É um revide? É. É correto fazer isso? Não”.

Devemos esperar mais ataques do tipo?

Os especialistas são unânimes: não será um caso isolado. A tendência é que data centers passem a integrar as listas nacionais de infraestrutura crítica, ao lado de usinas nucleares, oleodutos e redes elétricas, com proteção militar dedicada.

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"Da mesma maneira que instalações de infraestrutura crítica são protegidas por baterias antiaéreas, possivelmente no futuro próximo data centers também vão começar a entrar nessa lista de proteção", projeta Paz . "As empresas de tecnologia vão começar a pleitear também entrar nessa lista”.

Mortean aponta ainda uma possível reorganização estrutural do setor: diante desse cenário, pode surgir uma tendência de separar melhor os sistemas de armazenamento — data centers militares em áreas militares, estruturas civis destinadas exclusivamente a dados civis. Uma espécie de segregação digital com consequências físicas.

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