De 9h a 20 minutos de trabalho: nova IA promete 'liberar o tempo' de advogados
Por Bruno De Blasi |

Já pensou em realizar uma tarifa que duraria, normalmente, 9 horas em apenas 20 minutos? Essa é uma das promessas do novo CoCounsel Core, o novo assistente de inteligência artificial (IA) da Thomson Reuters com foco em departamentos jurídicos, que busca liberar “horas faturáveis” dos advogados.
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A aposta gira em torno do sistema que chegou ao Brasil recentemente, fruto de um investimento anual de mais de US$ 100 milhões em IA para criar chatbots e demais soluções para atender profissionais de setores específicos.
Ao Canaltech, o vice-presidente de Legal Professionals para a América Latina Rodrigo Hermida pontua que o Brasil possui um volume e grau de complexidade alto em comparação com outros países da região. Isso faz com que boa parte do tempo do advogado seja voltado para um trabalho manual e repetitivo.
Na visão do executivo, tarefas como fazer resumos e análises, extrair dados, rascunhar documentos, entre outras, podem ser facilmente feitas por ferramentas de IA. Assim, é possível “desbloquear” um “tempo valioso” para focar em atividades mais estratégicas.
Parte dessa promessa é garantida nas funcionalidades para buscar, analisar e comparar informações e documentos do CoConcil Core. Com interface similar ao ChatGPT, é possível anexar arquivos e enviar comandos (prompts) para buscar cláusulas específicas de contratos, por exemplo, e recebê-las em um texto corrido ou até mesmo em uma tabela equiparando cada ponto.
Hermida destaca, com base no uso diário de clientes, que há atividades com duração de sete a nove horas sendo concluídas em apenas 20 minutos com a tecnologia. Afinal, não é necessário ler documento por documento para encontrar detalhes, montar resumos, e afins.
No lugar, basta anexar os arquivos, preparar o prompt com a solicitação desejada, e enviar. Depois, como em outras IAs, a solução vai gerar a resposta após analisar os dados inseridos.
Essas informações ainda podem ser utilizadas posteriormente não apenas para consultas, mas para preparar rascunhos de contratos, petições, cartas e afins. Também é possível estruturar elementos gráficos, como linhas do tempo, para auxiliar equipes no trabalho do dia a dia.
Além do tempo, o executivo destaca que a solução reduz o risco de erro humano, uma vez que há menos desgaste da equipe no dia a dia da operação.
"Se você tem que ler vários documentos de centenas páginas cada para extrair o ‘core’ do contrato, próximos passos, prazos, e mais, o risco humano é alto”, exemplifica. “Não porque a pessoa vai cometer um erro, mas porque fica cansada depois de tanto trabalho.”
Veto às alucinações
Apesar de facilitar o trabalho no dia a dia, plataformas de IA generativa não são totalmente confiáveis. Afinal, desde a estreia do ChatGPT e de outros apps, como o Gemini, Perplexity e Claude, há registros de erros em retornos sobre notícias, pessoas e até alimentos.
Esse fator se torna ainda mais crítico ao considerar o uso profissional, especialmente em áreas sensíveis, como a jurídica. Neste sentido, o vice-presidente da Thomson Reuters explica que algumas preocupações foram levadas em conta para evitar episódios de “alucinação” e outras falhas em potencial.
Além de um time interno de advogados e especialistas que realizam testes e ajustes periódicos na ferramenta, o treinamento conta com uma curadoria de dados feita pela própria empresa. Clientes ainda conseguem integrar o seu repositório de documentos, a fim de “especializar” o CoCounsel Core nas necessidades do dia a dia do escritório.
A gerente de produto Patrícia Garro também destaca que há uma camada extra de configuração de prompts para “vetar” as respostas para que tenham um fenômeno de alucinação ou de criação espontânea. A ideia do ajuste é impedir retornos fora da documentação ou da informação que o usuário forneceu no prompt.
As notas de rodapé integram a lista de recursos para garantir mais segurança aos usuários. Neste caso, o chatbot dispõe um link que abre o documento usado como fonte e mostra o local exato de onde a informação foi extraída.
“Isso facilita que o cliente dê esse check, essa assinatura final, para vir e falar: ‘não, de fato essa informação aqui é verídica, de fato toda essa análise está respaldada na documentação que eu forneci para a plataforma’”, disse Garro.
O CoCounsel Core, cabe ressaltar, atua apenas como um assistente. Assim, de maneira similar a outras plataformas semelhantes, o advogado ou juiz é sempre o responsável pelas decisões finais.
Essa visão também foi compartilhada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, em uma palestra no Web Summit Rio sobre o uso de IA na corte. Na ocasião, ele destacou que “o juiz vai ser sempre responsável pela decisão” ao utilizar sistemas de inteligência artificial, ressaltando a importância de confirmar as informações antes de usá-las.
GPT-5
A similaridade com o ChatGPT vai além da interface: para processar e fornecer informações, a plataforma da Thomson Reuters utiliza a API da OpenAI, com acesso ao GPT-4o, GPT-4.1 e o GPT-5. “A ideia é migrar toda a atividade para o GPT-5, que é o que temos de mais novo hoje”, afirmou a gerente de produto.
Esses modelos operam “sob o capô” da ferramenta, e em conjunto conforme as necessidades para oferecer melhores soluções para leitura, gerar textos, e afins. A ideia é que a escolha da tecnologia ocorra de maneira transparente e automática, para que o usuário se preocupe apenas com a sua atividade, e não em selecionar a “melhor IA”.
Para garantir mais segurança, especialmente ao considerar que muitas das informações trabalhadas são confidenciais, o CoCounsel Core não retém dados para treinamento. Neste caso, os arquivos anexados são enviados apenas durante o uso do app, sem retenção para aperfeiçoamento.
A plataforma, no entanto, está disponível apenas para clientes corporativos.
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