Bloqueio do Claude Fable 5 acende alerta sobre dependência estrangeira
Por Bruno De Blasi | •

O Fable 5 foi lançado há menos de uma semana como a IA mais avançada da Anthropic já disponibilizado ao público. Mas tudo mudou na tarde de sexta-feira (12), quando o governo dos Estados Unidos suspendeu o acesso do novo modelo e do Mythos 5 a qualquer estrangeiro, ainda que o uso ocorra dentro do território americano.
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A justificativa apresentada pelo governo, sem muitos detalhes, foi a descoberta de um jailbreak. A Anthropic, porém, contesta, e ressalta que a vulnerabilidade é de alcance limitado e que a capacidade de identificar falhas em código já está disponível em outros modelos públicos.
Mesmo assim, a empresa acatou a ordem e removeu o Fable 5 do Claude de todos os usuários.
Em entrevista ao Canaltech, o diretor-executivo do ITS-Rio, Fabro Steibel, destaca que o episódio expõe um risco de disponibilidade e confirma uma suspeita de governos asiáticos, europeus e latino-americanos: usar uma infraestrutura de IA concentrada em empresas americanas é aceitar que decisões políticas dos EUA podem interromper seus sistemas sem aviso, sem explicação e sem recurso.
A base legal usada pelas autoridades foram os chamados controles de exportação, instrumentos que permitem restringir o acesso a tecnologias consideradas estratégicas. Normalmente aplicados a hardware, como chips, as medidas foram usadas agora diretamente contra um modelo de software, sem que o governo precisasse apresentar evidências técnicas verificáveis.
“Isso demonstra que não há garantia contratual que supere uma ordem de segurança nacional americana. A relação não é entre cliente e fornecedor, mas entre usuário e jurisdição estrangeira”, explica. “A continuidade do serviço é uma concessão, não um direito.”
O evento também reduz a confiança em garantias de continuidade. Dessa forma, em termos de investimento de longo prazo, especialmente em infraestrutura e contratos corporativos (B2B), isso passa a ser um risco concreto a ser considerado.
A falta de transparência é outro fator que agrava o problema. Sem saber qual falha foi explorada, a Anthropic não pode demonstrar que a corrigiu e terceiros não podem auditar se o bloqueio era necessário.
"O governo não precisa demonstrar que o jailbreak é replicável ou que o risco é iminente, basta invocá-lo sob o guarda-chuva de controles de exportação”, aponta Steibel. “Isso cria um precedente perigoso.”
Uma nova fase da guerra
O bloqueio ao Fable 5 e ao Mythos 5 é mais um capítulo dentro de uma disputa tecnológica global, protagonizada pelos Estados Unidos e China. Por anos, a estratégia americana foi cortar progressivamente o acesso do país asiático aos componentes necessários para o desenvolvimento de IA, com destaque aos chips de alta performance da NVIDIA.
A estratégia, no entanto, mostrou-se insuficiente. Com o passar do tempo, a China encontrou caminhos alternativos e preparou tecnologias próprias e modelos com custos reduzidos. Entre os destaques, estão os chips da Huawei, com direito a uma nova abordagem para o desenvolvimento, e o DeepSeek, que se destacou no começo de 2025.
Para o professor da FGV Direito Rio, Filipe Medon, esse fator forçou uma mudança de abordagem: se bloquear o acesso ao hardware não impediu o desenvolvimento de modelos próprios, a nova fronteira passa a ser impedir que cidadãos estrangeiros acessem diretamente as tecnologias americanas de alta capacidade.
Essa disputa também atinge outros campos. É o caso da tentativa frustrada da Meta de adquirir a Manus AI, que foi contestada pelo governo chinês, mais um sinal de que a briga pelo controle de modelos de ponta ultrapassou os limites do mercado.
Atualmente, o Mythos, considerado “perigoso” pela própria Anthropic, está no centro dessa disputa. Trata-se de um modelo com capacidade de identificar vulnerabilidades em código em escala industrial, com impacto direto em sistemas bancários e de defesa, o que preocupa Washington.
"Quem tem acesso a essas ferramentas consegue, de uma forma nunca antes vista, ter um domínio quase total sobre outro país", diz o professor da FGV. “É parte disso, dessa disputa geopolítica e pela segurança internacional.”
Brasil e América Latina no meio do campo
Para o Brasil e a América Latina, o episódio funciona como um argumento concreto a favor da soberania digital. Os desafios, no entanto, são enormes, uma vez que a região segue atrás em relação às grandes potências, e o tempo perdido pesa.
Em 2024, o governo brasileiro anunciou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, com investimentos previstos de R$ 23 bilhões. Os especialistas reconhecem o esforço, mas avaliam o valor como insuficiente.
“R$ 23 bilhões é um valor relativamente alto, mas não é nada para um país que está começando praticamente do zero", diz Medon. Para contextualizar, o investimento privado americano em IA chegou a US$ 285,9 bilhões em 2025, mais de 60 vezes o valor previsto no plano brasileiro, Segundo a pesquisa AI Index da Universidade de Stanford.
Já Steibel aponta que muito do que está previsto no plano brasileiro ainda é investimento em tecnologia americana, o que não resolve o problema de fundo.
No plano regional, o Chile saiu na frente. Em fevereiro, o governo chileno lançou o Latam-GPT, coordenado pelo CENIA, com dados localizados em espanhol, incluindo decisões judiciais argentinas, acervos peruanos e materiais educacionais colombianos. Para o diretor-executivo do ITS Rio, é o esforço mais concreto da região em modelo de linguagem nativo até agora.
O professor da FGV Direito Rio também chama atenção para outro gargalo frequentemente ignorado: a retenção de talentos. Afinal, de nada adianta investir em infraestrutura se os profissionais capacitados para desenvolver IA continuam migrando para empresas americanas e europeias.
Para ele, o objetivo não é recusar tecnologia estrangeira, mas construir autonomia de escolha. "Soberania é você ter autonomia, é você ser capaz de escolher qual tecnologia vai usar de maneira soberana, sem essa dependência de só usar de um único país”, pontua Medon.
Open source é a saída?
Modelos de código aberto surgem como a alternativa mais imediata para países que buscam reduzir a dependência de APIs estrangeiras. Llama, da Meta, Mistral, da França, e DeepSeek, da China, podem ser usados como base para fine-tuning local, sem depender de nenhuma empresa estrangeira para operar.
Essa pode ser uma saída real. Contudo, Steibel observa que há um limite claro: a solução resolve o problema de disponibilidade, não o de capacidade. Um modelo open source pode estar sempre acessível, mas nem sempre chegará ao nível de fronteira do Mythos, por exemplo.
“O projeto de cloud soberana do governo brasileiro, se executado, permite hospedar modelos open-weight em infraestrutura nacional. Isso resolve o problema de disponibilidade, não o de capacidade de fronteira”, explica.
Medon reconhece a utilidade dos modelos abertos, mas pondera sobre a capacidade de cada país de desenvolver em cima dessas bases.
"Os modelos open source são úteis porque permitem que você vá construindo coletivamente. Mas, no fundo, não sei até que ponto isso é determinante para o país efetivamente conseguir superar uma dependência estrangeira. Ajuda, mas não acho que seja uma bala de prata que vai acabar com todos os problemas”, conclui.