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Tartarugas carregam marcas de testes com armas nucleares da Segunda Guerra

Por| Editado por Luciana Zaramela | 24 de Agosto de 2023 às 14h06

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Vecstock/Freepik
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Longevas e quase sempre discretas, as tartarugas são um verdadeiro documento vivo dos experimentos com armas nucleares feitos nos Estados Unidos, durante o século XX. É o que revela estudo liderado por pesquisadores da Universidade do Novo México, após analisarem a composição dos cascos de quelônios encontrados no meio-ambiente.

De forma parecida com os anéis das árvores, os cascos das tartarugas crescem em camadas, o que faz deles uma espécie de reservatório de informações ambientais sobre os locais onde os animais cresceram. Entre os materiais que podem integrar essas camadas de queratina, estão os radionuclídeos, como urânio-235 e urânio-236, liberados por armas nucleares. As taxas são baixas ao ponto de não impactarem diretamente a saúde dos animais, sendo registros, ou seja, assinaturas de urânio.

Áreas de testes com armas nucleares

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"Globalmente, existem inúmeras áreas potenciais para investigar a bioacumulação de radionuclídeos em quelônios”, afirmam os autores do estudo. “Ao longo da Guerra Fria do século XX, os EUA desenvolveram um grande complexo de armas nucleares, envolvendo vários locais em todo o país dedicados à produção de materiais físseis e outros materiais para armas nucleares a partir de urânio natural”, acrescentam sobre o ponto de partida da pesquisa, publicada na revista PNAS Nexus.

Naquela época, pouco se sabia sobre a capacidade de contaminação ambiental gerada por esses materiais. Tanto é que, hoje, é estimada a existência de de 30 e 80 milhões de metros cúbicos de solo contaminado, e entre 1,8 e 4,7 mil milhões de metros cúbicos de água contaminada provenientes de atividades nucleares nos EUA.

Entre esses vestígios da atividade bélica, “o urânio representa um componente importante da contaminação associada a estes legados da produção de armas nucleares da Guerra Fria”, pontuam os cientistas. Afinal, esses têm uma meia-vida bastante longeva, ainda mais que a das tartarugas.

Locais de pesquisa com tartarugas nos EUA

"Nossa análise se concentrou em espécimes de quelônios de áreas que potencialmente acumularam urânio antropogênico através de precipitação e/ou resíduos nucleares”, afirmam os autores.

Nessa linha de corte, foram considerados os cinco seguintes locais de pesquisa:

  • Sudoeste do estado de Utah, nos EUA;
  • Um campo de bombardeio das forças militares, no Arizona;
  • Trecho do Rio Savannah, na Carolina do Sul;
  • Reserva Oak Ridge, no Tennessee;
  • Atol Enewetak, nas Ilhas Marshall — embora o ponto seja no Oceano Pacífico, durante o período em que esteve sob o domínio dos EUA, a região era utilizada em testes com armas nucleares.
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Descoberta de urânio no casco das tartarugas

A atual pesquisa se limitou ao estudo de poucos exemplares de tartarugas (5), mas as descobertas confirmam a existência dos vestígios dos testes com armas nucleares nos animais. Por exemplo, a casca de uma tartaruga encontrada no Tennessee continha uma assinatura de urânio em seus anéis de crescimento entre 1955 e 1962. O período coincide com a “liberação” aérea de urânio na região.

No entanto, os achados nas Ilhas Marshall — onde ocorreram mais de 65 testes nucleares entre 1946 e 1958 — são ainda mais interessantes, porque não envolvem a contaminação direta. O casco de uma tartaruga jovem, encontrada em 1978, apresentava assinatura de urânio, mesmo tendo nascido depois das explosões. Neste caso, a suspeita é que a região ainda estava contaminada, o que permitiu a absorção.

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Da mesma forma como urânio foi encontrado, os pesquisadores sugerem que, em estudos futuros, sejam investigados outros tipos de radionuclídeos antropogênicos, como plutônio-239, césio-137 e estrôncio-90. A hipótese é que estes também se acumulam nos tecidos e podem ajudar a traçar um panorama mais preciso dos impactos das armas nucleares na natureza. Por exemplo, em Fukushima, no Japão, as cobras que sobreviveram na região do acidente nuclear foram usadas para fazer o mapeamento ambiental.

Fonte: PNAS Nexus