Entenda como foi e por que o dia virou noite em São Paulo na segunda (19)

Por Patrícia Gnipper | 20 de Agosto de 2019 às 14h19

A tarde da última segunda-feira (19) proporcionou um céu digno de filmes distópicos e apocalípticos em São Paulo, capital: de repente, as nuvens ficaram escuras e densas, e a cidade precisou acionar sua iluminação artificial já antes mesmo das 16h. Usar a palavra "pânico" seria um exagero, mas é fato que a população ficou espantada com o fenômeno, que de natural não teve muita coisa: isso aconteceu como consequência de dias seguidos de queimadas na região amazônica.

E quem afirma isso não somos nós, são os meteorologistas: Helena Balbino, do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), explica que tudo aconteceu como consequência de massas de ar vindas de localizações variadas, incluindo ventos do Sudeste e do Norte, o que "fez com que São Paulo estivesse imersa em uma nuvem com muitas partículas poluentes". Traduzindo: as nuvens que causaram o breu paulistano em plena tarde de segunda-feira foram resultado de excesso de poluição.

Foto incrivelmente tirada por volta das 16h em São Paulo na segunda-feira (Foto: Victor Hugo Borges)

Mas estamos falando da poluição normal da maior cidade do Brasil? Também não. Segundo especialistas do Climatempo, essa poluição extrema e inesperada foi proveniente das queimadas que estão acontecendo na região amazônica nos últimos dias, em especial nos estados do Acre e Rondônia, com a fumaça enfim chegando a São Paulo pela ação dos ventos, contribuindo para com a formação dessas nuvens escuras assustadoras.

E Josélia Pegorim, meteorologista do Climatempo, garante: "a fumaça não veio de queimadas do estado de São Paulo, mas sim de queimadas muito densas e amplas que estão acontecendo há vários dias em Rondônia e na Bolívia; a frente fria mudou a direção dos ventos e transportou essa fumaça para São Paulo".

Entendendo o fenômeno mais a fundo

De acordo com o Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE), a soma de fatores como o tempo úmido e a entrada de ar de origem polar fez com que as temperaturas caíssem moderadamente desde as primeiras horas da madrugada de segunda na capital paulista e, segundo o INMET, ao unir o fenômeno natural da frente fria e úmida com o fenômeno causado pelas queimadas amazônicas, o resultado foi, então, o céu escuro digno do Mundo Invertido na cidade.

"O material particulado, oriundo da fumaça produzida por esses incêndios silvestres de grande porte, conjugado com o ar frio e úmido que está no litoral de São Paulo, causou a escuridão", afirma Franco Vilela, meteorologista do INMET. E, para piorar, a cidade "está dentro de uma nuvem" por conta da atuação de duas massas com temperaturas diferentes. “Isso acontece por conta dessa convergência de massas tão diferentes. A frente fria da capital, junto com as temperaturas amenas que vêm do oceano e do vento quente do interior, provocam essa turbulência e isso baixou o nível da nuvem. Assim, nós estamos dentro de uma nuvem," reforça Balbino.

Já no final de semana, a direção dos ventos estava levando a fumaça em direção ao sul do Brasil. Com a chegada da frente fria ao Sudeste, a fumaça começou então a ser direcionada para o estado de São Paulo, também de acordo com informações do Climatempo.

Outra imagem tirada em São Paulo por volta das 16h no mesmo dia (Foto: Alex Silva/Estadão Conteúdo)

Além da capital paulista, em muitas áreas do interior do estado também foi possível notar uma redução na visibilidade no horizonte, com o céu ficando acinzentado ou em tons amarronzados e amarelados, por conta do mesmo motivo que fez o céu da capital ficar preto no meio da tarde. O Climatempo explica que o vento das camadas mais elevadas da atmosfera (entre 100 metros e 500 metros de altitude) mudou de direção com a passagem da frente fria, fazendo com que a fumaça proveniente da região amazônica fosse direcionada ao Sudeste, também impactando algumas áreas na região sul de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, chegando até mesmo ao norte do Paraná, onde o céu foi tomado por fumaça visível também na segunda-feira.

Satélites registram tudo o que aconteceu

O satélite Terra/MODIS, da NASA, acompanha as mudanças meteorológicas de todo o mundo, incluindo o Brasil. Por meio de imagens registradas por este satélite na segunda-feira, podemos ver uma cama de fumaça concentrada no extremo sul do Brasil já no dia 17 de agosto, avançando em direção ao Mato Grosso do Sul e ao Paraná no dia seguinte, passando, então, por São Paulo no dia 19. "Repare que a camada de fumaça também se espalhou sobre partes de Minas Gerais e do Rio de Janeiro", aponta Pegorim.

Pluma de fumaça saindo de Rondônia e da Bolícia em direção ao Sul do Brasil no dia 17 de agosto
A camada de fumaça se espalhando em direção ao sul do Brasil no dia 18 de agosto
Aqui vemos a fumaça avançando sobre São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul no dia 19

E também em imagens obtidas por meio do Terra/MODIS, é possível ver a nebulosidade natural do período e a fumaça causada pelas queimadas, que não se confundem nas imagens. "As nuvens são mais densas, com volume, espessas e mais brancas. Já a fumaça aparece como um véu uniforme, em geral fino, com transparência. Em algumas áreas é possível ver a camada de fumaça sobre nuvens", explica Pegorim.

Aqui vemos quatro nuvens de fumaça sobre São Paulo no dia 19 de agosto

Sendo assim, mesmo a milhares de quilômetros de distância, os paulistanos viram no céu (e sentiram "na pele") o que as populações de estados como Acre, Rondônia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará e Maranhão já estão sentindo por semanas consecutivas durante o inverno, em especial no fim da estação, período em que as queimadas costumam se intensificar e acabam se alastrando pelo país. "Não chove, o ar fica muito seco e quase sem nuvens, mas não se vê o azul do céu, só o amarelado da fumaça e o Sol escondido por ela", explica Pegorim, que reforça o seguinte: "tudo isto é comum nesta época do ano nestes estados antes de recomeçar a chover, mas, em 2019, o número de focos de fogo no Brasil é o maior em 5 anos".

Sendo assim, o "céu apocalíptico" avistado em São Paulo é fruto da ação irresponsável do próprio Homem, e devemos aproveitar o momento do susto para refletir sobre como estamos tratando nosso planeta, e as consequências disso para nós mesmos, inclusive. Basta olhar para cima para ver como nós estamos alterando o meio ambiente e causando danos ao único planeta onde a vida floresceu — até onde podemos afirmar com certeza científica.

A imagem do dia 19 mostra manchas vermelhas no mapa, onde há alta concentração atmosférica de monóxido de carbono, indicando queimadas em andamento (Imagem: Windy.com)

*Com informações de G1 e Climatempo

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