Digitalização e o futuro das cidades

Por Peter Cabral | 20 de Outubro de 2020 às 10h00
Unsplash / @sakethgaruda

Em poucos dias, os brasileiros irão assinar o contrato social. Isso acontece ao votar. Entre direitos e deveres, o eleito também terá que garantir o princípio básico de ir e vir, previsto na política nacional de mobilidade urbana. Desde 2012 está em vigor a Lei 12.587 (lei da Mobilidade), que vale para municípios com mais de 20 mil habitantes. Planejamento técnico e execução de políticas públicas resultam no desenvolvimento humano e crescimento ordenado da cidade.

A ONU determinou que este é o século urbano.  Cerca de 85% dos brasileiros vivem em cidades, sendo que Rio de Janeiro e São Paulo são megacidades, com mais de 10 milhões de habitantes. Os desafios de áreas populosas são imensos. 

Uma metodologia recomendada pela Singularity University para encontrar soluções sustentáveis é conhecida por STEEP, composta por 5 pilares: social, tecnológico, econômico, ambiental (environmental) e político. Vamos analisar a digitalização das cidades brasileiras seguindo esses critérios:

Social: o custo do transporte é cerca de 10% do salário mínimo. Faltam conforto e eficiência. A aplicação de tecnologias exponenciais e utilização de métodos nativos à data Science podem melhorar a experiência do usuário do transporte coletivo. Há muitas oportunidades num país onde existem mais chips de celulares do que pessoas. O Bilhete Único, em São Paulo, é um exemplo: a catraca de um ônibus é a representação perfeita do mundo analógico.

Tecnológico: as cidades foram criadas num mundo analógico e linear. A digitalização é o caminho de transformação para o global e integrado. O Brasil saiu na frente com o Marco Civil da Internet e, agora, com a vigência da Lei Geral de Proteção de Dados. Há previsões legais que protegem o cidadão – começam-se a esboçar regras quanto à comercialização de dados sem autorização, o que essencialmente permite prover dividendos a quem de direito. Será esta uma modalidade futura de UBI (Universal Basic Income)?

Uma revolução está por vir: 5G. Para reduzir investimento inicial, o Brasil terá uma primeira fase usando espectro 4G. As relações B2B, B2C e B2G serão radicalmente transformadas. Maior velocidade, com latência muito menor, permite que o real e o virtual se conectem de forma disruptiva.

Parcerias Públicos Privadas direcionadas para semáforos, iluminação pública e estacionamentos eletrônicos propõem receita acessória sobre investimentos em sensores e geração/transmissão de dados. O sistema deve oferecer contrapartidas à prefeitura. Enquanto isso, a empresa operadora da plataforma de big data também tem retorno financeiro com esse serviço. A capilaridade da infraestrutura smartcell e comunicação M2M (Machine to Machine) viabilizam isso.

Econômico: Reciclar não é suficiente. Produtos devem ser criados para serem readaptados, gerarem novos negócios e serviços. Isto representa uma oportunidade única para o design thinking, já que o mesmo defende processos estratégicos no desenvolvimento de novos conceitos. A relação das pessoas com bens está mudada. Não é preciso ser dono, basta ter acesso. Prova disso é o sucesso dos sistemas de bicicletas e patinetes compartilhados.

Pessoas desbancarizadas usam aplicativos para conseguir o sustento. Os conceitos de donut economy, care economy e green economy propõem inclusão social, uso inteligente de recursos e baixa emissão de carbono. Para além do equilíbrio entre o econômico, o social, o ambiental e governança com foco no bem-estar. Esses conceitos foram criados a partir dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, aderidos subsequentemente por países escandinavos. Em 2020, foi a vez de Amsterdã adotar este sistema de gestão pública.

Ambiente: o desafio está muito mais relacionado à incapacidade de usar o que está disponível na natureza do que com a escassez. Para se ter uma ideia, a cada 88 minutos o sol banha a Terra com 470 EJ de energia. Isso é suficiente para suprir todas as atividades humanas por um ano. Como aproveitar essa energia com eficiência?

O planeta Terra é coberto por água. Com tecnologia é possível torná-la útil para nossas necessidades e chegar a todas as áreas povoadas. O último XPrize promovido pelo Peter Diamandis, fundador da SU, foi relacionado a soluções para aliviar a crise hídrica. Era necessário retirar 2 mil litros de água da atmosfera por dia. Descobriu-se que é relativamente simples e barato executar essa missão. 

O XPrize 2020 propõe calcular o valuation da biodiversidade da Amazônia. Só assim será possível entender o impacto financeiro da redução do tamanho da floresta, que cobria 14% do planeta e hoje não passa dos 6%.

Político: o Estado deve ser empreendedor. Cabe ao poder público criar um ambiente normativo para que existam ferramentas legais robustas que impulsionem o desenvolvimento e crescimento econômico. É essencial facilitar pesquisas e novas tecnologias. Cabe ao privado se aproximar de causas ancoradas em valores ESG, além de construir, operar e transferir infraestrutura. Ao fim de uma concessão, o privado devolve ao público os ativos de forma compliant.

Existe a percepção errada de que a PPP privatiza o lucro e socializa o risco. Governos e empresas devem trabalhar juntos, cada um atuando no que faz melhor. 

O momento que se apresenta hoje é verdadeiramente VUCA, ou seja, volátil, incerto, complexo e ambíguo. Mais do que nunca, público e privado devem ser agentes de mudança na construção de um legado. Parece muito, mas não será este apenas o cumprimento do contrato social para um mundo próspero, com abundância para todos?

*Artigo produzido por colunista com exclusividade ao Canaltech. O texto pode conter opiniões e análises que não necessariamente refletem a visão do Canaltech sobre o assunto.

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