BTS World | Como a Netmarble conseguiu unir games e K-Pop

Por Rafael Arbulu | 24 de Junho de 2019 às 12h00
(Imagem: Divulgação/Netmarble)

Afirmar que o grupo sul-coreana BTS, o mais recente fenômeno do K-Pop, é de um sucesso desmedido e sem precedentes é, a essa altura, uma redundância: em maio, Jin, J-Hope, V, RM, Jimin, Jungkook e Suga realizaram um show no Allianz Parque, em São Paulo, para um público que, segundo relatos da imprensa especializada, excedeu 40 mil pessoas — sendo que uma parcela dessa audiência estava acampada no estádio desde fevereiro, três meses antes.

No Instagram, o grupo conta com 19 milhões de seguidores e diversos comentários em bom português, elogiando desde a música até a aparência dos meninos; no YouTube, embora o canal seja da gravadora Big Hit (dona dos direitos de marca e transmissão do grupo), são cerca de 27 milhões de inscritos — a maior parte das visualizações, em clipes e vlogs do BTS. Assim como Justin Bieber tem as suas beliebers, o BTS conta com as A.R.M.Y (sigla para Adorable Representative M.C of Youth).

Com um fandom extenso e globalizado, era questão de tempo até que o grupo aparecesse em outras mídias. E assim aconteceu: em abril deste ano, a produtora sul-coreana de jogos mobile Netmarble investiu cerca de US$ 190 milhões na gravadora Big Hit, adquirindo cerca de 25% da propriedade do selo. Na mesma ocasião, a empresa anunciou a produção de um jogo para tablets e smartphones com foco no maior grupo K-Pop da atualidade e o batizou de BTS World.

Na última semana, tivemos a oportunidade de conversar com a equipe americana da produtora — Simon Sim, presidente; Joon Yoon, diretor de marketing; Chastity Irizarry, chefe de relações públicas; e Travis Marshall, líder de projetos — para conhecermos um pouco do histórico que os levou ao jogo, bem como o que esperar da empresa e seu portfólio para o futuro.

A primeira pergunta foi a mais óbvia: como se deu a relação entre a empresa e os membros do grupo, bem como o envolvimento deles no desenvolvimento do jogo, e como se deu o processo de desenvolvimento? “Se você ver os nossos jogos, nós sempre estamos tentando inovar para tentar trazer novas experiências para os jogadores”, explica Simon Sim. “Tivemos a oportunidade recente de nos encontrarmos com o BTS e achamos que a sua música e nossa expertise em jogos dariam uma boa combinação”.

O líder de projetos Travis Marshall ecoa esse discurso, mostrando como as duas mídias conseguem atuar em conjunto: “Acho que o simples fato de eles nos ajudarem com o desenvolvimento deste jogo nos mostra que eles estão abertos a permitir ramificações da marca e, baseado no resultado final desse produto, todos estão muitos satisfeitos, o que é um indício de que eles devem continuar com esse pensamento de diversificação”.

(Imagem: Divulgação/Netmarble)

O projeto que viria a se tornar o jogo BTS World começou, segundo os executivos, há cerca de dois anos e meio. Entre 2016 e 2017, a produtora sul-coreana estava bem no meio do seu processo de IPO (initial public offering, os primeiros passos para abertura de capital e ingresso na bolsa de valores). A fim de elevar seu valor de mercado, ela começou a olhar para outras mídias e para onde pudesse direcionar seu portfólio: o resultado disso foi a segunda maior IPO da Coreia do Sul, levantando US$ 2,3 bilhões. Eles não confirmam, mas é provável que os relacionamentos com a Big Hit, dona do BTS, tenham começado nessa época.

“A Netmarble estava procurando por coisas diferentes para fazer, então o período foi passando e, eventualmente, adquirimos 25% da Big Hit em um investimento recente, mas o desenvolvimento do jogo começou antes disso”, explica o relações públicas Chastity Irizarry. “No começo de tudo, não tínhamos muita certeza se o projeto seria relacionado ao BTS, mas isso acabou se confirmando depois”.

(Imagem: Divulgação/Netmarble)

O jogo

Devido ao embargo posicionado pela produtora, a nossa demonstração foi hands off, ou seja, vimos o material sendo jogado em um iPad pelas mãos de Travis. Entretanto, por meio da assessoria de imprensa da Netmable no Brasil, conseguimos obter trailer, vídeo de gameplay e imagens promocionais que ainda não foram divulgadas. O material está espalhado por toda nossa matéria.

O mais interessante de BTS World é o fato de que todos os estímulos visuais que o grupo de K-Pop usa em seu trabalho musical são muito bem traduzidos aqui. Para quem viu shows e clipes dos meninos, é muito fácil reconhecer o volume de cores e as características de identidade visual que saltam aos olhos do jogador.

“Essencialmente, esse jogo é um ‘jogo do BTS’, então trabalhamos muito próximos da Big Hit para podermos entregar uma experiência que traduzisse de forma autêntica para os fãs a real sensação de se conviver com eles. Aproveitamos no jogo toda a estética visual que eles usam na vida real”, explica Simon.

O jogo em si traz a premissa de que você, como jogador, é uma espécie de “agente” ou empresário do BTS, sendo responsável por gerenciar a carreira dos integrantes do grupo, passando por diversas épocas da vida de cada um. Joon Yoon e Chastity Irizarry explicam que o game vai se ambientar em uma longa linha do tempo da boyband, o que justifica a tratativa inicial do BTS como um grupo ainda a ser reconhecido no cenário, no início do jogo (meados de 2012, segundo Chastity).

Nesse ponto, há diversas quests para serem cumpridas, a maioria direcionada à boa convivência do grupo com você, enquanto funcionário deles; bem como deles com a mídia e fãs. Chastity explica que interações com os membros do grupo dentro do jogo irão desde a versão da Netmarble para o FaceTime com eles até pequenas perguntas sobre características e personalidades de cada um. “Se você, por exemplo, errar a data de aniversário de Jin, ele ficará chateado e isso vai se refletir de alguma forma dentro da partida”, Chastity explica.

(Imagem: Divulgação/Netmarble)

Embora o progresso do jogo pareça simplista, há momentos em que você terá de ter um pensamento mais estratégico para escapar de situações estranhas: um exemplo que vemos no vídeo abaixo (em inglês, com tradução simultânea da assessoria de imprensa da Netmarble no Brasil), o grupo pensa ter sido contratado para um teste, mas foi enganado pelo produtor de uma televisão e o “evento”, na verdade, é a festa de aniversário de sua sobrinha. Você, como gestor do BTS, deverá decidir qual a melhor forma de abordar essa situação. Ao seguir com o enredo, um vídeo exclusivo pode ser destravado e assistido.

Vale citar: BTS World traz fotos e vídeos exclusivos do grupo, indisponíveis em qualquer outro lugar. “Nós mostramos teasers desse conteúdo para a mídia e nos nossos materiais promocionais, mas o jogo contará com 10 mil fotos e 100 vídeos que serão exclusivos dele, e somente quem fizer o download poderá destravá-los durante a partida”, explica Simon.

Há também recursos de customização dos personagens, já que você, como o empresário e gerente deles, decidirá coisas como suas dietas, seus horários para ensaios e até mesmo suas roupas e estilos de vestuário. Mais além, a personalização que você fizer em qualquer um dos membros do grupo, será a forma como ele será representado por todo o enredo. Também há uma minirrede social desenvolvida para o jogo, onde você poderá interagir com os avatares dos membros do BTS, além de ver as ramificações das reações deles no dia a dia.

Um ponto interessante é que BTS World conta com pequenos episódios à parte do jogo principal. Yoon explica que essas são pequenas histórias desenvolvidas em conjunto com o grupo, onde são abordados tópicos do que cada um seria se o BTS não existisse: “um dos meninos, por exemplo, disse que, se não fosse membro do BTS, trabalharia em hotéis, pois tem muito interesse em turismo e hotelaria. Então criamos esses episódios alternativos para que fãs possam fazê-los transitar por outras vidas também”, conta Yoon.

(Imagem: Divulgação/Netmarble)

A influência do Brasil pesou no desenvolvimento de BTS World, segundo a equipe. Simon disse que o jogo chega aos marketplaces digitais em 13 diferentes idiomas, mas que o português brasileiro foi uma demanda quase que obrigatória: “Nós definimos nossos jogos móveis por audiências de território e consideramos a abrangência das ‘armies’, as fãs de BTS. Pensando nesses dois pilares, nós tomamos a decisão de localizar o jogo para o português do Brasil, além de outros 12 diferentes idiomas”. ele conta. “Estamos muito cientes de como as fãs de BTS podem ser no Brasil, vimos o show que eles fizeram aqui, foi tudo muito espetacular. O fandom brasileiro certamente influenciou na nossa decisão na localização do jogo”, ele completa, em meio a risos.

(Imagem: Divulgação/Netmarble)

Falando um pouco sobre negócios, relatos da imprensa sul-coreana indicam que as empresas que desenvolvem jogos mobile estão, como reflexo de seu crescimento, começando a olhar para outras plataformas para levar seu portfólio. Questionado sobre ser essa a intenção da Netmarble, Travis foi enfático: “Sim, eu vejo isso em nosso futuro”. Segundo ele, a questão do cross platform é uma tendência de mercado que a empresa está de olho, e que eventuais ports de jogos já consagrados da empresa, ou mesmo novos desenvolvimentos, podem sim seguir esse rumo. “Não sei dizer se esse jogo em si — BTS World — será um desses projetos, mas nos parece sim que esse será o caminho a tomarmos”. A saber, Project M e Seven Knights são dois projetos revelados pela empresa para o Nintendo Switch.

Por ora, BTS World se mantém exclusivo para smartphones e tablets, mas Simon já adiantou que a Netmarble está preparando episódios extras e novos conteúdos para atualizar o jogo, esticando a sua vida útil.

BTS World tem lançamento marcado para 25 de junho na Play Store e App Store.

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