O futuro da Web está em nossas mãos

O futuro da Web está em nossas mãos

Por Colaborador externo | 25 de Outubro de 2019 às 07h00
Reprodução

*Por Vagner Diniz

A Web foi criada em 1989 por Tim Berners-Lee, regida por princípios como direito a uma Web livre, aberta e verdadeiramente global, segura e colaborativa. Hoje, 30 anos após sua criação, esses princípios estão cada vez mais distantes de sua concepção original, o que se tornou uma preocupação para membros do setor acadêmico, governamental, empresarial e toda a sociedade.

Como criador da World Wide Web, Berners-Lee não aprecia o rumo que ela está tomando nem o uso que está sendo feito dela. É como a criatura rebelando-se contra o criador, é como filhos rejeitando os princípios dos pais. Para ele hacking e assédio on-line; recompensa financeira por cliques como likes; e discussões agressivas e polarizadas como linchamentos virtuais revelam uma faceta perversa da Web controlada por corporações.

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Com o advento e popularização das redes sociais, por exemplo, observamos o fenômeno dos “jardins murados”, que são ambientes controlados por corporações privadas, que oferecem uma gama de serviços e produtos para os usuários, restringindo e controlando o que as pessoas acessam nesse tipo de plataforma. Essa questão é bastante preocupante no Brasil, onde 75% dos usuários de Internet acessam as redes sociais, o que representa 95,5 milhões de pessoas, segundo a pesquisa TIC Domicílios 2018, divulgada anualmente pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil.

Além da questão dos jardins murados, precisamos pensar também em como o desenvolvimento de tecnologias como Inteligência Artificial, Aprendizado de Máquina, Realidade Virtual e Internet das Coisas impactam usuários no mundo todo. Se a Web tem sido extremamente importante para o desenvolvimento da Inteligência Artificial ao fornecer uma gigantesca massa de dados para o processo aprendizado de máquina, as novas tecnologias geram maior circulação de dados pessoais na Web, o que aumenta a preocupação em como, por quem e com que fim esses dados estão sendo utilizados.

Seria possível implementar ética no algoritmo. Em princípio, os próprios dados não são enviesados, mas a coleção deles pode sim gerar tais resultados. As decisões tomadas pelas máquinas e algoritmos devem ser sempre supervisionadas, principalmente quando há a lógica do ponto de retorno, quando a decisão a ser tomada pela máquina, se torna uma decisão moral.

Hoje, discutimos como queremos que a Web seja no futuro. Berners-Lee lidera um movimento na Web Foundation, que propõe como alguns setores da sociedade deveriam agir para realmente termos uma Web livre, segura e para todos. O Contrato para a Web é um pacto proposto pelo criador da Web que reforça a necessidade de governos e corporações garantirem que todos tenham acesso à Internet em igualdade de oportunidades, a um preço justo, preservando a privacidade dos usuários.

Mas quando os princípios originais da Web começam a ser minados, o que podemos esperar da Web no futuro? A inovação ainda é permitida? A colaboração se mantém?

O ponto que Berners-Lee levanta é importantíssimo, pois a Web é um espelho da sociedade e a preocupação com os princípios que a fundamentam é, na verdade, uma preocupação com o mundo em que vivemos hoje.

Mas, toda obra que se torna pública e universal, como a Web, ainda é de certa forma do seu criador. Por isso Berners-Lee tomou a iniciativa de criar o manifesto. Aos cidadãos de todo mundo e com acesso à Internet, ele pede que tenham o comprometimento de ser criadores e colaboradores da rede, ajudando a reproduzir as mais diversas e plurais comunidades virtuais que respeitem a dignidade humana e que, de alguma forma, lutem para que a Web continue aberta. Junte-se a esse movimento!

O caminho que a Web vai trilhar está em nossas mãos. Para isso, é necessário fomentar e discutir cada vez mais os desafios e oportunidades dessa tecnologia. A Conferência Web.br é um desses espaços de discussões. O encontro será realizado em São Paulo nos dias 30 e 31 de outubro pelo Centro de Estudos Sobre Tecnologias Web (Ceweb.br) do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), com apoio do W3C Brasil, e busca justamente reunir especialistas e interessados no assunto.


*Vagner Diniz é gerente do Centro de Estudos sobre Tecnologias Web (Ceweb.br) do NIC.br, e do escritório do W3C Brasil.

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