Kendra: a Amazon se prepara para competir com o Google nas buscas?

Por Rui Maciel | 05 de Dezembro de 2019 às 14h50
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Pode ser alguma coisa. Pode não ser nada. Mas o fato é que quando você conhece o Kendra, algo nele te chama a atenção. Isso porque essa plataforma de pesquisa corporativa desenvolvida pela Amazon Web Services (AWS), baseado em aprendizado de máquina, traz recursos bem interessantes, a ponto de deixar uma pulga atrás da orelha para quem viu a plataforma em funcionamento. E a pergunta é quase inevitável: estaria a Amazon ensaiando - ou dando os primeiros passos - para entrar em uma briga com o Google na área de buscas?

Considerando que este é um setor em que o Google tem, praticamente, o monopólio (pouco mais de 92% da participação de mercado no mundo), é desnecessário dizer que, em caso de resposta afirmativa, trata-se de uma briga inglória. Mas, se existe alguma empresa com cacife para entrar nessa disputa, essa é a Amazon. Afora o caixa generoso, a empresa de Jeff Bezos já mostrou a sua força: nos EUA, a companhia já bate o próprio Google quando o assunto são buscas por produtos. E esse volume absurdo acontece apenas a partir do próprio site da Amazon, ou seja haveria ainda um campo gigantesco internet afora a ser explorado. Além disso, uma pesquisa da eMarketer aponta que a Amazon já tem 12,9% de marketshare nas receitas geradas por anúncios em mecanismos de buscas, ocupando a segunda colocação do ranking, a frente de Microsoft (6,5%) e Yahoo! (2%) e atrás, claro, da Big G, que possui 73,1%.

Logo, vocês entenderam porque, ao olharmos o Kendra em funcionamento, ficamos, no mínimo, encucados?

Como o Amazon Kendra funciona?

O Amazon Kendra foi apresentado na última terça-feira (03), durante o Re: Invent 2019, maior evento de cloud computing da AWS, que acontece essa semana em Las Vegas e que o Canaltech* acompanha ao vivo. Como explicamos no começo dessa matéria, trata-se de um serviço de pesquisa corporativa desenvolvido com machine learning e com recursos de busca baseados no idioma natural. Em um primeiro momento, a plataforma pode ser usada para sites e aplicativos (de fabricantes de smartphones ou um e-commerce, por exemplo) e faz com que usuários que estejam pesquisando por informações finais dentro de páginas de empresas específicas possam encontrar com mais facilidade as informações de que precisam.

Dentre os principais benefícios do Kendra, o usuário poderá fazer perguntas no idioma natural, obtendo respostas imediatas. Inclusive, a linguagem natual pode ser usada para que o visitante da página faça perguntas, em vez de palavras-chave para conseguir o que procura, seja uma resposta precisa, um FAQ ou um documento inteiro. Com isso, a AWS afirma que as buscas que resultam em longas listas de links, onde a resposta estaria em algum lugar, estão com os dias contados.

A linguagem natural permite que o usuário obtenha respostas mais específicas de qualquer lugar nos seus dados. O usuário poderá fazer perguntas como “O suporte técnico de TI está aberto ao meio-dia?” Ou “Como eu me conecto à minha VPN?” Mesmo nesses termos, será possível obter respostas mais precisas.

O Kendra usa linguagem natural para entender as pesquisas dos usuários / Crédito da foto: Divulgação

A partir do Kendra, a AWS afirma que será possível reunir todos os dados em apenas alguns cliques, permitindo que os desenvolvedores não precisem mais usar silos de informações. O Kendra permite adicionar conteúdo de sistemas de arquivos, SharePoint, sites da intranet, serviços de compartilhamento de arquivos e muito mais, em um local centralizado. Dessa forma, o visitante de uma página ou app conseguiria pesquisar com mais rapidez para encontrar a melhor resposta.

Como toda plataforma dotada de aprendizado de máquina, o Kendra absorve as informações, melhorando constantemente os resultados da pesquisa ao longo do tempo. Isso porque os algoritmos de machine learning do sistema aprendem quais resultados os usuários acham mais valiosos. As empresas também terão a opção de refinar os resultados, ajustando manualmente a importância de determinadas fontes de dados ou a atualização do documento.

Melhoras nos resultados de pesquisa

Para que o entendimento de buscas fique cada vez mais eficiente, a AWS afirmou que o Kendra usa um sistema de aprendizagem incremental. Isso significa que treina ativamente os modelos de aprendizado aprofundado criados para seu conjunto de dados e padrões de uso dos funcionários para melhorar a precisão da pesquisa. À medida que os usuários finais interagem com os resultados da pesquisa, o Kendra ajusta seus resultados. Isso significa que, se você clicar em um resultado ou dar um "joinha", o Kendra aprenderá quais resultados são mais relevantes e os mostrará primeiro.

Além disso, o Kendra permite que os administradores dos sites e aplicativos possam ajustar manualmente a relevância dos termos buscados; eles poderão aumentar certos campos no seu índice, como atualização do documento, contagem de visualizações ou fontes de dados específicas. Será possível, por exemplo, otimizar documentos que não são apenas visualizados com mais frequência, mas também mais recentes, como notícias ou atualizações de tendências.

O Amazon Kendra pode eliminar buscas que terminam em listas intermináveis de links / Crédito da foto: divulgação

Para completar, ao usar modelos de aprendizado profundo para entender as consultas em linguagem natural, o Kendra consegue documentar o conteúdo e as estruturas de uma ampla variedade de casos de uso internos, como RH, operações, suporte e P&D. O sistema também é otimizado para entender uma linguagem complexa de domínios como TI, serviços financeiros, seguros, produtos farmacêuticos, manufatura industrial, petróleo e gás, jurídico, mídia e entretenimento, viagens e hospitalidade, saúde, RH, notícias, telecomunicações, mineração, alimentos e bebidas e automotivo. Isso significa que você pode fazer uma pergunta como "Posso adicionar crianças como dependentes no meu plano de saúde?" E o Kendra fornecerá respostas relacionadas às suas opções de assistência médica.


Kendra x Google BERT

O uso de perguntas em linguagem natural no lugar de palavras-chave para obter melhores respostas oferecidos pelo Kendra lembra um projeto que o Google vem desenvolvendo em seu mecanismo de buscas: o BERT, uma nova linguagem que, além das palavras-chave, passa a considerar a sequência e contexto delas em uma frase.

Sigla para Bidirectional Encoder Representations From Transformers, o BERT passa a levar em conta outros fatores para entregar os resultados. Em evento nos Estados Unidos realizado em outubro último, a empresa explicou a mudança com um exemplo. Vamos supor que alguém procure pela frase: “pegar remédio com prescrição para outra pessoa”. É bem provável que o usuário queira saber se há problema em comprar um medicamento prescrito sem a necessidade da presença do paciente.

Atualmente, plataforma utiliza processamento de linguagem natural. Ou seja, nessa busca, vai escolher palavras-chave como “remédio” e “prescrição”, ignorando todo o contexto da dúvida. Assim, as respostas serão sobre como fazer um pedido ou quais remédios exigem prescrição. Com o Bert, a sequência das palavras, incluindo as não-chaves, seriam levadas em conta. Assim, o Google teria capacidade de entender que o usuário quer saber se é possível pegar o remédio para outra pessoa.

Google Bert: a gigante das buscas também investe na linguagem natural para melhorar os resultados de pesquisas

Outro exemplo apresentado pela companhia é para a busca da frase “quantos anos a Taylor Swift tinha quando Kanye a interrompeu”. A ideia aqui é mostrar que antes o Google buscaria pelos nomes dos dois artistas e entregaria uma reportagem mostrando que Kanye entrou no palco no MTV VMA e interrompeu a cantora, sem revelar a idade.

Com o Bert, como a pergunta “quanto anos” aparece primeiro na frase, então, o Google passa a trazer respostas que enfatizam que a cantora tinha 19 anos na época. É a posição das palavras que faz a diferença agora.

Segundo a Google, somente uma a cada 10 pesquisas podem ser modificadas com a adição do Bert. Ou seja, muita gente não vai nem perceber que algo está diferente. Contudo, estamos falando de uma escala de bilhões de buscas por mês, sendo que 10% ainda são milhões de resultados. Além disso, até o momento, o sistema funciona somente em inglês para buscas nos Estados Unidos. A mudança também vai impactar outras plataformas da Google como o Maps e o YouTube. Além disso, a mudança faria com que sites de nicho possam atrair mais gente.

E eles vão mesmo competir com Google?

Bom, ao vermos a proposta do Kendra aqui no Re:Invent 2019, nós fizemos o que qualquer bom jornalista faria ao ouvir a explicação do seu funcionamento: perguntamos aos executivos responsáveis se a ferramenta, lá na frente, permitiria a Amazon competir com o Google no mercado de buscas. E, como era de se esperar em um projeto dessa magnitude, eles não confirmaram nada. PORÉM, também não negaram.

Em conversa com o Canaltech, o dr. Matt Wood, vice-presidente da área de Serviços de Inteligência Artificial da AWS, afirmou que o funcionamento do Kendra, por enquanto, é limitado à páginas e aplicativos de empresas por uma simples razão: "Nesses sites, é possível inserir mais semântica na estrutura desses documentos, por estarem em um ambiente menor e mais controlado. Fazer a mesma coisa internet afora demandaria um esforço infinitamente maior, em um projeto de ampla escala", afirmou o especialista.

Notaram que ele não disse que a AWS NÃO estaria pensando em nada nesse sentido? Pode não ser nada. Mas pode ser o começo de algo grande. MUITO grande.

*O jornalista Rui Maciel viajou ao Re: Invent, em Las Vegas, a convite da Amazon Web Services.

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