Funcionários da Google publicam texto em protesto contra o projeto Dragonfly

Por Carlos Dias Ferreira | 16 de Agosto de 2018 às 21h20
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Pelo menos 1,4 mil funcionários da Google assinaram uma carta aberta recente cobrando da companhia maior transparência e postura ética na condução dos seus projetos. Intitulado “Ethics and Transparency Code Yellow” (Código Amarelo para Ética e Transparência), o arquivo teve como principal estopim o recém-divulgado Project Dragonfly — espécie de versão censurada do buscador, atualmente em desenvolvimento para atender às restrições governamentais da China.

“Muitos de nós acreditam que o [projeto] Dragonfly representa uma ameaça à liberdade de expressão e à dissidência política global, violando nossos princípios relacionados à inteligência artificial”, escreveram dois funcionários da Google que emitiram o manifesto por email, ao qual teve acesso o site BuzzFeed New.

Ainda que o texto tenha sido motivado pelo buscador — e também pelo igualmente controverso Project Maven, desenvolvido para o Pentagono —, os remetentes frisam que se trata de uma cobrança mais abrangente. “Embora nós tenhamos nos juntado aos ‘googlers’ nos esforços de resistência [contra esses projetos], é preciso que sejamos claros: empregados individuais se organizando apenas contra o mais recente projeto dúbio não pode ser o único salvaguardo contra decisões antiéticas”, diz o texto.

As demandas do grupo surgem após uma solução considerada paliativa, em que a Google publicou uma lista recomendando utilizações éticas de inteligência artificial. “O que resta claro é que princípios éticos no papel não são suficientes para garantir decisões éticas.” Dessa forma, os funcionários pedem ações mais objetivas relacionadas à transparência, em que se incluem mecanismos de supervisão e responsabilização capazes de “conformar escolhas éticas e deliberações” dentro da Google.

“Primeiro foi um complexo militar industrial, agora é a China.”

Além das questões éticas envolvidas na produção de soluções baseadas em IA, o que os manifestantes intracorporativos da Google consideraram preocupante foi a falha da companhia em seguir seus próprios preceitos proverbiais de transparência. E isso tanto no caso do Dragonfly quanto no do malfadado Mavern, cujos drones projetados para uso militar se tornaram conhecidos apenas tardiamente pelos próprios funcionários da companhia.

Ao conduzir projetos na surdina, Mountain View também feriu de uma tacada vários dos seus slogans relacionados à melhoria geral da humanidade. “O declaração de missão do Google diz, literalmente, ‘Organizar as informações do mundo para torná-las universalmente acessíveis’ — e a censura parece contradizer diretamente a ideia de tornar a informação mais acessível”, lembrou um funcionário anônimo da empresa ao referido site.

Para funcionário da Google, ideia de criar um navegador com censura prévia é inconsistente com a missão declarada da companhia de tornar a informação universalmente acessível

Dessa forma, os manifestos parecem expressar certo temor de que a Google — e também várias outras companhias do setor tecnológico — estejam firmando negócios escusos, orientadas apenas por ganhos financeiros, a despeito de intenções expressas em público. “É como se a Google estivesse capitulando diante de organizações opressivas”, diz o mesmo sujeito. “Primeiro foi um complexo militar industrial, agora é a China.”

Quixote contra a censura estatal?

No caso particular do Project Dragonfly, entretanto, a visão dos manifestantes virtuais não representa propriamente uma unanimidade. Conforme apontou o BuzzFeed News, passados poucos dias do vazamento do projeto, um empregado de dez anos da Google atuando em Pequim chamou a atenção para certa inocência da cobrança ética.

Em publicação anônima reproduzida pelo site, o funcionário — atuante desde 2006 — apontou como “ingênua” a noção de que a Google deveria empreender uma batalha contra os organismo de censura da China. Afinal, ao buscar uma participação mais acentuada no mercado chinês, a companhia precisa se aliar a várias companhias que sabidamente atuam de acordo com a cartilha governamental.

“Eu não estou assim tão otimista para crer que a Google, uma companhia de tecnologia, possa de alguma forma promover uma mudança política na China”, escreveu o funcionário. “O que eles realmente ganham por [retornar ao mercado chinês]? Pode ter certeza de que não se trata de gerar utilidade ou de beneficiar as pessoas.”

É razoável esperar que uma empresa de tecnologia se lance sobre censuras estatais seculares - enquanto busca maior participação de mercado?

Postura parecida, ainda que menos beligerante, foi exposta por Allison Day, uma gerenciadora de programas da Google, em entrevista ao BuzzFeed. Para ela, mesmo um buscador restritivo como o Dragonfly ainda pode facilitar em alguma medida o acesso às informações. Quanto ao lucro, trata-se de uma obviedade: “É fácil perceber que a motivação para qualquer corporação é o crescimento, e a China é um mercado gigantesco”.

Retorno ao mercado chinês

Se o Dragonfly seguirá ou não o caminho do (aparente) engavetamento Project Maven — e parece pouco provável que siga —, fato é que a Google trabalha ativamente há anos para garantir um retorno ao rico quinhão da China, desde que foi obrigada a encerrar as atividades no país por razões políticas em 2010. E os manifestos recentes têm sido também uma consequência desse retorno várias vezes ensaiado.

Conforme as intenções de Sundar Pichai se tornaram recentemente mais escancaradas, também começou a ocorrer uma série de demissões espontâneas, a título de protesto. “Há questões relacionadas a como [o Dragonfly] é desenvolvido que podem torná-lo mais ou menos preocupante”, disse outra fonte anônima ao BuzzFeed. “Isso deve continuar rodando pela minha cabeça e também pelas cabeças de outros ‘googlers’.”

E os ânimos se acirraram ainda mais após a empresa, notória pela abertura em relação aos seus projetos, passou a vedar o acesso aos arquivos do buscador. “Eles fizeram a mesma coisa com o Maven, e isso deixou as pessoas indignadas”, disse um desenvolvedor da Google ao referido site. “Isso é uma traição da cultura de abertura e transparência que eles fingem seguir”, ele conclui.

Em relação ao manifesto anti-Dragonfly, Google se limita a dizer que "não comenta sobre especulações de projetos futuros". (Imagem: reprodução/Google)

Project Dragonfly e Project Maven à parte, parece pouco provável que a atual efervescência intracorporativa deva arrefecer tão cedo. Até o momento, a Google não se pronunciou sobre a carta, limitando-se apenas a um “nós não fazemos comentários sobre especulações de planos futuros”. Abertura e transparência podem mesmo se tornar ideais cada vez mais distantes. Enquanto isso, o "Google chinês" deve ganhar versão para o Android em algum momento durante os próximos noves meses.

Fonte: BuzzFeed News

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