Denúncia de machismo de palestrante da Campus Party gera movimento #MeuLugarEmTI

Por Ares Saturno | 06 de Fevereiro de 2018 às 09h20
Reprodução

Mulheres campuseiras denunciaram por fala machista o empresário Sérgio Soares, que apresentou a palestra Como a Campus Party Brasil ajudou a criar uma fábrica de hardware em uma empresa de software, que aconteceu no Palco Entrepreneurship, das 00h às 00h45, na madrugada do dia 2 de fevereiro.

Segundo as denúncias feitas, ele foi visto falando a cerca de 15 outras pessoas, logo após o fim de sua palestra, em um local próximo à Campus Party, que mulheres não deveriam ser contratadas para trabalharem em empresas de TI. A explicação do retrocesso à Idade Média seria que muitas mulheres em um mesmo ambiente profissional fariam bagunça demais, atrapalhando o andamento do trabalho.

Em entrevista ao UOL, Sérgio Soares negou que tenha feito o comentário do qual é acusado, explicando que respeita muito as empregadas de sua empresa, que ele afirmou serem "quase cinquenta por cento" do total de trabalhadores, e disse que jamais afirmaria um impropério desses em público. Entretanto, nós sabemos que o mercado de trabalho em TI é resistente à diversidade e é dominado por homens, independentemente de Sérgio ter proferido as palavras da qual o acusam.

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Diversidade e resistência: mulheres posam com placas com a hashtag #MeuLugarEmTI

Independentemente de Sérgio ter assumido a fala ou não, o comentário retrata a realidade de milhares de mulheres brasileiras, que encontram dificuldades para seguir carreira dentro da área de TI. Foi sobre essa realidade que nos falou Miguel Soares, uma pessoa trans não-binária, desenvolvedora front-end na Codamos e campuseira.

"As mulheres são minoria na área de TI não por não desejarem atuar na área ou por não terem capacidade, mas por enfrentarem, desde a infância, barreiras para trabalhar nas áreas das exatas. Existem estatísticas comprovando que as mulheres não só são minoria na área de TI, como também recebem salários menores quando comparadas a homens exercendo a mesma função com qualificações semelhantes. Portanto, é injusto que um palestrante diga a outros homens para não contratarem mulheres; eu me sinto impotente", disse ela.

"A gente realiza um trabalho muito bonito no Codamos para incentivar as mulheres a participarem e ocuparem seus lugares em TI", disse Miguel, fazendo alusão à hashtag criada para combater a misoginia na área da Tecnologia da Informação, após a exposição do caso, a #MeuLugarEmTI.

Quem também prestou seu parecer sobre o caso foi Fernanda Monteiro, mulher trans e coordenadora de operações da Rede Fab Lab Livre de SP na Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia e co-organizadora do coletivo MariaLab, que também atua no incentivo às mulheres na área de TI.

"O trabalho das comunidades de mulheres em tecnologia, em especial as que trabalham com uma abordagem feminista, é de máxima importância, independentemente de como as versões são apresentadas ou relativizadas. Ações como a hashtag #MeuLugarEmTI e toda a mobilização em torno do caso dentro e fora da Campus Party Brasil mostram o poder de acolhimento que muitas vezes não é demonstrado por empresas e grandes instituições, o que só reforça que a própia natureza de tentar diminuir as vozes de vítimas e testemunhas de machismo só o revela ainda mais verídico e existente neste meio", disse ela com exclusividade ao Canaltech.

#PraCegoVer: Um banner pendurado nas instalações da CP2018 diz "Programe como uma garota"

Apesar do imenso banner que foi instalado nas dependências da Campus Party, convidando todos a programarem como uma garota e a abrir o acesso às mulheres na atuação em tecnologia, a organização do evento não tomou, ainda, um posicionamento oficial sobre a denúncia de machismo. Aline Carvalho, uma das embaixadoras da 11ª edição do evento e membro da ONG Women in Aviation, onde promove ações para incentivar mulheres nas carreiras junto à aeronáutica, se pronunciou no Twitter sobre o ocorrido:

Ao Canaltech, a organização da Campus Party disse estar investigando a suposta fala do palestrante e apurando o ocorrido com todas as partes envolvidas para que sejam tomadas as medidas cabíveis.

"A organização reforça que não compactua e repudia qualquer manifestação de preconceito e lembra que nos últimos anos vem estimulando o incremento da presença de mulheres no evento, seja convidando mais mulheres a palestrarem, ou incentivando comunidades femininas a participarem. Em 2015, eram apenas 27% as mulheres campuseiras, nessa edição esse percentual subiu para 43%. Já entre as palestrantes mulheres o número dobrou de 2017 para 2018", disse a organização em comunicado oficial.

Alda Rocha, responsável pelo Codamos, atua há anos na luta para para a inclusão de diversidade na área de tecnologia, em especial no acolhimento de mulheres no mercado de trabalho e na produção de saber científico. Presente no evento justamente para falar sobre os desafios na inclusão de pessoas diversas na TI, ela relata que precisou pedir espaço ao pessoal da O Boticário para que pudesse realizar a apresentação, uma vez que não havia organização, espaço ou microfones para que seu trabalho fosse apresentado ao público.

Alda deu visibilidade às postagens com a hashtag #MeuLugarEmTI com o intuito de mostrar ao mundo a força e as histórias por trás das profissionais brasileiras de TI, o que acabou se transformando em muito mais do que uma simples denúncia contra alguém específico.

"A minha ideia não foi criar uma hashatg para falar mal do Sérgio. Se ele falou o que estão o acusando de falar, ele é só mais um que sustenta esse posicionamento retrógrado. Se as pessoas ainda pensam que não devem existir mulheres na Campus Party e na TI, vamos mostrar que a gente deve, sim, estar aqui. A intenção em compartilhar a hashtag foi mostrar ao mundo a nossa força e que temos capacidade de trabalhar com tecnologia", explicou.

Foi com o intuito de mostrar para todos que acreditam que o lugar da mulher não é na TI que as histórias pessoais e habilidades técnicas das profissionais rechearam o Twitter com exemplos de trabalhadoras com capacidade para atuar no mercado. "As mulheres que atuam com TI são poucas, mas estão há muitos anos lutando para conseguir que outras mulheres não encontrem um mercado tão fechado num futuro próximo", disse Alda Rocha ao Canaltech. "A gente tem um longo trabalho para fazer com que as pessoas vejam que do lado delas existem mulheres sensacionais que podem contribuir muito para palestrar num evento, para fazer oficinas e workshops, dar aulas, enfim, para falar de tecnologia como um todo".

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