Professor desenvolve IA que escreve histórias próximas da lógica humana

Por Rafael Rodrigues da Silva | 12 de Agosto de 2019 às 22h05

O trabalho com o desenvolvimento de Inteligências Artificiais (IA) é um dos mais elaborados por universidades do mundo todo. E um dos objetivos dos pesquisadores do Instituto de Tecnologias da Linguagem da Universidade Carnegie Mellon (EUA) é o de desenvolver IAs que consigam escrever histórias cada vez melhores.

E, de acordo com uma pesquisa apresentada no Segundo Workshop de Storytelling, que acontece na cidade de Florença (Itália), o foco atual da Universidade para esse objetivo é o de ensinar as IAs que criam histórias a escrever um final melhor. Apresentado pelo professor Alan Black, a pesquisa mostra como os sistemas automatizados atuais costumam terminar suas histórias como frases genéricas como “E viveram felizes para sempre” ou “Ele estava triste” - nenhuma delas tecnicamente errada, mas que acaba tornando a conclusão dessas narrativas bastante chatas, e que na prática não são muito melhores do que algo totalmente inesperado e talvez sem sentido na narrativa, como “E então o disco voador veio e levou eles embora”.

A pesquisa de Black tem como objetivo exatamente mudar essa característica e desenvolver um modelo de IA que crie finais não apenas que façam sentido com o restante da história mas que também seja diferente o suficiente para torná-la interessante. Para isso, o modelo desenvolvido por ele incorpora no final de uma história não apenas palavras-chave que foram usadas ao longo de toda a narrativa, mas também é ensinado que ganhará “pontos” adicionais se colocar nesse final algumas palavras que não são usadas ou pouco aparecem no texto, como forma de “obrigar” o sistema a gerar um fim mais inesperado.

Um exemplo usado é o de uma história gerada de forma automatizada sobre uma garota chamada Megan, que está participando pela primeira vez de um concurso de beleza, e por isso está bastante nervosa e em dúvida sobre se ela estava fazendo tudo certo ou passando vergonha. Então, ela é chamada de volta para o palco junto com todas as outras candidatas para que os resultados sejam revelados. A partir dessa trama, foi pedido para que diversos algoritmos de escrita automatizada escrevessem um final para a história e esse seria comparado com o final que seria escrito pela IA do professor Black.

As IAs existentes hoje no mercado criaram várias versões dos mesmos dois finais: ou Megan terminava desapontada pelo fato de não ter ganho, ou ela terminava feliz pelo fato de, mesmo sem ter ganho o concurso, ela voltou para casa com uma nova amizade que conheceu durante o evento. Enquanto isso, a IA do professor Black terminou a história afirmando que Megan ganhou o concurso.

Ainda que nem desses finais sejam exatamente complexos, é possível ver claramente que a IA de Black consegue desafiar a lógica: enquanto os sistemas atuais não consideram lógico a possibilidade de Megan ganhar o concurso - independente dela sair feliz ou chateada, o fato de ser a primeira vez que ela participa e estar nervosa faz com que, para esses sistemas, seja impossível ela ter ganho a competição - a IA de Black cria um final que desafia a lógica de uma forma muito mais próximo de uma mente humana, que não consideraria o fato de ser a primeira vez que ela participa e estar nervosa como algo definidor de que ela nunca teria nenhuma chance de ganhar a competição.

E isso foi reconhecido pelos juízes humanos que analisaram todas as narrativas e todos consideraram que o final criado pela IA de Black era, ainda que não tecnicamente, mas tematicamente, superior ao escrito pelas outras IAs - e pode ser o primeiro passo no desenvolvimento de um sistema automatizado para a criação de textos que se assemelham ao trabalho feito por um humano.

A escrita de histórias automatizadas, apesar de ser algo que, em um primeiro momento, não pareça algo tão necessário, pode ser um divisor de águas para o desenvolvimento de videogames. Isso porque um sistema realmente avançado pode ser usado por esses jogos para criar histórias geradas automaticamente com qualidade suficiente para serem usadas como side quests e garantir que os jogadores sempre tenham algum conteúdo para interagir dentro do jogo, fazendo com que o próprio game gere material de forma automatizada e infinita.

Mas, para além dos videogames, um sistema desses também possui aplicações no ambiente real, como, por exemplo, para a escrita de manuais de usuário ou listas de instruções sobre como montar ou usar um produto.

Fonte: Universidade Carnegie Mellon

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