Humanos 2.0 | Conceitos iniciais sobre Biohacking e ciborguismo

Por Ares Saturno | 23 de Janeiro de 2018 às 12h00
photo_camera H. R. Giger

Esta matéria é a primeira de uma série que tratará sobre um dos assuntos mais polêmicos (e empolgantes!) da atualidade, o biohacking. Misturando a manipulação do orgânico através da biologia sintética com a ética hacker, que prega acessibilidade democrática ao conhecimento com o menor custo possível, o biohacking propõe alterações corporais para melhoria de características específicas.

Ao falar assim, a imaginação nos joga para casos de ciborgues modernos que fizeram alterações radicais em seus corpos. Neil Harbisson, por exemplo, era um jovem adulto acometido por uma forma de daltonismo que não o permitia enxergar nenhum tipo de cor. Tal condição foi alterada quando Harbisson implantou em seu crânio o eyeborg, uma antena que capta a frequência das cores dos objetos que Harbisson vê e as traduz em som. A partir daí, foi só Harbisson, que tem formação acadêmica na área musical, decorar os sons que cada cor produzia e relacionar os sons com os nomes que nós, que enxergamos cores, damos a cada cor. Veja mais sobre o eyeborg de Neil Harbisson na palestra abaixo, com legendas em português:

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Outro ciborgue moderno, Gabriel Licina, injetou Chlorin e6 em seus globos oculares para adquirir visão noturna. A substância é análoga à clorofila e foi coletada de uma espécie de peixe que vive nas zonas abissais, onde não há luz natural. Apesar de parecer loucura, o Chlorin e6 já era utilizado dessa forma para tratamento de cegueira noturna. Você pode ler mais sobre o caso aqui.

Gabriel Licina durante e após a inserção de Ce6

Somos todos ciborgues

Entretanto, não é só de ciborgues que passaram por procedimentos radicais de inserção de substâncias e próteses que vive o biohacking. Na verdade, há quem defenda que, dado o conhecimento tecnológico que hoje temos nas grandes cidades, podemos afirmar que somos, todos, ciborgues.

Com o avanço do saber científico, é natural que a humanidade crie artifícios para melhorar as condições de sobrevivência ou mesmo o conforto e a qualidade de vida. Na área biomédica podemos perceber uma constante evolução, com tratamentos para doenças sendo aprimorados ao longo do tempo, visando sempre a melhoria de sintomas incapacitantes ou incômodos com os mínimos efeitos colaterais.

Um excelente exemplo é o artigo escrito em 1508 por ninguém menos que Leonardo Da Vinci, que teorizava sobre formas de envolver os olhos de quem apresentava problemas de visões em um meio aquoso. A ideia evolui para o uso de lentes convergentes e divergentes, que hoje chamamos de óculos. A inovação não parou por aí: Em 1823, o astrônomo inglês John Herschel descreveu uma cápsula preenchida por gelatina animal que deveria ser colocada na superfície do globo ocular para corrigir problemas de visão, o que foi colocado em prática em 1880 pelos oftalmologistas alemães Adolf Eugen Fick e August Müller, responsáveis pelo primeiro protótipo de lentes de contato, que ganhou design permeável ao oxigênio em 1976. Hoje, lentes de contato são coisa do século passado e a correção de problemas como miopia é feita através de uma cirurgia simples e pouco invasiva que, com um canhão de laser extremamente preciso, modela a córnea, deixando-a mais plana. Indo mais adiante, a cirurgia para a correção de catarata requer aspiração do cristalino acometido e inserção de uma lente intra-ocular através de uma incisão de menos de 3 milímetros na córnea.

Da Vinci: filósofo, inventor, tartaruga-ninja, astrônomo, pintor, etc., etc., etc. E BIOHACKER!

Mas, por algum motivo, não interpretamos uma senhora de idade que teve uma lente inorgânica implantada dentro de sua córnea com o intuito de reverter a catarata causada pela diabetes mellitus tipo 2 como um exemplo de ciborgue. Mesmo que todos os dias ela aplique um hormônio biossintético, resultado de pesquisas laboratoriais que visavam a elaboração de uma substância funcional orgânica através da inserção de genes humanos que produzem insulina em leveduras de células ou bactérias com o intuito de tornar a suplementação hormonal mais acessível e barata, ela não é o primeiro exemplo que vêm à mente quando falamos sobre as pessoas que utilizam o que o biohacking produz.

Apesar de ter duas próteses de titânio no fêmur, próteses corretivas de catarata nos olhos e fazer aplicações diárias de substâncias biosintéticas para regular o funcionamento do corpo, Dona Elba não é ciborgue o suficiente para você.

Mas, afinal, o que é o Biohacking?

É difícil de definir, mas o biohacking é a junção da biologia sintética com a ética hacker. O intuito aqui é tratar o organismo vivo como um componente eletrônico, fornecendo um input como a inserção de substâncias, próteses ou mesmo manipulação elétrica, de acordo com o output desejado, que geralmente inclui a melhoria de alguma característica.  

Dados os exemplos acima, fica mais fácil perceber como o biohacking já faz parte de nossos cotidianos há décadas. E a ética hacker vem no sentido de popularizar e deixar ainda mais acessível o conhecimento e as técnicas necessárias para a manipulação de características orgânicas dos nossos corpos. Subversiva por natureza, a filosofia hacker busca promover o conhecimento da forma mais barata possível. E não há nada mais subversivo que alterar as estruturas orgânicas do corpo que, para alguns, ainda é visto como uma barreira que a tecnologia não deveria ultrapassar.

Segundo o que disse Eduardo Padilha, pesquisador e palestrante na área de biohacking, a junção da ciência com a cultura hacker é uma forma de desenvolver projetos que visam pegar o conhecimento produzido nos laboratórios e no meio acadêmico e trazê-lo para perto da comunidade. Alguns dos projetos que Eduardo coordenou, como o Biohack Academy, estavam voltados para a construção de equipamentos de laboratório, como o microscópio feito a partir da lente de uma webcam que amplia em até 200 vezes a imagem, além da incubadora de custo reduzido para cultura de microorganismos. Ambos os projetos têm o intuito de auxiliar o aprendizado da ciência entre os alunos da educação básica, principalmente da rede pública, onde o ensino das ciências é, muitas vezes, desprovido da parte prática por falta de verbas para equipar um laboratório.

Eduardo Padilha mostra o microscópio feito através da lente de webcams

Mas onde o biohacking quer (e pode) chegar?

Você sabia que, sem sair da sua casa, você pode comprar um kit para coleta do seu próprio material genético e enviar o material para a análise e receber um boletim completo sobre as doenças que seu organismo pode vir a desenvolver para então procurar tratamento precoce ou mesmo interferir nos seus genes para que esses males nunca te acometam? 

Sabia que é possível fazer a inserção subcutânea de um chip com tecnologia NFC Tipo 2  para guardar dados simples, como suas chaves de carteira de criptomoedas ou dados para o desbloqueio do seu celular?

Que com apenas seis linhas de código e um Arduino é possível controlar uma barata comum através do seu smartphone, como podemos ver abaixo?

Saiba sobre tudo isso e muito mais na próxima terça-feira, quando o Humanos 2.0, aqui no Canaltech, trará uma matéria sobre os produtos disponíveis para compra e tutoriais para fazer em casa que são conquistas do movimento biohacking no mundo todo. 

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