Uma outra corrida espacial está em andamento: a dos satélites de internet

Por Patrícia Gnipper | 08 de Maio de 2019 às 17h10

A oferta de internet via satélite existe há tempos, e ainda é a única opção de conectividade que muitas pessoas têm, por estarem em regiões afastadas, como em zonas rurais, por exemplo. Ainda assim, existe uma enorme parcela de pessoas em todo o mundo que não têm nem mesmo esta opção de internet para contratar — e justamente pelo fato de a internet ter se tornado um recurso essencial para o funcionamento da sociedade moderna, algumas empresas privadas vêm protagonizando uma outra corrida espacial: a de lançar milhares de satélites à órbita da Terra para fornecer internet ao mundo inteiro.

Jeff Bezos, CEO da Amazon e da Blue Origin, tem seu projeto Kuiper com o objetivo de colocar 3.236 satélites na órbita capazes de oferecer internet de alta velocidade a qualquer região do globo. Concorrente deste projeto é a OneWeb, que já começou sua missão e, em fevereiro, lançou os primeiros seis satélites para começar a montar a frota — que prevê quase 2 mil unidades no total, mas garante que 600 deles serão suficientes nesta primeira fase de projeto, até o ano de 2021. Outra empresa que está na jogada é a SpaceX, de Elon Musk, com o projeto Starlink — no ano passado, a empresa lançou dois satélites em caráter de testes, e recentemente conseguiu aprovação de órgãos reguladores para lançar 1.500 satélites como parte do projeto.

Sendo assim, dentro de poucos anos veremos pelo menos essas três empresas (sem contar outros projetos menores que ainda estão em fase de desenvolvimento) oferecendo internet de alta velocidade via satélite para qualquer região do planeta. Mas será que há espaço para tantas iniciativas com o mesmo objetivo de uma só vez?

A resposta é: espaço tem, a questão é ver como as empresas batalharão umas contra as outras no que diz respeito à oferta de pacotes considerando velocidades e preços. Na conferência Satellite 2019, que aconteceu em Washington, EUA, nesta semana, profissionais do setor revelaram temer um "banho de sangue" caso Bezos e seu projeto Kuiper decidam esmagar a concorrência ao oferecer preços baixíssimos por uma assinatura.

Afinal, "Jeff Bezos é rico o suficiente para tirar você do mercado", nas palavras de Matt Desch, CEO da Iridium Communications. E, bem, a Iridium tem experiência com falência neste setor: a empresa lançou um telefone via satélite nos anos 1990, que poderia revolucionar o então jovem mercado mobile da época, mas a oferta de um aparelho "tijolão" que custava 3 mil dólares com taxas de chamadas de US$ 3 por minuto não seduziram a população.

Agora, a empresa decidiu se atualizar nos tempos modernos e pretende lançar 66 satélites oferecendo internet global (mas não de banda larga) para clientes institucionais, como navios, aviões, forças armadas e empresas. A Iridium ainda não vai oferecer sua internet via satélite para o público geral e, de acordo com Desch, "o problema com satélites são bilhões de dólares em investimentos", e "se você gastar bilhões e errar, acaba criando uma espécie de inverno nuclear para toda a indústria por 10 anos". "Fizemos isso", acrescentou, lembrando do passado de sua empresa.

A importância da internet via satélite

Se você mora em zonas urbanas, talvez não esteja dando muita bola para a nova empreitada dessas empresas na oferta de internet global via satélite. Afinal, nas cidades a internet é oferecida em conexões de fibra óptica ou via cabo, com várias empresas competindo entre si oferecendo planos variados para públicos diversos. Mas se você mora, já morou, ou costuma visitar áreas mais afastadas, sentindo "na pele" a dificuldade de acessar a internet, certamente está valorizando tais iniciativas — e aguardando o início da venda de assinaturas ansiosamente.

Com constelações de satélites do tipo na órbita do planeta, não importará onde você estará: bastará ter uma antena próxima para conseguir o sinal de internet tão desejado, mesmo estando no "meio do mato". Outra vantagem dessas constelações de milhares de satélites de internet é sua órbita relativamente baixa, importante para reduzir a latência e, consequentemente, proporcionar uma velocidade maior tanto na navegação quanto na realização de chamadas pela internet, ou na transmissão de vídeos e jogos.

Como essas empresas vão lucrar de verdade

É verdade que as maiores concentrações de pessoas estão em cidades, regiões que não são o foco inicial de interesse das novas investidas de internet via satélite. Nas zonas isoladas, as populações não costumam ser assim tão numerosas. Então, como essas empresas vão conseguir lucrar o suficiente para manter suas operações em funcionamento?

A OneWeb, por exemplo, reduziu seus objetivos iniciais e terá como primeiro alvo, assim que sua primeira frota de satélites for completada na órbita, prover serviços de internet para aviões e navios, onde há uma enorme demanda. Dessa maneira, passageiros e tripulações poderão se conectar à vontade, e o preço cobrado para esses casos pode ser maior do que o valor que seria exigido por uma assinatura doméstica numa zona rural, por exemplo.

"O desafio de monetizar é conseguir passar pelos primeiros anos, onde você tem que investir todas as suas despesas de capital, mas não conseguir receitas suficientes para se manter à tona", disse Shagun Sachdeva, analista sênior da Northern Sky. Ele imagina que a maioria das empresas de internet via satélite acabará "morrendo", e entende que o mercado, eventualmente, terá espaço para "talvez duas" delas, somente. Contudo, o analista prevê que os serviços de internet entregues pelo espaço não serão comuns dentro de pelo menos cinco a dez anos.

Fonte: Space Daily

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